A Desconhecida
melodrama
Júlia tem 22 anos, uma mãe doente e uma conta para pagar. A vaga de babá na mansão dos Cavalcante era só um emprego — até deixar de ser. O problema não é que ela se apaixonou pelo herdeiro. O…
CAPÍTULO 1
O Outro Lado da Cidade
O ônibus partiu às seis e quarenta da manhã, e Júlia ficou de pé até a Brigadeiro Faria Lima, onde um homem de terno saiu e ela pegou o assento quente que ele deixou. Encostou a testa no vidro embaçado e viu a cidade mudar de cara enquanto o trajeto avançava — as fachadas descascadas dando lugar a prédios de vidro, as calçadas quebradas virando canteiros de palmeiras imperiais, o barulho do Capão cedendo para outro tipo de barulho, mais suave, mais caro.
Ela tinha o endereço escrito no celular. Tinha pesquisado no Google Maps três vezes. Sabia que precisaria pegar outro ônibus na Paulista e depois andar seis minutos a pé. Tinha calculado a passagem de volta, o custo do dia, o quanto ia sobrar se conseguisse o emprego. Não tinha calculado como ia se sentir quando o portão aparecesse.
O portão era negro, alto, com ponteiras douradas. Não era a casa maior da rua — Júlia olhou para os dois lados e reparou que eram todas grandes —, mas havia algo naquele portão específico que sinalizava: aqui tem mais. A grade tinha espaçamento fechado, como se não quisesse mostrar nada do que estava dentro. Uma câmera pequena, discreta, apontada para quem chegava. Uma campainha de inox com dois botões.
Júlia respirou fundo, ajeitou a bolsa no ombro e apertou o botão de cima.
— Sim? — A voz era feminina, uniforme. Funcionária, provavelmente.
— Júlia Ramos. Tenho entrevista com a Sílvia Cavalcante às oito horas.
Uma pausa. O clique do portão destravando.
Ela entrou.
O jardim era do tipo que aparece em revista. Ela não conhecia o nome das plantas, mas conhecia a lógica do cuidado — aquilo era trabalho de jardineiro semanal, talvez dois por semana, talvez um fixo. A grama tinha a cor de grama que só existe quando alguém se dedica à grama. As pedras brancas do caminho estavam posicionadas com atenção. Havia um chafariz pequeno, desligado, de pedra escura. Havia duas árvores que davam sombra de modo calculado.
Júlia não estava impressionada. Estava processando.
Era diferente de estar impressionada. Impressionada seria ficar boquiaberta, ficar pequena, sentir que não pertencia. O que ela fazia era outra coisa: registrava, catalogava, tentava entender a lógica daquele espaço para poder navegar nele. Era o mesmo instinto que usava no Capão quando entrava em algum lugar novo — você lê o ambiente antes do ambiente te ler.
A porta da frente era dupla, madeira escura com vidro trabalhado. Antes que ela chegasse, a porta abriu.
A mulher que abriu não era funcionária.
Júlia soube disso no primeiro segundo. Havia uma diferença entre a postura de quem abre a porta por obrigação e a postura de quem abre a porta porque aquela porta é dela. Sílvia Cavalcante tinha cinquenta e poucos anos, cabelo castanho tratado, um conjunto de calça e blusa que parecia simples mas não era. Ela ficou de pé no vão da porta e não deu um passo para o lado para convidar Júlia a entrar.
Ela olhou.
Foi um olhar longo, completo, sem disfarce. Da cabeça para os pés e de volta. Júlia estava usando a melhor calça que tinha, uma blusa limpa e passada, um par de sapatilhas que ainda estava inteiro. Ela sabia que estava apresentável. Sabia também o que aquele olhar estava inventariando — não se ela era apresentável, mas de onde ela vinha.
Júlia sustentou o olhar.
— Júlia Ramos — disse ela. — A senhora deve ser Sílvia Cavalcante.
— Deve ser — Sílvia concordou, com um tom que não concordava com nada. — Entre.
O hall de entrada tinha piso de mármore claro, listrado de cinza. Tinha um lustre que não era grande, mas era preciso — o tipo de lustre que não chama atenção para si mesmo mas faz o ambiente brilhar de outro modo. Havia um aparador de madeira com uma vaso de flores brancas, frescas. Um espelho de moldura antiga. Uma escada larga, de madeira escura, subindo em curva suave.
Sílvia conduziu sem esperar, e Júlia seguiu.
— A posição é de babá e acompanhante do Bento — disse Sílvia, sem olhar para trás. — Ele tem seis anos. Está morando conosco temporariamente enquanto os pais dele viajam. Vai precisar de alguém presente das sete da manhã às oito da noite, de segunda a sábado.
— Entendo.
— Você já trabalhou com crianças?
— Trabalhei como auxiliar em creche por dois anos, no Capão Redondo. E cuidei de vizinhos menores desde que me lembro.
— Creche é diferente de cuidado individual — disse Sílvia.
Não era uma pergunta. Era uma correção preventiva.
— Concordo — disse Júlia. — Por isso estou aqui para aprender o que a senhora precisa especificamente para o Bento.
Sílvia parou na entrada de uma sala. Virou-se pela primeira vez desde que entraram. Olhou de novo para Júlia, dessa vez com uma atenção diferente — não de cima para baixo, mas direta, como se tentasse encontrar alguma coisa no rosto dela.
Júlia não soube o que era. Na época, achou que era desconfiança comum.
— As refeições — disse Sílvia — são servidas na cozinha de serviço, não na copa principal. O quarto designado fica nos fundos, térreo. Você não circula pelas áreas sociais a não ser quando estiver acompanhando o Bento por instrução minha. Há funcionários responsáveis pela limpeza e pela cozinha; você não interfere no trabalho deles.
— Certo.
— O celular fica no silencioso durante o horário de trabalho.
— Certo.
— Tem alguma pergunta?
— Sim. Qual é a rotina do Bento? Ele vai à escola?
Pela primeira vez, algo no rosto de Sílvia mudou de forma imperceptível. Não chegou a ser aprovação. Mas não era mais só avaliação.
— Ele frequenta uma escola particular aqui no bairro, de manhã. Você o busca ao meio-dia e cuida dele até a noite. Tardes livres em casa ou em atividades que eu autorizo previamente.
— Entendido.
Antes que Sílvia continuasse, houve um barulho de passos rápidos e um menino apareceu pela escada, descendo os últimos degraus com a atenção completa nas mãos — ele estava tentando segurar uma bola pequena enquanto descia, o que era uma combinação de pouca coordenação e muita determinação.
Bento tinha cabelo bagunçado, pijama ainda vestido às oito da manhã, e uma expressão de quem acabou de acordar e já tinha uma missão.
Ele chegou ao final da escada, levantou os olhos, e viu Júlia.
Parou.
— Quem é você? — perguntou, sem cerimônia.
— Júlia.
— Você vai cuidar de mim?
— Talvez. Estou aqui para ver se a gente se dá bem.
Bento considerou isso com a seriedade de seis anos. Jogou a bola para o alto, tentou pegar, errou, e a bola rolou até o pé de Júlia. Ela abaixou, pegou, e devolveu — não como quem devolve um objeto, mas num arremesso baixo, calculado, que Bento conseguiu pegar com as duas mãos.
O rosto dele abriu num sorriso.
— Você sabe jogar?
— Sei um pouco.
— A Tia Sílvia não sabe.
— Bento — disse Sílvia, com um tom que encerrava conversas.
O menino fechou o sorriso mas não perdeu o interesse. Ficou olhando para Júlia com a atenção concentrada que as crianças têm e os adultos perdem.
Sílvia virou-se para Júlia.
— Você começa segunda-feira.
Não foi uma pergunta. Não foi uma oferta. Foi uma informação.
Júlia olhou para a mulher à sua frente — os ombros retos, os olhos que não tinham sorrido em nenhum momento, a boca que tinha a curvatura permanente de quem está acostumada a não precisar explicar nada. E olhou para Bento, que ainda esperava, a bola entre as mãos, com aquela expectativa pura que as crianças têm antes de aprender que o mundo complica.
— Segunda-feira — disse Júlia.
Na saída, quando o portão negro fechou atrás dela com um clique definitivo, ela ficou de pé na calçada por um momento. O sol ainda estava baixo, a rua vazia, as palmeiras imperiais imóveis sem vento.
Ela tirou o celular do bolso e mandou mensagem para a Dona Rosa: *Consegui. Começo segunda.*
Depois colocou o celular no bolso, ajustou a bolsa no ombro, e começou a andar em direção ao ponto de ônibus.
Ela precisava do dinheiro. Essa era a única coisa que importava.
Ela repetiu isso para si mesma o caminho inteiro de volta.
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