LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 5
A Jogadora
Ele não apareceu na segunda. Nem na terça.
Eu estava preparada — blazer do brechó, calça de alfaiataria, coque baixo com gel que segurou o cabelo crespo por exatas seis horas antes de começar a soltar nas bordas. O sorriso número dois carregado, o repertório de frases atualizado, a postura ensaiada. E Gabriel Monteiro, o alvo cuidadosamente selecionado, simplesmente não veio.
Frustração é um sentimento que eu me proíbo. Frustração é o que sente quem depende dos outros. Eu não dependo — eu me adapto. Então passei segunda e terça fazendo o que faço de melhor: observando. Frequentei a biblioteca (segundo andar, seção de periódicos — é onde a turma de Economia fica), a cantina no horário do almoço, o pátio interno onde o pessoal toma sol entre as aulas. Sem Gabriel.
Quarta-feira. Aula de Teoria Geral do Direito, oito da manhã. Eu chego às 7h40 — vinte minutos antes, porque vinte minutos é o buffer que garante que eu nunca chegue suada, nunca chegue ofegante, nunca chegue com cara de quem acabou de sobreviver três horas de transporte público.
Sento no meu lugar. Terceira fileira, canto esquerdo. Abro o caderno. Bia ainda não chegou — ela chega sempre em cima da hora, com um copo de café de alguma franquia na mão e a expressão de quem acha que pontualidade é opção.
A sala vai enchendo. Pedro Lacerda, de camisa social e tênis branco. Fernanda Prado-Whitaker, com bolsa que custa mais que meu mês de aluguel. Rodrigo, a namorada, dois caras que eu classifiquei como "irrelevantes por enquanto" — filhos de empresários médios, patrimônio alto mas não estratosférico.
E então.
7h53. A porta se abre e ele entra.
Gabriel Monteiro entra numa sala de aula como quem entra num elevador: sem cerimônia, sem olhar ao redor, como se o espaço não tivesse expectativa sobre ele. Mochila no ombro esquerdo — preta, sem marca visível, levemente deformada pelo peso. Camiseta cinza, lisa, de algodão que parece macio demais para ser barato — provavelmente é, mas ele veste como se fosse de promoção. Jeans escuro, tênis New Balance surrado. E o cabelo.
O cabelo de Gabriel Monteiro é uma declaração de indiferença. Castanho, ondulado, comprido o suficiente pra cair na testa, curto o suficiente pra não ser uma escolha estética deliberada. Ele claramente não fez nada com ele hoje — nem ontem, possivelmente nem anteontem. É o cabelo de alguém que tem coisas mais importantes pra pensar, ou nada importante o suficiente pra se arrumar.
E os olhos. Agora, de perto — porque ele senta na quinta fileira, duas atrás de mim, e eu o vejo de relance quando giro quinze graus para "ajustar a mochila" — os olhos são castanho-escuros, quase pretos, com olheiras que parecem permanentes, como se insônia fosse uma condição genética. Olhos que olham sem focar, como se estivessem sempre levemente desapontados com o que veem.
Ele não fala com ninguém. Senta, tira o notebook da mochila — um MacBook Pro, o único item que entrega a classe dele —, e começa a digitar algo. Não olha ao redor. Não procura ninguém. É como se a sala fosse um lugar que ele precisa estar, não que ele quer.
Eu catálogo tudo em tempo real. O cérebro dispara como um algoritmo treinado: a postura dele (levemente curvada, ombros caídos — alguém que não quer ser visto apesar de medir pelo menos 1,85), as mãos (grandes, dedos longos, veias visíveis — mãos que não trabalham manual mas tampouco são excessivamente cuidadas), o cheiro — e aqui eu preciso ser precisa, porque o cheiro é informação.
Quando ele passou por mim na fileira, a dois metros de distância, eu senti: amaciante. Amaciante de roupa cara — aquele que não tem perfume floral nem frutado, tem um frescor limpo, como lençol de hotel. E por baixo, café. Não o espresso da cantina — café de manhã, recente, como se ele tivesse acabado de tomar. E nada mais. Sem perfume, sem desodorante ostensivo, sem nada que tente impressionar. O cheiro de alguém que simplesmente existe, sem curadoria.
Isso me irrita profundamente.
Porque eu passo quarenta minutos por dia me curando. Cada detalhe calculado, cada cheiro escolhido — o hidratante de coco que Bia elogiou ("que cheirinho bom!"), o perfume emprestado de uma amostra grátis que ganhei na Sephora da Paulista fingindo interesse em comprar. Eu me construo molécula por molécula. E ele simplesmente é.
* * *
A aula começa. A professora — Dra. Helena Vasconcelos, Teoria Geral do Direito, cabelo curto, óculos no topo da cabeça, voz que não pede atenção mas assume que a terá — fala sobre justiça distributiva. Rawls, o véu da ignorância.
— Imaginem — ela diz — que vocês não sabem onde nasceram. Não sabem se são ricos ou pobres, brancos ou negros, homens ou mulheres. Que sociedade vocês construiriam?
Eu quase rio. O véu da ignorância. O conceito mais bonito e mais inútil da filosofia política. Porque ninguém aqui precisa imaginar — eles já sabem onde nasceram, e nasceram do lado certo.
A professora faz uma pergunta aberta. Silêncio — aquele silêncio de sala de aula em que todo mundo espera que outra pessoa fale primeiro. Pedro Lacerda levanta a mão, responde algo genérico sobre meritocracia. Fernanda concorda.
E então Gabriel fala.
Não levanta a mão. Não pede licença. Simplesmente fala, como se a frase já estivesse pronta e ele precisasse se livrar dela:
— O problema do véu da ignorância é que ele pressupõe que as pessoas, não sabendo sua posição social, escolheriam a justiça. Mas talvez escolhessem exatamente o sistema que temos — apostando que cairiam do lado certo.
A voz. Grave. Não grossa — grave. Com uma textura que parece mais escura que o normal, como se as palavras viessem de um lugar mais fundo. E sem afetação. Sem o tom performático que os outros usam quando falam em sala — aquele tom de "estou sendo inteligente, notem". Gabriel fala como se estivesse pensando em voz alta e tivesse esquecido que havia plateia.
A professora sorri. Não o sorriso pedagógico de "boa tentativa" — o sorriso de quem ouviu algo que vale a pena.
— Interessante, senhor Monteiro. Você está sugerindo que a natureza humana inviabiliza a teoria?
— Estou sugerindo que a teoria é bonita demais pra gente feia como a gente.
Risadas na sala. Leves, surpresas. Gabriel não sorri — olha pra baixo, pro notebook, como se já tivesse se arrependido de ter aberto a boca.
Eu não rio. Eu anoto mentalmente:
"Inteligente. Articulado sem esforço. Autocrítico (incluiu a si mesmo no 'gente feia'). Desconfortável com atenção. Honesto de um jeito que beira o autodestrutivo."
Cada palavra dele que eu registro é uma peça a mais no mapa. E o mapa está ficando mais complexo do que eu esperava.
* * *
No intervalo, eu não vou atrás dele. Essa é a regra: nunca perseguir. Estar no caminho. Existir no campo visual. Ser uma presença constante mas passiva, como um livro na prateleira que você nota todo dia até que um dia decide abrir.
Vou à cantina com Bia. Sentamos na mesa de sempre. Peço a salada subsidiada — "comendo leve", a desculpa de sempre. Bia fala sobre uma festa na sexta, sobre o Pedro que olhou pra ela na aula, sobre o professor de Constitucional que é "tipo, um absurdo de gato pra idade dele".
Eu ouço, respondo, calibro. Mas meus olhos, disciplinados a escanear sem parecer que escaneiam, localizam Gabriel.
Ele está sozinho. Numa mesa no canto, perto da janela, com um sanduíche que parece ter vindo de casa — pão de forma, algo dentro que não dá pra identificar — e um livro. Um livro físico, de papel, enquanto todo mundo ao redor olha celular. Ele come devagar, lê, e não levanta os olhos.
A solidão dele não é da exclusão. É da escolha. Ele poderia sentar em qualquer mesa — bastaria dizer "oi" e o sobrenome faria o resto. Mas ele escolheu o canto. Escolheu o livro. Escolheu ser invisível num lugar onde seu nome é uma senha VIP.
E isso, contra toda a lógica do meu plano, me fascina.
Não de um jeito romântico — eu não me permito isso. Me fascina como problema. Como equação que não fecha. Porque tudo que eu sei sobre ricos me diz que eles querem ser vistos, querem ser admirados, querem que o mundo saiba do patrimônio mesmo quando fingem que não. E Gabriel parece genuinamente querer desaparecer.
Como se entra no radar de alguém que não quer ter radar?
— Rê? — Bia estala os dedos. — Tá aí?
— Desculpa. Pensando na monografia.
— Monografia já? A gente tá na segunda semana!
— Eu gosto de planejar.
Bia revira os olhos com afeto. Ela acha que eu sou estudiosa — CDF, como ela diz com um carinho que me incomoda. Eu sou, de fato, estudiosa. Mas não pelo motivo que ela imagina.
* * *
A tarde traz a aula de Direito Constitucional. O professor — Dr. Campos, que de fato é absurdamente bonito para a idade, o que é completamente irrelevante para os meus propósitos — discute direitos fundamentais. Eu tomo notas impecáveis. Não por disciplina acadêmica — por performance. Quero que vejam meu caderno organizado, minha caneta sublinhando trechos importantes, minha postura de aluna dedicada. Quero construir a imagem: Renata Oliveira, a garota séria, inteligente, que veio de Pinheiros e leva os estudos a sério.
Gabriel está duas fileiras atrás. Eu sei porque o ar-condicionado sopra naquela direção e trouxe de novo o cheiro de amaciante limpo.
Na saída, acontece.
Não por acaso — nada é por acaso quando eu estou envolvida, embora eu tenha me tornado excelente em fingir que é. A porta do anfiteatro é estreita, e o fluxo de alunos cria um gargalo natural. Eu cálculo: se eu guardar o material devagar, vou sair ao mesmo tempo que a quinta fileira. Se a quinta fileira inclui Gabriel, que senta no canto direito e portanto sai por último, eu vou estar no gargalo quando ele chegar.
E estou.
A mochila dele bate no meu ombro. Leve, mas eu sinto.
— Desculpa — ele diz.
Eu olho pra ele. De perto, os olhos são ainda mais cansados do que pareciam à distância. As olheiras têm camadas, como geologia de noites mal dormidas. A boca é grande, lábios finos, sem sorriso — mas sem hostilidade. Neutro. Como alguém que economiza expressões.
— Sem problema — digo. Sorriso número dois. Breve.
Ele assente e segue andando. Mochila no ombro, cabeça levemente abaixada, como se o mundo fosse pesado demais para manter o queixo ereto.
Pronto. Primeiro contato. Microscópico, insignificante, um esbarrão de dois segundos num corredor de faculdade. Mas existe. Eu existo no campo de percepção dele agora — mesmo que como um borrão, uma moça que ele esbarrou na porta.
É o suficiente. Por enquanto.
* * *
No ônibus de volta, eu penso nele.
Não quero pensar nele — quero analisar. Mas a linha entre os dois é fina, e o ônibus que sacoleja pela Radial Leste não ajuda a manter a clareza. Apoiada na barra de metal, espremida entre um homem de uniforme e uma mulher com sacola do Extra, eu penso na voz dele dizendo "gente feia como a gente".
Ele se incluiu. O herdeiro de doze bilhões de reais olhou para uma sala de aula e disse "a gente" incluindo a si mesmo na falha humana. Isso é humildade ou é culpa? Autenticidade ou performance invertida — a performance de não performar?
Eu não sei. E não saber me incomoda mais do que qualquer coisa.
Porque o meu plano depende de previsibilidade. Depende de entender como as peças se movem. Se Gabriel é previsível — o bom moço ingênuo, o herdeiro com coração, o idealista que busca autenticidade —, eu sei exatamente que personagem vestir pra ele. A garota inteligente, independente, que não liga pra dinheiro. A que o vê como pessoa, não como patrimônio. A que é "diferente" das outras.
Mas se Gabriel é imprevisível — se a solidão dele não é solidão mas escolha, se o cansaço não é fraqueza mas peso consciente, se ele é mais observador do que parece —, então eu preciso ser mais cuidadosa. Muito mais.
* * *
Em casa, a Jéssica está brigando no telefone.
— Eu não vou, Wesley! Para de insistir! — E desliga com a agressividade de quem bate uma porta invisível.
Wesley. Eu ouvi esse nome antes — sussurrado entre as vizinhas, mencionado de passagem por Jéssica, sempre com uma casualidade forçada demais. Wesley é um garoto do bairro, dois anos mais velho, que usa boné de aba reta e anda de moto que não combina com o salário que ele deveria ter.
— Quem é Wesley? — pergunto, sabendo a resposta.
— Ninguém.
— Jéssica.
— Ninguém, Renata. Tá bom? — Ela me olha com aquela irritação de dezesseis anos que é dez por cento raiva e noventa por cento medo de ser descoberta.
Eu conheço essa olhada. Eu a dou todo dia.
— Se ele for problema, eu preciso saber.
— Você não precisa saber de nada. Você mal tá aqui.
A frase me atinge como um soco no estômago. Não pela agressividade — pela verdade. Eu mal estou aqui. Saio às quatro da manhã, volto às nove da noite, e no meio fico sendo outra pessoa num outro mundo. Jéssica fica sozinha com a mãe que trabalha, o pai que sumiu, e as decisões de uma adolescente de periferia que ninguém está monitorando.
— Jess...
— Boa noite, Renata.
Ela se vira pro beliche, coloca o fone, e me exclui. E eu fico ali, de pé na sala-quarto, com o cheiro de feijão e a culpa que eu não posso me dar ao luxo de sentir.
Porque se eu parar pra sentir culpa pela Jéssica, vou parar pra sentir culpa pela minha mãe, vou parar pra sentir culpa pelas mentiras, e a casa toda desaba. E eu preciso da casa em pé. Preciso da estrutura. Preciso do plano.
O plano. Gabriel Monteiro. A Lista. O Manual.
Eu sento na cama e abro o caderno.
"Dia 10. Gabriel Monteiro confirmado como alvo. Primeiro contato estabelecido (mínimo). Próximos passos: criar oportunidades de proximidade. Frequentar biblioteca de Economia (terças e quintas). Observar padrões de rotina dele: onde come, onde estuda, quais eventos frequenta."
"NOTA PESSOAL: ele é mais complexo do que o perfil indicava. Imprevisibilidade requer calibração constante. Não subestimar."
Fecho o caderno. A Jéssica já dorme — ou finge que dorme, o que nesta família dá no mesmo. O funk do vizinho está baixo hoje, quase uma canção de ninar distorcida.
Amanhã, quinta-feira. Biblioteca de Economia, segundo andar, seção de periódicos. Se o padrão estiver certo, Gabriel estará lá.
E eu estarei no mesmo espaço, lendo algo que eu escolhi especificamente para parecer casual, com o blazer que me transforma e o sorriso que me esconde.
O invisível, afinal, só precisa de uma razão para olhar. E eu vou ser essa razão.
Nem que leve semanas. Nem que leve meses.
Eu tenho paciência. É a única coisa que Cidade Tiradentes me deu de graça.