LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
Sangue e Lua
Capítulo 4 — O Estúdio
A semana que se seguiu foi, na superfície, absolutamente normal. E Iris se agarrou à normalidade com a devoção de um náufrago abraçado a um pedaço de madeira.
Segunda-feira: três clientes. Uma rosa neo-tradicional no ombro de uma professora de ioga ("Quero que pareça viva" — "Tatuagens não são vivas" — silêncio estranho depois de dizer isso). Um dragão minimalista na costela de um cara que chorou nos primeiros cinco minutos e depois dormiu pelos próximos quarenta ("É a endorfina," Iris explicou para Nando, que filmava discretamente para os stories). Uma lua crescente atrás da orelha de uma garota de dezenove anos que disse "é minha primeira" com a solenidade de quem anuncia um nascimento.
Terça-feira: dois clientes e uma tarde inteira redesenhando o portfolio. Iris sentou na bancada com café e músicas de Tom Jobim — nostalgia saudável, o tipo que aquece sem queimar — e trabalhou em novos designs botânicos. Samambaias, sempre. Costelas-de-adão. O tipo de planta que sobrevive na penumbra, que cresce apesar de tudo, que não precisa de sol direto para existir. Se houvesse uma metáfora ali, Iris preferia não reconhecê-la.
Quarta-feira: pub com Nando e Oliver. O Hawley Arms estava cheio do jeito que pubs em Camden ficam cheios às quartas — uma mistura de gente que saiu do trabalho e gente cujo trabalho ninguém sabe explicar. Oliver pediu uma ale artesanal e Nando pediu um pint do que fosse mais barato, e Iris sentou entre os dois bebendo IPA e fingindo que não tinha uma granada simbólica no bolso da jaqueta.
Oliver Clarke era o tipo de britânico que Iris gostaria de não gostar. Professor de história numa escola secundária em Islington, educado ao ponto da caricatura, incapaz de dizer "não" sem antes dizer "I'm terribly sorry, but" — o que, nos primeiros meses de namoro com Nando, havia resultado em situações de uma comicidade involuntária que Iris colecionava como figurinhas. Mas Oliver era, também, genuinamente bom. O tipo de bom que não exige reconhecimento. E ele olhava para Nando com uma expressão que Iris reconhecia porque nunca tinham olhado para ela daquele jeito — e a ausência, às vezes, definia melhor que a presença.
— Iris? — Oliver inclinou a cabeça. — You alright?
— Hm? — Iris piscou. Estava desenhando num guardanapo. Olhou para baixo: espirais. As mesmas espirais de sempre. Amassou o guardanapo e enfiou no bolso. — Estou. Cansada. Semana cheia.
Nando a observou por cima da cerveja. O radar de morcego, de novo. Iris sustentou o olhar com a teimosia de quem tem prática em sustentar olhares.
— Cheia de quê? — Nando perguntou, casual como uma bomba disfarçada de comentário sobre o tempo.
— Trabalho. — Iris bebeu. — O que mais seria?
Nando abriu a boca, fechou, abriu de novo. Oliver tocou o joelho dele por baixo da mesa — Iris viu o gesto, o código silencioso de "deixa pra lá" que casais funcionais desenvolvem — e Nando recuou. Mas o olhar que lançou a Iris dizia, com a eloquência de quem convive com ela há seis anos: eu sei que cê tá mentindo. E vou esperar até você parar.
§
Quinta-feira foi quando as coisas começaram a rachar.
A primeira cliente da manhã era uma mulher de trinta e poucos chamada Diane — tatuagem de rotina, retoque numa borboleta no tornozelo que desbotara com o sol do verão anterior. Trabalho simples, vinte minutos, o tipo de coisa que Iris fazia com os olhos fechados.
Mas quando a agulha tocou a pele de Diane, Iris sentiu.
Uma vibração. Sutil, como o tremer de um celular no modo silencioso. Subiu pela mão, pelo pulso, pelo antebraço, e se alojou no centro do peito como um segundo pulso. A tinta entrou na pele — normal, perfeitamente normal — e Iris se forçou a continuar, mas os dedos estavam mais sensíveis do que o usual, como se cada terminação nervosa tivesse acordado de uma anestesia que durava a vida inteira.
Quando terminou, Diane olhou para o tornozelo e disse:
— Nossa. — Pausa. — Tá... formigando.
— É normal. — Iris limpava a área, sem olhar. — A pele tá irritada pela agulha.
— Não, tipo... formigando por dentro. Como se a tatuagem tivesse... esquentado?
Iris levantou os olhos. A borboleta no tornozelo de Diane parecia normal. Tinta fresca, linhas nítidas, nada de extraordinário. Mas a pele ao redor estava arrepiada — e não de frio.
— Dá uns minutos — disse Iris, com uma certeza que não sentia. — É a reação da pele.
Diane saiu satisfeita. Iris ficou sentada na maca por três minutos, olhando para as próprias mãos.
O segundo incidente foi mais difícil de ignorar.
Cliente do início da tarde: Marcus, vinte e cinco anos, tatuagem nova — um relógio de bolso no antebraço, projeto que Iris tinha desenhado com carinho. Duas horas de trabalho. Na metade, Marcus disse, com a voz de quem não sabe se deve falar:
— Isso é normal? O desenho tá... fazendo cócegas. Tipo, dentro da pele.
Iris olhou para a tatuagem em progresso. As engrenagens do relógio eram perfeitas — cada dente minúsculo, cada sombra calibrada. E no centro, onde o eixo principal conectava as peças, a tinta parecia pulsar. Não de um jeito visível — Iris não viu luz, não viu brilho. Mas sentiu. A vibração de novo, mais forte, como se a tatuagem estivesse tentando dizer alguma coisa.
— Cócegas são normais — mentiu. — Terminação nervosa reagindo à tinta. Passou logo.
Marcus pareceu satisfeito. Iris terminou o trabalho com as mãos estáveis e o estômago em queda livre.
§
Entre um cliente e outro, Iris desenhava. Não nos guardanapos — tinha promovido a obsessão para o bloco de desenho oficial, como se papel de qualidade tornasse a coisa toda mais respeitável. Desenhava as espirais, os selos, as variações que brotavam dos dedos como se sempre estivessem lá, esperando permissão para existir.
Nando reparou.
Claro que reparou. Nando reparava em tudo — era a vantagem e a maldição de ter um melhor amigo que funcionava como um detector de mentiras humano com piercing de septo e topete verde-limão.
— Que que é isso? — Perguntou na sexta-feira, espiando por cima do ombro de Iris enquanto ela preenchia a quarta página consecutiva de espirais.
— Projeto novo.
— Pra cliente?
— Pessoal.
— Parece coisa de bruxa. — Nando pegou uma das folhas. — Sem ofensa. Mas parece. Tipo, mandala ritual? Não que eu entenda de ritual. Oliver assistiu um documentário sobre wiccanos semana passada e ficou fascinado, mas ele fica fascinado com tudo, até com documentário de queijo. Mas tipo... — Virou a folha. — Isso aqui é bonito. De um jeito estranho. Tipo bonito-perturbador.
— Obrigada?
— É elogio. Juro. — Devolveu a folha. — Mas, sério. Cê tá diferente essa semana. Desenhando essas coisas, olhando pro nada, com essa cara de quem descobriu que a Terra é plana e tá processando. O que foi?
Iris pegou a folha de volta. Olhou para as espirais. Cada uma era ligeiramente diferente — como dialectos de um mesmo idioma. A mão que as desenhava era a mesma mão que tatuava, que abria a porta do estúdio toda manhã, que regava Beyoncé e Fernanda e Zé. Mas nos últimos dias, essa mão parecia saber coisas que o resto de Iris não sabia.
— Nada — disse. — TPM criativa.
Nando a olhou por dois segundos a mais do que o confortável. Depois soltou o ar pelo nariz — aquele som que significava "tá bom, eu aceito a mentira por agora, mas eu tô contando" — e voltou para a própria bancada.
§
Sábado. Último dia da semana. Iris fechou o estúdio sozinha — Nando saíra mais cedo para um jantar com Oliver e a mãe dele, um evento que Nando descrevera como "pior que ir ao dentista, mas pelo menos o dentista não pergunta quando vamos ter filhos".
A noite estava fria, mas seca pela primeira vez na semana. Iris trancou a porta, virou-se para ir embora.
E parou.
Na soleira da porta, havia um envelope.
Não estava ali quando ela abrira de manhã. Não estava ali quando o último cliente saíra, às sete. Estava ali agora — envelope pardo, grosso, sem selo, sem remetente, sem nenhuma marca além do nome dela escrito em caligrafia que Iris reconheceu antes de abrir.
A letra da avó Celeste.
Iris ficou parada na calçada de Camden com o envelope nas mãos e o mundo girando devagar ao redor. A caligrafia era inconfundível — aquela inclinação para a direita, os "s" que pareciam serpentes, os "a" sempre abertos. Tinha passado a infância vendo essa letra em listas de compras, em bilhetes na porta da geladeira, nas margens do diário.
A avó morrera há dez anos.
Abriu o envelope com dedos que desobedeciam. Dentro, um caderno. Fino, capa de couro castanho-escuro, costura manual com linha de algodão — o tipo de encadernação artesanal que a avó fazia, comprimindo papel reciclado entre couro curtido com sebo de boi, técnica aprendida com a bisavó num Belém que não existia mais.
Iris abriu na primeira página.
"Para minha neta, quando a tinta acordar."
A caligrafia era da avó. A tinta era escura, velha, com o tom azulado do jenipapo concentrado que Celeste usava para tudo — escrever, desenhar, marcar pele. E a frase não fazia sentido nenhum e ao mesmo tempo fazia todo o sentido do mundo.
Iris folheou. Páginas e mais páginas. Desenhos que reconhecia — os selos, as espirais, os mesmos padrões que vinha desenhando a semana inteira sem saber por quê. Texto corrido em caligrafia miúda, alternando português e algo que parecia outra língua — tupi, talvez, ou nheengatu, as línguas que a avó cantarolava e que Iris nunca aprendera. E entre os desenhos, anotações práticas: "selos de proteção", "selos de vínculo", "selos de verdade", "selos de ruptura".
As mãos de Iris tremiam. Não de frio.
— Vó — sussurrou para a noite de Camden, para o neon do mercado que sangrava vermelho e dourado, para a ausência que morava no peito desde os dezessete e que agora, com um caderno de couro nas mãos, doía de um jeito novo. — O que você me deixou?
Camden não respondeu. Mas o caderno pesava nas mãos de Iris como se contivesse mais do que papel e tinta.
Iris enfiou o envelope no bolso da jaqueta — ao lado do guardanapo dobrado, ao lado do celular, ao lado das chaves — e caminhou para casa. Não correu, apesar da vontade. Não olhou para trás, apesar do instinto. Caminhou com a determinação de quem aprendeu cedo que, quando o chão começa a tremer, o melhor é manter os pés firmes e continuar.
No flat, sentou na cama sem tirar a jaqueta. Abriu o caderno. Começou a ler.
Não parou até as quatro da manhã.
E quando finalmente fechou os olhos — exausta, assustada, com as mãos formigando e a cabeça cheia de espirais e selos e a voz da avó dizendo "proteção, meu bem, contra o que não se vê" —, algo na mesa de cabeceira brilhou.
A tatuagem no próprio braço de Iris.
A primeira que fizera em si mesma, aos dezesseis, sentada no banheiro da casa da avó em Belém com uma agulha improvisada e tinta da avó — um ramo de hera que subia do pulso até o cotovelo, cada folha desenhada com a obsessão de uma adolescente que não sabia nomear o que sentia mas sabia transformar em linhas. Iris sempre achou que era só talento precoce. Rebeldia. Arte.
Agora, às quatro da manhã num flat em Camden, o ramo de hera pulsava com uma luz fraca — âmbar, quente, como brasa sob cinzas — e Iris sentiu cada folha como se fossem nervos vivos.
A luz durou três segundos. Depois apagou.
Iris ficou deitada no escuro, com os olhos arregalados e a certeza, finalmente inegável, de que a avó Celeste não era supersticiosa.
A avó Celeste sabia.