LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
Ilha de Mentiras
A mesa estava posta como armadilha.
Bonita, elaborada, irresistível. As melhores armadilhas sempre são.
Lara reconhecia armadilhas. Tinha fotografado armadilhas de caçadores na Amazônia, ninhos de formigas no cerrado, plantas carnívoras que pareciam flores e só mostravam os dentes quando a presa já estava dentro. Armadilhas eram bonitas. Eficientes. Decoradas.
Como aquela mesa.
Toalha de linho branco. Talheres de prata que pesavam como argumentos. Taças de cristal que refletiam a luz dos quatro castiçais em miniatura dispostos no centro, ao redor de um arranjo de oliveiras frescas e hortênsias azuis que alguém — provavelmente a *yiayia* — tinha organizado com mão de artista. Pratos de porcelana com a borda dourada. O cheiro da cozinha subia pelo convés: cordeiro assado com alecrim, batatas ao forno com limão, aquele aroma gordo e terroso de comida grega que fazia o estômago contrair antes de a boca decidir se queria.
O jantar era no deck coberto, ao ar livre. A noite do Egeu rodeava o iate como moldura de veludo — céu preto, estrelas brancas, a linha do horizonte dissolvida na escuridão. O motor estava desligado. O iate ancorado para a noite em algum lugar entre Kea e Kythnos, balançando devagar, como berço. A brisa trazia sal e iodo e o perfume dos jasmins que alguém tinha plantado nos vasos do deck.
Lara usava um vestido preto de alças finas que comprou na feira do centro de Floripa por oitenta reais. Sem joias. Sem salto. Sandálias rasteiras e o cabelo preso num coque improvisado, cachos escapando na nuca como sempre.
Lara sentou onde Manos indicou — e percebeu que Manos a olhara com algo parecido com pena, o que era irritante e ao mesmo tempo reconfortante, porque pelo menos alguém ali reconhecia que a situação era insana. Sentou entre a *yiayia* Eleni e Dimi. Frente a Nikos e Helena. Theo na cabeceira oposta à de Stavros. Uma geometria deliberada. Lara no centro do fogo cruzado.
Stavros abriu a garrafa de *Assyrtiko* — vinho branco de Santorini, mineral e ácido como o Egeu — e serviu todos, começando pela *yiayia*. A velha ergueu a taça com a mão firme de quem já tinha segurado redes de pesca, bebês e maridos difíceis.
— *Stin ygiá mas* — brindou Stavros, e todos repetiram. Saúde. A palavra mais educada que gregos dizem antes de começar a guerra.
Lara tomou um gole. O vinho era frio e seco, com gosto de pedra vulcânica e limão, e desceu pela garganta como alívio temporário. Ao lado dela, a *yiayia* comeu a primeira azeitona com a solenidade de quem participa de um sacramento.
— Então, Lara. — Nikos serviu-se de cordeiro com a naturalidade de quem comanda uma mesa sem precisar da cabeceira. O sorriso era o mesmo de sempre — largo, simétrico, generoso na superfície e vazio por dentro. — Ainda fotografando bichos?
— Natureza. — Lara cortou o cordeiro. A faca deslizou na carne tenra com facilidade. — Natureza e viagem.
— Ah, claro. Viagem. Você sempre gostou de ir embora.
O comentário pousou na mesa como copo quebrando em festa. Helena olhou para Nikos com aquele leve franzir de sobrancelha de quem detecta toxina mas ainda não sabe nomear. Dimi mexeu no guardanapo. Stavros mastigou com deliberada concentração.
Lara não mordeu. Colocou o garfo no prato. Olhou para Nikos.
— Gosto de ir aonde a luz é boa.
A frase não era ataque. Nem defesa. Era informação — e Nikos, por hábito, não soube o que fazer com informação que não servia como combustível. Sorriu. Mudou de assunto.
— Helena fechou o caso Papadopoulos essa semana. Maior processo trabalhista da década em Atenas. Conta pra eles, *agápi mou*.
Helena sorriu — o sorriso competente de quem está habituada a performar em jantares de família alheia — e explicou o caso com precisão cirúrgica. Boa de palco. Articulada. O tipo de mulher que Nikos escolhia não por acaso: brilhantes o suficiente para refletir a luz dele, comportadas o suficiente para nunca ofuscar.
Lara ouviu. Comeu. Bebeu o vinho. A comida era absurdamente boa — o cordeiro desfazia na boca, as batatas tinham aquela crosta dourada e o interior macio que só existe quando alguém cozinhou com amor e azeite em quantidades generosas.
— Quem cozinhou? — perguntou, para ninguém em particular.
— Eu — disse a *yiayia*, em grego, com a dignidade de quem anuncia uma conquista militar.
— *Poly nostimo*, *yiayia*. — As palavras saíram em grego antes que Lara pensasse. Muito gostoso. Dois anos de casamento, dois anos ouvindo grego no café da manhã, no jantar, na briga, no amor. O idioma tinha ficado debaixo da pele como tatuagem.
A *yiayia* olhou para ela. Os olhos escuros, enrugados nas bordas, tinham uma opacidade que podia ser catarata ou segredo. A boca fina se moveu — quase um sorriso, quase nada. Depois voltou ao prato.
Dimi, ao lado de Lara, comia devagar. Cada garfada medida, cada gole calculado. Lara sentia a tensão dela como calor de lâmpada: presente, inescapável, sem fazer barulho.
— Suas joias estão lindas na revista — disse Lara, baixo, enquanto Nikos e Helena monopolizavam a conversa com Stavros. — Vi a coleção do verão. Aquele colar de obsidiana.
Dimi virou-se. Os olhos — castanhos como os de Stavros, mais quentes que os de Theo — piscaram.
— Você viu?
— Acompanho.
Dimi abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. Lara reconhecia o gesto: era o de alguém que quer dizer muito e não sabe por onde começar, então não começa.
— Obrigada — disse Dimi, por fim, e a palavra pesava mais do que uma sílaba deveria.
Do outro lado da mesa, Helena perguntou a Lara, com educação de advogada em depoimento:
— Como é ser fotógrafa de natureza? Deve ser solitário.
Lara pensou em todas as maneiras de responder. Escolheu a verdade.
— É. Mas solidão escolhida é diferente de solidão imposta.
O silêncio que se seguiu tinha fio de navalha. Helena assentiu devagar, processando. Nikos encheu a taça de vinho com o gesto expansivo de quem não percebe que a mesa inteira ficou quieta.
Nikos encheu a própria taça pela terceira vez. O gesto era fluido — pulso girando a garrafa, o vinho descendo sem respingar, a espuma mínima que indicava que ele sabia exatamente a velocidade certa. Nikos sabia a velocidade certa de tudo: do vinho, do sorriso, da crueldade.
— Lara sempre foi boa em ficar sozinha — disse Nikos, como se fosse elogio. Não era. Era aquela crueldade revestida de charme que ele dominava como instrumento musical — cada nota colocada no lugar certo para causar o máximo de dano com o mínimo de evidência.
— Nikos. — A voz de Stavros, da cabeceira. Baixa. Uma nota só. Um nome.
Nikos ergueu a taça. Sorriu. — Estou elogiando, pai.
Stavros não respondeu. Mas os olhos ficaram em Nikos por três segundos a mais do que o confortável, e algo naquele olhar fez o sorriso do filho vacilar — uma fração de segundo, imperceptível para quem não estivesse procurando.
Lara estava procurando. Sempre estava.
O segundo prato chegou: peixe grelhado inteiro, com ervas e azeite, sobre cama de cebolas caramelizadas. O cheiro era mar e fumaça e alecrim, e Lara serviu-se pensando em como a comida grega tinha esse dom de transformar ingredientes simples em algo que parecia declaração de amor.
E então Theo falou.
Pela primeira vez na noite, a voz dele cortou a conversa como lâmina em tecido. Grave, precisa, sem ornamento.
— Deve ser estranho pra você, Lara.
Ela olhou para ele. Na outra cabeceira, Theo a encarava com aqueles olhos de café sem açúcar. Tinha comido pouco — o prato quase cheio, o vinho intocado. As mãos apoiadas na mesa, dedos longos, unhas curtas e limpas. Mãos de quem assina contratos e não suja os dedos.
— Estranho? — disse Lara.
— Estar aqui. Nesta mesa. Com esta família. Depois de tudo.
O "depois de tudo" era artilharia. Lara sentiu o impacto distribuído: no peito, nos ombros, na base da coluna. Mas não demonstrou. Segurou o garfo. Olhou para o peixe no prato. Depois olhou para Theo.
— Muita coisa é estranha pra mim, Theo. Jantar com a família do ex-marido num iate no Egeu é só mais uma.
— Imagino que sim. Considerando as circunstâncias.
As circunstâncias. A palavra dele para "a traição que você cometeu". O eufemismo educado para a versão de Nikos — aquela história bem construída, cheia de detalhes inventados, que Theo tinha comprado sem pedir recibo.
Lara poderia ter respondido. Poderia ter dito "as circunstâncias que você conhece ou as que realmente aconteceram?" Poderia ter aberto a boca e despejado a verdade na mesa como vinho derramado, manchando a toalha branca com o vermelho da realidade.
Não fez.
Porque Lara Mendes não se justificava. Não explicava. Não oferecia sua versão a quem não merecia ouvi-la. Tinha aprendido — da maneira mais cara — que a verdade só tem valor para quem está disposto a recebê-la. E Theo Antonidis, com sua mandíbula travada e seus olhos de juiz, não estava disposto.
Então disse:
— As circunstâncias são suas, Theo. Não minhas.
A mesa inteira sentiu. Stavros levou a taça aos lábios lentamente. A *yiayia* parou de mastigar por um segundo. Dimi prendeu a respiração. Helena olhou de Theo para Lara como quem assiste a um jogo cujas regras desconhece. Nikos — Nikos sorriu. Porque para Nikos, qualquer tensão entre Theo e Lara era vitória.
Theo sustentou o olhar. Os maxilares se moveram sob a pele como engrenagem.
Depois voltou ao prato. Cortou o peixe com precisão cirúrgica. E não disse mais nada pelo resto do jantar.
O restante da refeição seguiu naquela coreografia de jantares de família disfuncional: conversas paralelas sobre nada, elogios à comida, a *yiayia* reclamando em grego que ninguém comia o suficiente e servindo mais peixe no prato de Lara sem perguntar — gesto automático de avó grega, que alimenta como ama: sem pedir permissão. Lara sentiu o cheiro do azeite quente e do limão espremido sobre a pele dourada do peixe, e por um segundo lembrou de todas as refeições em Kifisia onde a *yiayia* colocara comida no prato dela como se Lara fosse neta e não nora, como se pertencesse.
Stavros contou uma história sobre um navio que encalhou em Mykonos nos anos oitenta, e todos riram — até Theo, cuja risada era curta, controlada, mais concessão do que diversão. Helena contou uma anedota do tribunal que arrancou um sorriso de Dimi, e por alguns minutos a mesa pareceu quase normal — quase uma família jantando, quase pessoas que se gostavam.
Lara comeu a sobremesa — *galaktoboureko*, creme de semolina em massa folhada banhada em calda de limão — e sentiu o açúcar e a manteiga derreterem na língua como pedido de desculpas culinário. A *yiayia* fazia o melhor *galaktoboureko* do Mediterrâneo. Isso era fato. Mesmo os Antonidis mais hostis não podiam negar.
Depois do café — grego, espesso, servido em xícaras minúsculas que pareciam dedais para gigantes —, a mesa começou a se dispersar. Nikos e Helena subiram para o deck superior, onde o som da risada dele chegava como eco de festa à qual Lara não fora convidada. Stavros e a *yiayia* foram para a cabine, o velho com o braço na velha, caminhando devagar como se o tempo fosse elástico.
Dimi ficou.
— Posso te acompanhar até a cabine? — perguntou, com a cautela de quem pisa em gelo fino.
— Claro.
Caminharam pelo corredor interno. O piso de madeira rangia levemente sob os passos. As luzes eram baixas — âmbar, quentes, projetando sombras longas nas paredes revestidas de mogno. O iate dormia ao redor delas: sons abafados de motor em repouso, o murmúrio da água contra o casco, o estalo eventual de corda contra metal.
Na porta da cabine de Lara, Dimi parou.
— Ele não deveria ter falado daquele jeito.
Lara encostou no batente. — Quem?
— Theo. Aquilo no jantar. Foi...
— Foi Theo.
Dimi soltou o ar pela boca. Uma exalação que carregava frustração, culpa e algo mais — saudade, talvez, ou o fantasma de uma amizade que ela mesma tinha estrangulado.
— Lara...
— Boa noite, Dimi. — A voz de Lara era gentil. Não era fria. Mas era definitiva, como porta que fecha sem bater.
Dimi assentiu. Os olhos brilharam — úmidos, mas ela piscou rápido, e quando abriu de novo estavam secos.
— Boa noite.
Lara entrou na cabine. Fechou a porta. Encostou as costas nela e ficou ali, de pé, no escuro, ouvindo os passos de Dimi se afastarem pelo corredor.
A cabine era pequena. Cama de solteiro, colchão bom, lençóis de algodão que cheiravam a lavanda e amaciante caro. A janela redonda mostrava o céu do Egeu — uma escuridão pontilhada de branco, tão vasta que dava vertigem.
Lara tirou as sandálias. Sentou na cama. Sentiu o balanço do iate nos quadris, nos ombros, naquele lugar entre as costelas onde o corpo guarda tensão como cofre guarda ouro.
"Deve ser estranho pra você, Lara."
A frase de Theo ecoou. Não pelo que dizia — era óbvio —, mas pelo tom. Porque o tom de Theo não era de ataque. Era de constatação. Ele realmente achava estranho que ela estivesse ali. Realmente acreditava que a presença dela era uma anomalia, um erro na matriz, algo que desafiava a ordem natural das coisas.
E o pior: não estava errado. Era estranho. Era insano. Era sentar-se numa mesa com pessoas que acreditavam na pior versão dela e comer cordeiro como se nada tivesse acontecido.
Mas Lara tinha aprendido algo nas expedições: desconforto não é sinal de erro. Às vezes é sinal de que você está exatamente onde precisa estar.
Deitou. Puxou o lençol. O algodão era macio contra a pele aquecida de sol e vinho.
Fechou os olhos. Mas antes de dormir, uma imagem passou: Theo na cabeceira, cortando o peixe com precisão cirúrgica depois de falar, como se a frase não tivesse custado nada.
Mas tinha custado. Lara tinha visto. Tinha visto a mandíbula travar, os dedos apertarem o talher um milímetro a mais, o micro-gesto de engolir antes de falar — sinais que um fotógrafo treina a vida inteira para capturar e que a maioria das pessoas nem nota.
Theo não era indiferente. Theo era contenção.
E contenção, Lara sabia por experiência, era o que acontecia quando a raiva não encontrava razão suficiente.
O iate balançou. Uma onda lenta, generosa, de mar calmo.
Lara dormiu com o gosto de vinho branco nos lábios e a pergunta que não fez enroscada no peito como linha de pesca: se Theo tinha tanta certeza da culpa dela, por que o olhar dele parecia um homem procurando evidências que não achava?
No convés acima, separado por dois andares e três anos de história mal contada, Theo estava acordado.
Olhando para o mesmo céu.
Pensando na mesma mesa.
E tentando, sem sucesso, esquecer a maneira como Lara tinha dito "As circunstâncias são suas, Theo. Não minhas" — com a calma de quem sabe algo que ele não sabe.
E que talvez — talvez — devesse.