LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
Grávida em Paris
Capítulo 4 — A Memória Que Voltou
Segunda quinzena de janeiro. Paris decidiu que faria o inverno mais cinza dos últimos dez anos, e a pâtisserie de Madame Lavigne respondia com luz dourada, vitrines cheias e o cheiro de manteiga que era a versão olfativa de um abraço.
Bia chegou às seis da manhã, como sempre. Trocou o casaco pelo avental, prendeu os cachos num coque bagunçado que nunca ficava como planejava, e ligou o forno. O ritual: checar temperatura, separar ingredientes, pesar com a balança de precisão que tratava como extensão das próprias mãos.
O enjoo era uma constante agora. Não o terremoto dos primeiros dias, mas uma maré baixa — presente, sutil, lembrando a cada manhã que nada voltaria a ser simples. Gengibre no bolso. Biscoito de água e sal na bolsa. Água com limão ao alcance da mão. Sobrevivência em pequenas doses.
Fazia duas semanas desde o mercado. Duas semanas desde que o desconhecido ganhara nome e sobrenome e endereço profissional. Duas semanas que Bia passara numa espécie de contagem regressiva tensa, porque janeiro tinha avançado e o fornecedor novo — "relação comercial", como ele fizera questão de classificar — começaria hoje.
Hoje.
"Claire, a manteiga que chegou está boa?" Bia perguntou sem tirar os olhos da balança.
"A manteiga é a mesma de sempre. A de novo é a que vem do fornecedor francês com cara de quem chupou limão."
"Você não o conhece."
"Madame descreveu. Disse que é talentoso e insuportável, nesta ordem."
Bia não contestou nenhum dos dois adjetivos.
§
Étienne Beaumont chegou às sete e quinze com duas caixas de massa folhada nos braços e a expressão de quem está fazendo um favor ao mundo por existir.
Bia ouviu antes de ver. O barulho da porta dos fundos abrindo. Passos firmes no corredor que levava à cozinha. E a voz — aquela voz grave, precisa, com a cadência de quem pesa cada palavra como ingrediente.
"Onde coloco?"
Claire apontou o balcão refrigerado sem dizer nada. Ela tinha a capacidade rara de comunicar "não gosto de você" através de gestos mínimos.
Étienne depositou as caixas e abriu a primeira. Dentro, camadas de massa folhada embrulhadas em papel manteiga, organizadas com a simetria de quem trata comida como arquitetura.
Bia observou de sua estação. Estava temperando ganache e fingindo que a chegada dele não alterava em nada a frequência cardíaca — não porque o coração disparava, clichê proibido, mas porque o corpo inteiro entrava num estado de alerta que era parte reconhecimento e parte pavor.
Ele a viu. Assentiu com a cabeça. Econômico, profissional, exatamente como alguém assente para um colega que já conhece e não tem nada de especial a dizer.
"Bom dia", Bia disse.
"As bases de tartelette vão chegar amanhã", ele respondeu, porque aparentemente bom dia era um luxo conversacional que não cabia no cronograma dele.
"Ótimo."
"A massa folhada precisa ser usada nas próximas quarenta e oito horas. Não congelar."
"Eu sei o que fazer com massa folhada."
"Estou sendo preciso, não condescendente."
"A fronteira entre os dois é mais fina do que sua massa folhada."
Claire abafou uma risada que disfarçou de tosse. Étienne apertou a ponte do nariz — o gesto que Bia agora reconhecia como sinal de frustração — e voltou para as caixas.
Madame Lavigne apareceu no exato momento em que a tensão precisava de um árbitro. Usava o mesmo tailleur azul-marinho de todas as segundas, os óculos dourados na ponta do nariz, e um sorriso que significava "eu sei exatamente o que está acontecendo e acho divertido."
"Étienne. Pontual como prometido."
"Madame."
"A massa está perfeita, como eu esperava. Bia vai incorporá-la na linha de mil-folhas. Bia, prove e me dê seu parecer até o almoço."
Bia assentiu, profissional. A boca estava seca. Provar a massa folhada dele. Dar parecer. Como se fosse possível manter objetividade profissional quando o fabricante da massa era o mesmo homem cujo cheiro de lavanda ela sentia de três metros de distância e cujo DNA estava, neste exato momento, participando da construção de um ser humano dentro dela.
Étienne organizou as entregas, conversou com Madame Lavigne sobre os termos do fornecimento, e ficou vinte minutos na cozinha fazendo anotações num caderno de couro que parecia ter sido usado por gerações de chefs franceses emocionalmente indisponíveis.
Bia trabalhou. Temperou. Pesou. Ignorou.
E então aconteceu.
§
Foi um gesto pequeno. O tipo de coisa que ninguém notaria, a menos que estivesse prestando atenção. E Étienne Beaumont, apesar de toda a sua determinação profissional, estava prestando atenção.
Bia estava cortando manteiga em cubos para o creme pâtissier. A faca se movia com ritmo, precisa, e ela falava sozinha em português — o maneirismo que aparecia quando a concentração tomava conta e o resto do mundo desaparecia.
"Trezentos e cinquenta gramas, não trezentos e quarenta..." ela murmurou, ajustando os cubos na balança. E depois, sem perceber, inclinou a cabeça para o lado e empurrou um cacho que escapara do coque com as costas da mão, deixando um rastro de manteiga na têmpora.
Étienne parou.
Não parou como quem congela. Parou como quem reposiciona algo interno — um arquivo que estava numa gaveta errada e de repente encontra seu lugar.
Bia não viu. Estava concentrada nos trezentos e cinquenta gramas, nos cubos perfeitos, na conversa sussurrada consigo mesma que era meio receita, meio oração.
Mas Claire viu. E Claire tinha olhos de quem não perde nada.
Ele ficou parado por três segundos — o tempo de uma respiração que entra e não sai — e depois voltou ao caderno. Mas a caneta não se moveu. Ficou suspensa sobre o papel como uma frase que não consegue encontrar as palavras.
Bia terminou a manteiga. Virou para o fogão. Acendeu a boca. E no movimento de se virar, cruzou o olhar dele.
Algo tinha mudado.
Os olhos cinza-azulados não estavam mais no modo profissional. Estavam no modo — no modo que Bia conhecia do bar. Aquele olhar que não era avaliação, era reconhecimento. Como alguém que encontra um rosto numa multidão e percebe que aquele rosto esteve em seus sonhos sem que se lembrasse ao acordar.
Ele sabia.
Bia sentiu o sangue subir para o rosto como mercúrio num termômetro. Quente, imparável, visível.
"A confeiteira dos macarons", ele disse. Mas a voz era diferente agora. Tinha uma fratura mínima, como um prato que caiu e colou, onde o conserto existe mas a linha permanece.
"Essa parte você já sabia."
"A confeiteira do bar." Quase um sussurro. Quase uma pergunta que não precisava de resposta.
O silêncio que se seguiu tinha textura. Era denso, palpável, do tipo que se poderia cortar com a faca de manteiga que Bia ainda segurava. Claire olhava de um para o outro como quem assiste a um jogo de tênis em câmera lenta.
"Eu..." Étienne começou, e pela primeira vez desde que Bia o conhecia — em qualquer uma das suas três identidades — ele pareceu sem palavras. O caderno de couro fechou nas mãos dele com um estalo seco. "O bar. Le Comptoir."
"Du Panthéon", Bia completou. Porque aparentemente, nos três segundos em que o mundo desabou, o nome do bar decidiu voltar da memória como um convidado atrasado.
"Você é..."
"Eu sou."
Étienne abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. A mandíbula trabalhou num ritmo que sugeria que o cérebro estava processando dados em velocidade superior à capacidade de articulação.
Claire pigarreou. "Eu vou... checar os macarons." Os macarons estavam na vitrine da frente, perfeitamente checados, mas Claire tinha o instinto de sobrevivência de quem reconhece uma zona de exclusão emocional quando vê uma.
A porta da cozinha oscilou com a saída dela. O silêncio cresceu.
Bia fez a única coisa que sabia fazer quando não sabia o que fazer: ajustou o avental.
"Então", ela disse, e a voz saiu mais firme do que esperava, o que era uma vitória pequena numa manhã de derrotas grandes. "Você criticou meus macarons. Depois dormiu comigo. Agora é meu fornecedor. Em que ordem você gostaria de lidar com isso?"
Étienne apertou a ponte do nariz. Forte, desta vez. Como se a ponte do nariz fosse um botão de reiniciar que ele pressionava quando a realidade ficava inconveniente.
"Eu não... reconheci você. No mercado."
"Eu percebi."
"A luz do bar era—"
"Diferente, eu sei. Luz âmbar. Nenhum de nós parecia completamente consigo mesmo naquela noite."
Ele a olhou com algo que não era vergonha — era mais complexo, mais tridimensional. Uma mistura de constrangimento, surpresa e algo que Bia não conseguiu nomear mas que fez o estômago — já tão sobrecarregado de tarefas estas semanas — dar uma cambalhota lenta.
"Bia Ferreira", ele disse o nome inteiro, como quem testa o peso de cada sílaba. "A confeiteira brasileira que faz macarons sem alma e que eu..."
"Sim."
"E agora vamos—"
"Trabalhar juntos. Todos os dias. Na mesma cozinha."
A informação pairou entre eles como farinha suspensa no ar depois que alguém abre um saco rápido demais. Visível, inevitável, impossível de limpar completamente.
"Profissional." Ele disse a palavra como quem coloca um tijolo no lugar. "Podemos manter as coisas profissionais."
"Claro."
"O que aconteceu no bar foi... circunstancial."
"Uma noite."
"Exatamente. Uma noite. Dois adultos. Circunstâncias." Ele endireitou os ombros como quem retoma o controle. "Não precisa afetar o trabalho."
"Concordo."
"Ótimo."
"Ótimo."
Mais silêncio. O forno emitiu um zumbido baixo que parecia uma risada contida. A manteiga na têmpora de Bia começava a derreter com o calor da pele, e ela sentiu uma gota escorrer lentamente em direção à bochecha, como uma lágrima feita do ingrediente errado.
Étienne olhou para a manteiga. Estendeu a mão — reflexo, não decisão — e parou a meio caminho. A mão ficou suspensa no ar entre eles, dedos longos, precisos, a três centímetros do rosto dela.
Recuou. Fechou a mão. Colocou no bolso.
"Tem manteiga na têmpora", ele disse, a voz cuidadosamente neutra.
"Eu sei." Bia não limpou. Não porque gostasse de manteiga no rosto, mas porque limpar significaria reconhecer o gesto interrompido, e reconhecer o gesto significaria abrir uma porta que ambos tinham acabado de combinar que ficaria fechada.
"Eu volto amanhã com as bases de tartelette." Ele guardou o caderno de couro na bolsa. Movimentos econômicos, controlados, a mecânica de alguém que está reconstruindo compostura em tempo real. "Seis e meia."
"Estaremos aqui."
"Profissional."
"Completamente."
Ele caminhou até a porta dos fundos. Abriu. Virou-se uma última vez. O olhar percorreu o rosto dela — testa com manteiga, olhos que se esforçavam para serem neutros, lábios que mordiam o interior da bochecha porque estavam mentindo — e Bia poderia jurar que viu, no instante antes de ele se virar, algo que parecia com o início de uma frase que nunca encontrou voz.
A porta fechou.
Bia soltou o ar que não sabia estar segurando. As mãos, quando finalmente olhou para elas, tremiam tanto que a faca de manteiga batia ritmicamente no balcão como um metrônomo de aço inoxidável.
Ele sabia. Sobre a noite.
Ele não sabia. Sobre o resto.
E agora, a cada manhã às seis e meia, o homem cujo DNA estava construindo um ser humano dentro dela chegaria com caixas de massa folhada, cheiro de lavanda e a determinação compartilhada de manter as coisas "profissionais."
O forno apitou. Os croissants precisavam sair.
Bia colocou as luvas, abriu o forno, e resgatou a fornada. Perfeitos, desta vez. Dourados. Nem um segundo a mais, nem um grau além.
A vida podia estar uma bagunça monumental, mas os croissants — os croissants ela controlava.
Limpou a manteiga da têmpora com as costas da mão. O lugar onde os dedos dele quase tocaram ficou quente por mais tempo do que a física justificava.
E em algum lugar, no bolso do avental, ao lado do gengibre e do biscoito de água e sal, o teste de gravidez que ela ainda não conseguira jogar fora parecia pesar mais do que nunca.