LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
A Última Temporada
Thea soube que algo estava errado quando encontrou sua mãe sorrindo.
Não o sorriso habitual de Helena — aquele gesto social praticado que significava "estou sendo agradável porque a sociedade exige." Este era outro tipo. Um sorriso de satisfação profunda, o tipo que aparecia no rosto de um gato que não apenas encontrara o creme, mas negociara os direitos exclusivos de fornecimento.
Era terça-feira, véspera de *Almack's*, e Thea descia as escadas com a intenção de verificar se Mrs. Finch tinha ingredientes suficientes para o jantar — havia uma probabilidade razoável de que não, e outra probabilidade razoável de que Arthur tivesse usado o dinheiro do açougueiro para encomendar uma tradução rara de Heródoto, o que significaria mais uma semana de sopa de legumes e desculpas criativas. Mas na metade da escada, o degrau que sempre rangia a alertou de uma presença na sala de visitas.
Vozes. Duas. Helena e outra mulher.
Thea parou. O corrimão estava liso sob seus dedos — mogno antigo, desgastado por gerações de mãos Stirling, um dos poucos elementos da casa que envelhecera com dignidade em vez de decrepitude. Do andar de cima vinham os sons habituais: Hugo cantarolando algo sobre exoesqueletos, Freddie arrastando vidros, o piano de Ben executando escalas irregulares. Do andar de baixo, do porão convertido em cozinha, subia o cheiro de cebola frita e pão assando, e Thea registrou automaticamente que Mrs. Finch pelo menos estava cozinhando, o que significava que alguém pagara o açougueiro — provavelmente Thea mesma, com as duas libras que separara na sexta.
Desceu mais três degraus e reconheceu a segunda voz.
Lady Eloise Blackwood.
Thea sentou-se no degrau, silenciosa como uma espectadora no balcão de um teatro, e ouviu.
—...perfeitamente planejado — dizia Eloise, com o tom de quem organiza campanhas militares. — Almack's amanhã. Mesa juntos. Não pode falhar.
— E se Alexander se recusar a conversar? — perguntou Helena, e a preocupação em sua voz era do tipo que sugeria ensaio prévio.
— Alexander vai conversar. Ameacei com Cordelia Ashton e um mês na propriedade.
— Brilhante.
— Desesperado, na verdade. Mas funciona. E Thea?
— Thea vai estar preparada. O vestido azul reformado, o de musselina. Fica bem nela, embora ela insista que vestidos não importam.
— Vestidos sempre importam. Não pelo tecido — pela armadura.
Thea pressionou as costas contra a parede da escada. A madeira era fria através da musselina fina de seu vestido de casa, e ela sentiu o grão irregular contra as omoplatas como braille — uma mensagem que não conseguia decifrar.
Então era isso. Não apenas uma introdução social. Uma campanha coordenada. Duas mães, duas décadas de amizade, e a determinação combinada de casamentar uma filha de vinte e seis anos com um duque de trinta que, por todos os relatos, tinha a disposição social de uma pedra.
— O problema — continuou Helena, e Thea ouviu o tinir de porcelana, chá sendo servido — é que Thea é... inteligente.
— Isso é problema?
— É quando ela usa a inteligência como escudo. Sabe o que faz quando alguém tenta se aproximar? Cita Aristóteles. Em grego. É o equivalente a erguer uma muralha.
Eloise riu — um som breve e afiado, como vidro se quebrando com elegância.
— Alexander cita Ptolomeu quando quer que as pessoas o deixem em paz. São feitos um para o outro.
— Ou vão se despedaçar mutuamente.
— Mesma coisa, no início. A questão é sobreviver ao início.
Thea ouviu mais — detalhes sobre disposição de mesas, sequência de apresentações, a importância de parecer casual quando tudo era calculado. Helena e Eloise operavam com a eficiência sincronizada de duas generais que haviam passado trinta anos refinando a mesma estratégia: controlar os eventos enquanto fingiam que a vida era espontânea.
Quando as vozes mudaram para assuntos menores — fofocas de *ton*, o escândalo recente de Lord Pemberton e a modista que cobrava o dobro por seda que valia metade —, Thea levantou-se do degrau e subiu em silêncio.
No corredor, encontrou Georgie.
Sua irmã estava encostada na parede oposta, caderninho na mão, com a expressão inescrutável de quem já sabia tudo.
— Ouviu? — perguntou Thea.
— Desde o começo — respondeu Georgie. — Cheguei antes de você.
— E anotou.
Georgie não confirmou nem negou, o que era confirmação suficiente.
— Mamãe e Lady Eloise estão planejando minha vida como se fosse uma partida de xadrez — disse Thea, e a irritação em sua voz era real, mesmo que viesse acompanhada de algo mais complicado. Porque uma parte de Thea — a parte que havia calculado a probabilidade de encontrar alguém tolerável em sete *Seasons* e chegara a números desanimadores — reconhecia que talvez, só talvez, a intervenção não fosse completamente indesejada. Apenas inconveniente. E presunçosa. E condescendente. E...
— Você está zangada — observou Georgie — ou lisonjeada?
— Zangada.
— Suas orelhas ficam vermelhas quando está zangada. Estão rosadas. Isso é lisonjeada.
— Georgiana Stirling, se você anotar isso no seu caderno...
— Já anotei.
Thea olhou para a irmã mais nova. Georgie tinha dezessete anos, mas os olhos eram de alguém que vivia observando o mundo há muito mais tempo — olhos escuros, atentos, que catalogavam gestos e pausas e verdades não ditas com a precisão de um relojoeiro desmontando mecanismos. O cabelo castanho estava preso num coque funcional, sem tentativa de elegância, e Georgie usava um vestido que era ainda mais velho que os de Thea, porque entre as duas havia um acordo tácito: os recursos iam para Roz, que precisava brilhar, e para os meninos, que precisavam parecer respeitáveis. Thea e Georgie se contentavam com reformas e criatividade.
— O que acha? — perguntou Thea, encostando na parede ao lado da irmã.
— Do plano ou do Duque?
— Do plano.
Georgie refletiu. — Eficiente. Mamãe e Lady Eloise sabem o que estão fazendo. O Duque vai a *Almack's* amanhã, você vai a *Almack's* amanhã, e de alguma forma vão acabar sentados perto o suficiente para que uma conversa seja inevitável. A questão não é se vão se encontrar — é o que acontece depois.
— Nada — disse Thea. — Absolutamente nada. Ele é famoso por ser insuportável.
— Famoso — repetiu Georgie, como se testasse a palavra. — Mas famoso de acordo com quem? O *ton* também te acha difícil, e você é a melhor pessoa que conheço.
Thea sentiu algo apertar no peito — gratidão, talvez, ou a dor particular de ser vista por alguém que realmente olhava.
— E do Duque? — perguntou. — O que acha dele?
Georgie folheou o caderno. Thea vislumbrou páginas de anotações compactas — nomes, datas, observações — antes que a irmã encontrasse o que procurava.
— Alexander Blackwood, 5o Duque de Ravenswood — leu Georgie, no tom neutro de um relatório. — Herdou o título aos vinte e dois. Fortuna considerável. Propriedades em Derbyshire, Kent e Londres. Reputação: frio, arrogante, inacessível. Mas. — Pausa. — Publicou um artigo sobre classificação botânica sob pseudônimo. Mantém um observatório privado. Financia uma bolsa de estudos anônima para filhos de criados. E as criadas que trabalham para ele ficam em média doze anos, o que é extraordinário para uma casa onde o senhor supostamente é insuportável.
— Onde conseguiu essas informações?
Georgie deu de ombros. — Ouço. Leio. Presto atenção. As pessoas falam na frente de quem consideram invisível, e ninguém é mais invisível que a quinta filha de uma família empobrecida.
Thea estudou a irmã. Havia algo ali — uma ambição disfarçada de curiosidade, um talento específico que Georgie tratava com casualidade e que Thea reconhecia como potencialmente perigoso. Em outro tempo, Georgie teria sido jornalista, ou espiã, ou escritora. Neste tempo, era apenas uma garota de dezessete anos com um caderno e nenhum lugar socialmente aceitável para colocar tudo o que observava.
— Tenha cuidado com esse caderno — disse Thea, e não sabia exatamente por que sentia necessidade de dizer isso, exceto que algo em Georgie a lembrava de si mesma aos dezessete — a mesma fome de ser mais do que permitiam, a mesma recusa silenciosa de aceitar que o mundo era pequeno.
Georgie guardou o caderno no bolso do vestido.
— Sempre tenho.
Separaram-se no corredor — Georgie para o quarto, Thea para a sala de visitas, onde pretendia confrontar a mãe com a fúria gelada de quem fora flagrada como peão num tabuleiro alheio.
Mas quando abriu a porta, Helena estava sozinha. Lady Eloise já saíra. Havia duas xícaras de chá na mesinha — uma quase cheia, a outra vazia — e o aroma de bergamota se misturava ao perfume de rosas que Eloise deixara como rastro. Helena arrumava almofadas com a despreocupação estudada de quem acabara de concluir negociações diplomáticas.
— Mamãe — disse Thea.
— Querida! — Helena se virou com surpresa ensaiada. — Não a vi descer. Quer chá? Sobrou.
— Lady Eloise esteve aqui.
— Sim, uma visita rápida. Colocando o dia em ordem. Coisas de amigas.
— Coisas de amigas que envolvem o Duque de Ravenswood e a mesa de amanhã em *Almack's*.
Helena teve a graça de parecer momentaneamente desconcertada. Momentaneamente.
— Você ouviu.
— Cada palavra.
— Ah. — Helena se sentou, dobrou as mãos no colo e olhou para a filha com uma expressão que era parte culpa, parte desafio e parte amor maternal mal disfarçado. — E?
— E a senhora está manipulando minha vida social sem meu consentimento.
— Estou facilitando sua vida social com minha experiência.
— Facilitar seria me informar. Conspirar é montar uma campanha com táticas de guerra às minhas costas.
— Dramática — disse Helena. — Não sei de quem você puxou isso.
Thea cruzou os braços. A lã do vestido — aquela lã velha e familiar que cheirava a lavanda e casa — raspou contra os cotovelos, onde o tecido estava mais fino.
— Escute — disse Helena, e algo em sua voz mudou. Saiu o tom de general e entrou outra coisa — mais macia, mais frágil. — Eu sei que você não gosta quando interfiro. Sei que preferia que tudo dependesse exclusivamente de você. Mas, Thea... você disse que era a última vez. A última. E eu vi seu rosto quando disse. Você não estava aliviada. Estava resignada. E resignação não é o que desejo para minha filha.
Thea abriu a boca para responder, mas as palavras não vieram. Porque Helena, apesar de tudo — apesar do drama e das pérolas e das conspirações com duquesas-viúvas — não estava errada. A resignação era exatamente o que Thea sentira. A aceitação pesada de que talvez o mundo simplesmente não tivesse lugar para uma mulher que queria ser parceira em vez de ornamento.
— Se o Duque for tão insuportável quanto dizem — continuou Helena —, pelo menos terá ido a mais um baile. Mais uma noite. Mais uma chance. E se não for... — ela deixou a frase inacabada, suspensa no ar como um convite.
Thea olhou para a mãe. Helena tinha rugas ao redor dos olhos que não estavam lá há cinco anos, e as mãos — elegantes, sempre cuidadosamente tratadas — tremiam quando achava que ninguém via. Era uma mulher que não sabia nada sobre livros-caixa e credores e dívidas de oito mil libras, porque Thea a protegia da verdade com a mesma ferocidade com que protegia os irmãos.
E talvez, pensou Thea, essa fosse outra forma de conspiração: proteger as pessoas que amamos de informações que as destruiriam, e chamar isso de cuidado.
— Está bem — disse Thea, pelo que parecia ser a décima vez em dois dias.
— Está bem?
— Está bem, mamãe. Vou a *Almack's*. Vou ser... — buscou a palavra e não encontrou nenhuma que não soasse a capitulação — receptiva.
— Receptiva! — Helena irradiou. — É tudo o que peço!
— Mas se ele for tedioso, saio em quinze minutos.
— Meia hora.
— Vinte minutos.
— Vinte e cinco e não discuto mais.
— Feito.
Helena se levantou e abraçou a filha. Cheirava a água de rosas e pó de arroz, e seus braços eram mais finos do que Thea lembrava. Havia algo de desesperado naquele abraço — não pela *Season*, não pelo duque, mas pela filha que dizia estar bem quando não estava, que sorria quando deveria chorar, e que carregava pesos invisíveis com ombros que ninguém percebia estarem curvados.
Thea retribuiu o abraço. Fechou os olhos. Permitiu-se, por cinco segundos, não ser a pessoa responsável.
Depois se afastou, endireitou os ombros e foi verificar se Mrs. Finch tinha ingredientes para o jantar.
A resposta, previsivelmente, era não.
Naquela noite, sozinha no escritório com a porta trancada e uma única vela porque velas eram caras, Thea abriu o livro-caixa e fez seus cálculos noturnos. As colunas de números se estendiam como sentinelas — inflexíveis, impassíveis, absolutamente honestas. Era a honestidade que Thea apreciava. Números não mentiam, não conspiravam, não arranjavam encontros em *Almack's*. Números simplesmente eram.
Oito mil libras de dívida. Doze libras e seis *shillings* disponíveis. A *Season* custaria pelo menos quarenta e cinco libras que não existiam, e cada vestido reformado e cada jantar de sopa disfarçada e cada carruagem emprestada era um lembrete de que os Stirling viviam de aparências — a moeda mais volátil de Londres.
Se alguém descobrisse... Se o *ton* soubesse que o Visconde Stirling comprava manuscritos com dinheiro do açougueiro e que sua filha mais velha administrava as finanças da família em segredo, escondida atrás de sermões anglicanos numa gaveta falsa... a ruína seria instantânea. Não apenas financeira — social. Convites cancelados. Portas fechadas. Os irmãos, cada um com seu futuro frágil e precioso, abandonados à corrente.
Thea fechou o livro. Apagou a vela. No escuro, o cheiro de cera queimada e tinta e papel velho era o cheiro de sua vida real — não a que mostrava nos bailes, mas a que vivia quando ninguém olhava.
Amanhã, *Almack's*. Amanhã, o Duque de Ravenswood.
Amanhã, mais uma noite fingindo que tudo estava perfeitamente bem.
Thea fechou os olhos e desejou, com uma intensidade que a surpreendeu, que houvesse uma pessoa no mundo a quem não precisasse mentir.