LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
A Jogadora
Domingo à noite. A casa cheira a feijão do almoço que virou janta que vai virar almoço de segunda. Ciclo eterno da cozinha pobre: nada se perde, tudo se transforma em outra refeição.
A Jéssica está na sala-quarto assistindo vídeo no celular com fone, a tela iluminando o rosto dela num azul fantasmagórico. Minha mãe dorme — cedo, sempre cedo, porque o corpo dela tem relógio de trabalhadora que não pode se atrasar. O som da casa é o zumbido da geladeira que treme de vez em quando, como se tivesse calafrio, e a respiração pesada da minha mãe no quarto.
Eu estou sentada na cama de cima do beliche, pernas cruzadas, notebook no colo, caderno do lado, celular carregando na extensão que preciso dividir com a Jéssica. A tela do Lenovo emite aquela luz pálida que faz os olhos arderem depois de uma hora, mas eu não tenho uma hora — eu tenho a noite inteira.
Porque hoje é o dia da Lista.
Não a lista do brechó ou do manual de linguagem. A Lista com L maiúsculo. A planilha que ninguém nunca vai ver, que existe metade no caderno e metade na minha cabeça, e que contém a informação mais importante da minha vida: quem, na minha turma da GV, pode me tirar de Cidade Tiradentes.
Eu sei como isso soa. Sei que parece frio, calculista, desumano. E é. Mas desumano também é acordar às quatro da manhã pra pegar um ônibus que leva três horas enquanto o menino do Porsche cinza acorda às sete e chega dirigindo. Desumano é a minha mãe com as mãos destruídas ganhando sessenta reais pra limpar uma casa com banheira de hidromassagem. Desumano é o sistema inteiro — eu só estou aprendendo a jogá-lo.
Abro o navegador. Google. LinkedIn. Instagram. Facebook — sim, Facebook, porque as famílias ricas velhas ainda usam, especialmente as mães, que postam fotos de almoço de domingo com legenda bíblica e hashtag de gratidão.
Primeiro: as famílias.
Eu já identifiquei os sobrenomes que importam. Na primeira semana, Bia foi meu guia turístico involuntário. Cada comentário casual dela — "os Lacerda têm uma fazenda em Itu", "a mãe da Fernanda é dona daquela rede de farmácias" — era um ponto de dados que eu catalogava com a eficiência de uma analista de mercado.
Agora, sistematizo.
"LISTA DE FAMÍLIAS — TURMA DIR GV 2026.1"
"1. LACERDA — Pedro Augusto. Pai desembargador TJSP. Patrimônio estimado: alto, mas funcionalismo. Risco: pai jurista = escrutínio elevado. DESCARTADO."
"2. PRADO-WHITAKER — Fernanda. Família tradicional paulistana. Herança rural + imóveis urbanos. Potencial: moderado. Personalidade: difícil, arrogante. Custo-benefício baixo. DESCARTADO."
"3. ALMEIDA BRAGA — Rodrigo. Pai: CEO de construtora. Potencial: alto. Problema: já namora, flagrado de mão dada com loira de Administração. DESCARTADO."
"4. MONTEIRO — Gabriel. Grupo Monteiro. Agronegócio. Faturamento: bilhões. Dois filhos, Gabriel é o mais novo. INVESTIGAR."
Paro no número quatro. Meu dedo hesita sobre o teclado. Grupo Monteiro.
Digito no Google: "Grupo Monteiro agronegócio."
Os resultados são um tsunami de dinheiro traduzido em dados: faturamento de R$ 12 bilhões no último ano fiscal, segundo a Forbes. Operações em soja, milho, algodão, com expansão recente para bioenergia. Sede administrativa em Ribeirão Preto, escritório corporativo na Faria Lima. Henrique Monteiro, fundador da segunda geração (o avô começou com uma fazenda em Mato Grosso), frequente nas listas de homens mais ricos do Brasil.
Abro o LinkedIn de Henrique Monteiro. Foto: homem de queixo quadrado, cabelo grisalho, terno escuro, olhos que parecem calcular o valor de tudo que veem. Conexões: 500+. Formação: Economia pela USP, MBA por Harvard. Conselhos: três empresas, uma fundação, um hospital.
Clico em "família" no Google. Resultado: matéria da Veja São Paulo, três anos atrás. "Os Monteiro: a família que alimenta o Brasil." Foto: Henrique no centro, de terno, com a autoridade de um rei posando para retrato oficial. À direita, Camila Monteiro — loira de salão, rosto tenso de Botox estratégico, vestido que grita bom gosto sem gritar preço. À esquerda, dois rapazes. O mais velho, Gustavo: bonito de catálogo, maxilar definido, sorriso controlado, terno perfeito. O mais novo, Gabriel.
Gabriel.
Na foto, ele está ligeiramente deslocado do grupo. Não fisicamente — está na posição certa, ao lado da mãe —, mas a postura é diferente. Os outros estão eretos, projetados para a câmera. Gabriel está levemente inclinado, como se estivesse prestes a sair do enquadramento. A camisa social está aberta no colarinho, sem gravata. O cabelo não está penteado — está naquele estado de quem passou a mão várias vezes e desistiu. E os olhos. Mesmo na foto, mesmo em resolução média numa tela de notebook rachada, os olhos dele parecem estar em outro lugar.
Leio a matéria:
"Gustavo, 27, já ocupa cargo de direção comercial no Grupo e é apontado como o sucessor natural do patriarca. Gabriel, 23, preferiu seguir caminho acadêmico — cursa Economia na GV e é conhecido pelo trabalho voluntário com educação em comunidades da zona leste de São Paulo."
Zona leste.
Releio. Zona leste. A minha zona leste. O garoto bilionário faz trabalho voluntário na minha zona leste.
Abro o Instagram dele. Perfil quase vazio — 347 seguidores, 12 posts, conta privada. Bio: nada. Foto de perfil: um pôr do sol. Nenhum carro, nenhuma viagem, nenhum champanhe. O Instagram de um bilionário que não quer ser encontrado.
Comparo com Gustavo: 28 mil seguidores, perfil público, fotos em Mykonos, Saint-Tropez, helicóptero sobre fazenda, terno em evento do Grupo. O herdeiro que performa.
E Gabriel, que não.
Anoto:
"Gabriel Monteiro — PERFIL DETALHADO" "Idade: 23. Curso: Economia GV. Segundo filho — pressão menor, expectativa menor, liberdade maior." "Patrimônio familiar: R$ 12 bi+ (Grupo Monteiro). Gabriel provavelmente não tem patrimônio próprio significativo ainda, mas herança futura = incalculável." "Personalidade (observação preliminar): introvertido, desinteressado em ostentação, possível culpa de classe (trabalho voluntário zona leste). Não compete com irmão — evita confronto." "Vulnerabilidade provável: solidão. Quer ser visto como pessoa, não como sobrenome. Busca autenticidade — IRONIA: exatamente o que eu vou fingir oferecer."
A última linha me dá uma pontada em algum lugar que eu prefiro não localizar. Eu a ignoro. Ignoro como ignoro a dor no pé depois do salto, como ignoro a fome quando pulo o jantar, como ignoro o olhar da minha mãe que sabe mais do que eu quero que saiba.
* * *
Continuo pesquisando. Cada dado é uma peça de quebra-cabeça.
Encontro um artigo num jornal de Ribeirão Preto: "ONG Ponte Educação recebe apoio de jovem herdeiro do Grupo Monteiro." A matéria é pequena, quase uma nota, com foto de Gabriel num ambiente que reconheço — paredes de bloco aparente, chão de cimento, mesas de fórmica. Uma sala de aula de periferia. Ele está agachado ao lado de uma criança, explicando algo num caderno. Não está olhando pra câmera.
Ponte Educação. ONG de reforço escolar. Atua em Itaquera, São Miguel, Guaianases. Bairros que eu conheço de ônibus, de caminhada, de vida. Gabriel Monteiro vai a esses lugares voluntariamente. Voluntariamente. Enquanto eu fujo deles com todas as forças.
A ironia é tão densa que eu poderia cortá-la com faca.
Anoto mais:
"ONG Ponte Educação — Itaquera, SM, Guaianases. Gabriel envolvido ativamente. Possível ponto de conexão. MAS: Itaquera é perto demais de Cidade Tiradentes. Risco de reconhecimento. CUIDADO."
Cuidado é a palavra que rege minha vida. Cuidado com o que diz, como diz, onde olha, como ri, o que come, quanto gasta, quem vê. Cuidado é o oxigênio de quem vive de disfarce.
* * *
Desço do beliche e vou até a cozinha. Preciso de água e de cinco minutos longe da tela. O piso frio nos pés descalços. A geladeira ilumina a cozinha com aquela luz anêmica quando eu abro — dentro: feijão num pote de sorvete, arroz em outro, dois ovos, meia cebola num saco plástico, um litro de leite de saquinho. O inventário da geladeira é o inventário da nossa vida: suficiente, nunca mais que isso.
Bebo água direto do filtro. A água tem aquele gosto metálico de cano velho que eu não percebo mais porque cresci com ele. Mas quando bebo a água da GV — filtrada, gelada, que sai de uma máquina prateada que parece peça de design — sinto a diferença. E odiá-la é como odiar a própria garganta.
Volto pro beliche. A Jéssica se mexeu no sono, o cobertor caiu. Eu puxo de volta, cubro os ombros dela. A pele quente, o cheiro de shampoo de camomila — o barato, da farmácia, que minha mãe compra porque dura mais. Jéssica murmura algo ininteligível e volta a dormir.
Essa pirralha. Ela não sabe o que eu estou fazendo. Não sabe que a irmã mais velha, a que ela acha que é "a estudante", está sentada de madrugada num beliche de Cidade Tiradentes planejando como seduzir um herdeiro bilionário.
E se soubesse? Jéssica me olharia com aqueles olhos de dezesseis anos e diria algo que me destruiria, tipo: "Rê, você não precisa disso." Com toda a ingenuidade de quem ainda acredita que o mundo recompensa quem merece.
Jéssica não viu o que eu vi. Não ficou sentada na cozinha das casas do Morumbi vendo a mãe ajoelhada esfregando rejunte com escova de dente. Não ouviu a patroa dizer "Marta, limpa aqui de novo, ficou mancha" com o mesmo tom que se usa pra mandar o cachorro sentar. Não viu minha mãe abaixar a cabeça e limpar de novo, sem uma palavra, porque sessenta reais são sessenta reais e reclamar é um luxo que custa o emprego.
Eu vi. E jurei. E o juramento é mais forte que qualquer pontada de consciência.
* * *
No caderno, embaixo de tudo, faço a lista final:
"A LISTA — DECISÃO"
"Critérios de seleção:" "1. Patrimônio: máximo possível." "2. Acessibilidade: deve estar no meu circuito social (GV)." "3. Vulnerabilidade emocional: deve ter uma brecha — solidão, carência, conflito familiar." "4. Perfil público: discreto. Quanto menos visível, menos escrutínio." "5. Personalidade: idealista. Os cínicos percebem jogos. Os idealistas querem acreditar."
"CANDIDATO SELECIONADO: Gabriel Monteiro."
"Justificativa: patrimônio máximo (Grupo Monteiro, R$ 12 bi). Segundo filho com culpa de classe — vulnerabilidade emocional alta. Perfil discreto — não ostenta, Instagram vazio, evita holofotes. Personalidade indicada: idealista, bom (o tipo que procura autenticidade e projeta bondade). Trabalho voluntário na zona leste = porta de entrada temática (educação, justiça social — meus temas). Risco: irmão mais velho (Gustavo) aparenta ser mais analítico — possível obstáculo."
"PRÓXIMO PASSO: estabelecer contato. Não forçar. Criar condições para encontro natural. Frequentar mesmos espaços. Ser vista, não perseguida."
Fecho o caderno. As mãos tremem — leve, quase imperceptível, mas eu percebo porque percebo tudo sobre mim mesma. Eu me monitoro com a mesma obsessão com que monitoro os outros.
As mãos tremem por quê? Medo? Excitação? Culpa?
Eu escolho excitação. É mais útil.
* * *
Três da manhã. O despertador toca em menos de uma hora. Eu devia dormir, mas o cérebro está ligado, as engrenagens girando.
Penso em Gabriel agachado ao lado daquela criança na foto da ONG. Penso nos olhos dele que pareciam estar em outro lugar. Penso no cabelo bagunçado e na camiseta simples, e em como deve ser ter tanto dinheiro que você pode se dar ao luxo de parecer que não tem.
Isso me irrita. Não o dinheiro — eu entendo dinheiro, respeito dinheiro, quero dinheiro. O que me irrita é a casualidade. A leveza com que ele carrega um patrimônio que destruiria e reconstruiria a minha vida inteira. Ele pode ser desleixado porque o desleixo dele é voluntário. O meu seria condenação.
Ele pode ser bom porque nunca precisou ser esperto. Ele pode ser gentil porque a gentileza nunca lhe custou o jantar. Ele pode fazer trabalho voluntário na zona leste porque no fim do dia ele volta pra zona oeste de SUV blindado, e a periferia é uma causa, não um endereço.
Eu não tenho esse luxo. Pra mim, a periferia é o endereço. E toda a bondade, toda a gentileza, toda a espontaneidade que eu poderia ter — se meu CEP fosse outro, se minha mãe trabalhasse atrás de uma mesa em vez de atrás de um rodo — tudo isso foi convertido em estratégia.
Gabriel Monteiro é bom. Eu sei que é. Vi na foto, vejo nos poucos minutos que ele aparece em aula, vi nos olhos dele que parecem pedir desculpa por existir no mundo que herdou.
E é exatamente por isso que ele é perfeito.
Porque gentileza, no meu plano, não é virtude.
É brecha.
Fecho os olhos. O despertador vai tocar em quarenta e sete minutos. O funk do vizinho finalmente parou. O silêncio de Cidade Tiradentes às três da manhã é o mais perto que eu chego de paz.
Amanhã, segunda-feira, eu volto pra GV com a calça de alfaiataria do brechó e o blazer que me transforma e o sorriso número dois que diz "eu pertenço aqui". E vou começar a criar as condições para esbarrar em Gabriel Monteiro.
Esbarrar. Como quem não quer nada. Como quem está apenas existindo no mesmo espaço.
Porque é assim que a jogadora joga: fazendo cada movimento parecer acidente.