LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
O Refúgio
Capítulo 3 — Território
A tempestade rugia do lado de fora como um animal acorrentado, e Luísa pensou que era exatamente assim que se sentia — presa dentro de uma jaula com um estranho que parecia ocupar o dobro do espaço que seu corpo realmente exigia.
Mateo estava de pé diante da lareira, alimentando as chamas com uma eficiência que a irritava. Cada gesto era preciso, calculado, sem desperdício. Ele não hesitava antes de agir — simplesmente fazia, como se o mundo fosse uma sequência de problemas mecânicos esperando solução. Luísa, que hesitava até para escolher entre café e chá pela manhã, achava aquilo profundamente perturbador.
— Precisamos conversar — disse ela, cruzando os braços.
Ele não se virou. Empurrou mais uma tora para dentro da lareira e ficou observando as faíscas subirem como vagalumes desesperados.
— Sobre qué?
— Sobre o fato de que estamos presos aqui juntos e nenhum de nós parece estar muito feliz com isso.
Mateo finalmente a olhou por cima do ombro. Os olhos cinzentos tinham a mesma tonalidade do céu lá fora — carregados, impenetráveis, sem nenhuma promessa de clarear.
— No estoy infeliz. Estoy... — ele pareceu mastigar a palavra antes de soltá-la — adaptándome.
— Ótimo. Então vamos nos adaptar de forma organizada.
Luísa caminhou até a mesa da cozinha e puxou uma cadeira. O assento de madeira rangeu como protesto. Ela sentou, apoiou os cotovelos na superfície e entrelaçou os dedos, montando a melhor cara de negociadora que conseguia — o que, admitia para si mesma, provavelmente não era grande coisa. Suas negociações mais complexas na vida envolviam prazos com editora e quem ficava com o controle remoto nos domingos de chuva.
— Senta — disse, apontando a cadeira do outro lado.
Mateo ergueu uma sobrancelha. Por um instante, Luísa achou que ele ia recusar. Mas então ele atravessou a sala com aquela passada desigual — longa do lado direito, ligeiramente mais curta do esquerdo, o joelho cedendo num ângulo que deveria doer — e sentou-se diante dela.
De perto, o rosto dele era um mapa de exposição ao vento. A pele bronzeada tinha uma textura áspera nas maçãs do rosto, e havia pequenas linhas nos cantos dos olhos que poderiam ser de riso ou de apertar a vista contra o sol. Luísa apostava no sol. Nada naquele homem sugeria que ele risse com frequência.
— Regras — começou Luísa. — Eu cheguei primeiro. Fico com o quarto.
— De acuerdo.
Ela piscou. Esperava resistência.
— Sério? Assim, sem discutir?
— El sofá-cama está bien. Dormí en lugares peores.
A frase ficou suspensa no ar entre eles, pesada de histórias que ele claramente não pretendia contar. Luísa sentiu a curiosidade coçar como uma picada de inseto — aquela vontade quase física de cutucar, de perguntar, de cavar. Mas se conteve. Ainda não.
— Banheiro — continuou. — Só tem um.
— Sí.
— Eu uso de manhã primeiro. Sete e meia.
— Yo me levanto a las seis.
— Seis da manhã? — Luísa o encarou como se ele tivesse confessado um crime. — Estamos de férias. Quem acorda às seis de férias?
— No estoy de vacaciones.
Outra frase-armadilha. Outra porta fechada com chave dupla.
— Tá bom — ela cedeu. — Você usa às seis, eu uso às sete e meia. Quinze minutos cada, no máximo. Sem monopolizar a água quente.
— No necesito quince minutos.
É claro que não precisava. Provavelmente tomava banho em três minutos cronometrados, com a mesma eficiência com que fazia tudo. Luísa imaginou-o debaixo do chuveiro, contando os segundos, e imediatamente se arrependeu de ter imaginado qualquer coisa.
— Comida — disse, rápido demais, sentindo o calor subir pelo pescoço. — Eu trouxe provisões para uma pessoa, uma semana. Você?
Mateo inclinou a cabeça na direção da mochila encostada na parede. Era uma peça de equipamento sério — preta, com alças acolchoadas e fivelas metálicas, o tipo de mochila que já tinha visto neve e altitude e provavelmente sabia mais sobre sobrevivência do que Luísa saberia em três vidas.
— Tengo comida para diez días. Enlatados, barras de proteína, arroz.
— Eu tenho macarrão, molho de tomate, café, biscoitos, queijo e um vinho que estava guardando para quando terminasse o primeiro capítulo. — Ela fez uma pausa. — O que, no ritmo atual, pode nunca acontecer.
Ele não perguntou sobre o que ela escrevia. Não demonstrou a menor curiosidade. Luísa ficou simultaneamente aliviada e ofendida — uma combinação emocional que só ela seria capaz de sentir.
— Juntamos tudo? — propôs. — Fazemos um estoque comum?
— No. Cada uno con lo suyo.
— Mas faz mais sentido dividir. Se a tempestade durar...
— Cada uno con lo suyo — repetiu, e havia algo de definitivo no tom, algo que ia além da logística de comida. Mateo não queria compartilhar. Não queria misturar. Queria linhas claras, fronteiras demarcadas, cada um no seu território.
Luísa ergueu as mãos em rendição.
— Como quiser. Cada um com o seu.
***
Passaram a hora seguinte em um balé desajeitado de demarcação. Mateo organizou seus pertences no canto esquerdo da sala com precisão militar — mochila alinhada à parede, saco de dormir enrolado sobre o sofá-cama, botas lado a lado como soldados em sentido. Luísa observava do batente da porta do quarto, fingindo arrumar a própria mala enquanto, na verdade, catalogava cada movimento dele.
Ele mancava, mas não reclamava. Às vezes o joelho esquerdo travava numa posição e ele parava um segundo — apenas um segundo — antes de forçá-lo a dobrar novamente. Não era um gesto de dor. Era um gesto de negociação com o próprio corpo, como se dissesse: nós tivemos um acordo, não me traia agora.
Luísa reconhecia aquilo. Não a lesão em si, mas a teimosia de carregar algo quebrado sem pedir ajuda. Ela fazia o mesmo com palavras — arrastava frases mancas pelo documento, forçando-as a funcionar quando o honesto seria admitir que estavam mortas.
Quando ele se abaixou para pegar algo dentro da mochila, a camiseta subiu e ela viu a cicatriz. Não era pequena. Começava logo abaixo da rótula e descia em diagonal, grossa e rosada, como um rio seco num mapa de pele. Uma cicatriz cirúrgica, provavelmente. Séria. Recente o suficiente para ainda ter cor.
Ele percebeu que ela olhava. Puxou a camiseta para baixo num gesto brusco e a encarou com aqueles olhos de tempestade.
— ¿Necesitás algo?
O verbo argentino — necesitás, com aquele vos que transformava tudo em algo mais direto, mais íntimo, mais perigoso — a pegou desprevenida.
— Não. Desculpa.
Ela recuou para o quarto e fechou a porta. Encostou as costas na madeira e soltou o ar que não sabia estar segurando.
Escritora. Ela era escritora. Observar pessoas era seu trabalho. Não tinha nada demais em notar uma cicatriz, catalogar uma manqueira, registrar o modo como a mandíbula dele se apertava quando pensava que ninguém estava vendo. Era pesquisa. Material. Nada além disso.
Abriu o laptop. A tela branca piscou para ela como um olho acusador.
Capítulo 1, escreveu.
Depois apagou.
***
O jantar foi um exercício de coexistência forçada. Luísa esquentou seu macarrão com molho de tomate no único fogão do chalé — duas bocas, gás de botijão — enquanto Mateo esperava com uma lata de atum e uma paciência que parecia calculada para irritá-la.
— Pode usar o fogão ao mesmo tempo — ofereceu ela, mexendo o molho. O vapor subia em espirais perfumadas de tomate e alho. — Tem duas bocas.
— Ya sé. Prefiero esperar.
— Não vai esfriar sua... — ela espiou a lata — ...comida de sobrevivência?
— Es atún. No necesita calor.
— Você vai comer atum frio? Assim, direto da lata?
Ele deu de ombros. Aqueles ombros largos que pareciam ter sido feitos para carregar coisas pesadas — mochilas, responsabilidades, segredos, o que fosse.
— ¿Hay alguna regla sobre cómo comer? — perguntou, e pela primeira vez Luísa detectou algo que poderia, com muita generosidade interpretativa, ser humor.
— Não. Não há regras sobre como comer. Fique à vontade com seu atum triste.
Ela levou o prato para a mesa. Ele sentou no sofá com a lata aberta e um garfo. Comeram em silêncio, separados por três metros de assoalho de madeira e uma distância muito maior feita de tudo que não diziam.
O vento sacudia as janelas em intervalos irregulares, e cada rajada trazia um assobio diferente, como se a Patagônia estivesse testando todas as notas de uma escala que só ela conhecia. A lareira estalava. A chuva tamborilava no telhado de zinco. Luísa pensou que, em outras circunstâncias, aqueles sons seriam perfeitos — exatamente o tipo de trilha sonora que uma escritora em retiro criativo precisava.
Mas a presença dele alterava tudo. Cada silêncio ficava carregado. Cada barulho exigia interpretação. O tilintar do garfo na lata. O suspiro quase inaudível quando ele esticou a perna. O modo como ele engoliu a última porção e limpou o garfo com um guardanapo de papel dobrado em quatro — em quatro, quem dobra guardanapo em quatro para limpar um garfo?
Um homem que precisa de ordem, pensou Luísa. Um homem que precisa que as coisas façam sentido, que tenham bordas limpas e cantos retos. O oposto dela, que vivia em rascunhos e bagunça e meias-palavras.
— Mateo — disse, antes de poder se impedir.
Ele ergueu os olhos.
— ¿Qué?
A pergunta verdadeira — por que você está aqui, o que aconteceu com sua perna, quem é você quando não está sendo rude com estranhas — ficou presa em algum lugar entre o estômago e a garganta. No lugar dela, saiu outra coisa:
— O banheiro. Deixa eu escrever os horários num papel, para a gente não se confundir.
Ele assentiu uma vez. Breve, seco, definitivo.
Luísa arrancou uma folha do caderno de anotações — o mesmo caderno onde deveria estar nascendo seu romance e onde, até agora, só havia listas de compras e rabiscos sem sentido — e escreveu:
BANHEIRO Mateo: 6h Luísa: 7h30 Máx. 15 min
COZINHA Livre para os dois. Cada um com sua comida.
QUARTO: Luísa SALA: Mateo
Pregou o papel na porta da geladeira com um imã em formato de pinguim que encontrou na gaveta. Mateo olhou para o papel, depois para o pinguim, depois para ela.
— ¿Un pingüino?
— É o que tinha.
Ele quase — quase — sorriu. Foi um tremor no canto esquerdo da boca, uma contração muscular que durou menos de meio segundo e que qualquer pessoa normal teria perdido. Mas Luísa não era qualquer pessoa. Luísa era uma mulher que ganhava a vida notando o que as pessoas escondiam.
E o que Mateo Ibáñez escondia por trás daquela fachada de granito, ela pensou enquanto se recolhia ao quarto com o laptop debaixo do braço, era uma história que ela ainda não sabia se queria — ou se temia — descobrir.
Deitou na cama e abriu o documento em branco pela décima vez naquele dia. Os dedos pairaram sobre as teclas. Do outro lado da porta, ela ouviu Mateo estender o sofá-cama — um rangido metálico, um farfalhar de tecido, depois silêncio.
Luísa digitou uma frase. Apenas uma:
Ele chegou com uma tempestade e uma cicatriz, e ela soube que nenhum dos dois ia embora tão cedo.
Ficou olhando para as palavras. Não era boa. Não era ruim. Era um começo.
Fechou o laptop e apagou a luz. No escuro, com a tempestade ainda rugindo lá fora e um desconhecido respirando do outro lado de uma porta fina demais, Luísa Campos finalmente sentiu algo que não sentia havia meses — a coceira insuportável de uma história querendo ser contada.
E a certeza incômoda de que o protagonista estava a menos de cinco passos de distância.