LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
Grávida em Paris
Capítulo 3 — O Desconhecido Tem Nome
O Marché d'Aligre era o tipo de lugar que fazia Bia sentir saudade de Belo Horizonte e gratidão por Paris ao mesmo tempo.
Sábado de manhã, oito horas, e o mercado já pulsava com a energia de uma cidade que leva comida a sério. As barracas transbordavam de queijos que cheiravam a atrevimento, vegetais de cores que pareciam inventadas e frutas secas empilhadas em pirâmides que desafiavam a gravidade. Vendedores gritavam preços com a musicalidade de quem vende poesia, não legumes. E o cheiro — ah, o cheiro — era uma sinfonia de pão fresco, especiarias, ervas molhadas e o aroma vagamente adocicado de cidra aquecida que alguém vendia no canto do mercado.
Bia vinha ao Marché d'Aligre todo sábado desde que chegara a Paris, há quase dois anos. Era seu ritual. Seu momento de andar sem pressa entre bancas, apertar tomates, cheirar queijos, praticar o francês com vendedores que já a conheciam pelo nome — ou pelo apelido, "la brésilienne", que diziam com um carinho que ela fingia não notar.
Hoje, porém, o ritual servia a outro propósito: distração.
Fazia uma semana desde o teste. Sete dias de enjoos matinais, croissants quase queimados e conversas internas com alguém do tamanho de um grão de arroz. Sete dias de olhar para o próprio reflexo no espelho e tentar ver algo diferente — uma mudança, um sinal, qualquer evidência externa do terremoto interno.
Nada visível. Tudo invisível.
O estômago estava cooperando esta manhã, o que Bia atribuiu ao gengibre que mastigava desde que saiu de casa. Um truque que leu num fórum de internet às três da madrugada, quando o sono não veio e o celular era a única companhia. O gengibre queimava a língua e acalmava o estômago — um acordo justo.
Parou na barraca de especiarias do Senhor Mourad, um marroquino de sessenta e poucos anos que flertava com todas as clientes com a mesma devoção com que pesava açafrão. Comprou baunilha em fava — as melhores de Paris, segundo Mourad, segundo Mourad — e canela do Ceilão, que ele embrulhou em papel pardo como se fosse ouro.
"Pour la belle brésilienne, um presente." Ele acrescentou um saquinho de cardamomo ao pacote. "Você está pálida. Faz chá com isso."
Todo mundo percebia. Bia estava começando a achar que carregava um letreiro luminoso na testa.
Agradeceu com o sorriso mais convincente que tinha e seguiu caminhando. Passou pela barraca de queijos. Pela de cogumelos. Pela de flores — tulipas vermelhas e ranúnculos cor-de-rosa que ela não podia comprar porque o estúdio não tinha onde colocar um vaso e o orçamento não tinha onde colocar luxos.
Foi na barraca de frutas que aconteceu.
Bia estava apertando um pêssego — porque no Brasil a gente aperta fruta e na França isso é quase um crime — quando ouviu uma voz atrás de si.
"Os pêssegos não estão na estação. Esses vieram da Espanha. Não prestam."
A voz era grave, precisa, com aquele tom de quem anuncia verdades desagradáveis como quem informa a previsão do tempo. Francês impecável. E algo na cadência — no modo como as palavras caíam, seguras, sem pedir permissão — fez um alarme tocar no fundo da memória de Bia.
Ela virou.
Alto. Cabelos escuros, ondulados, compridos demais. Maxilar que poderia ter sido desenhado por alguém que entende de geometria e crueldade. E olhos — olhos de uma cor que ela tinha tentado definir três semanas atrás, num bar com luz âmbar, e não conseguiu.
Cinza-azulados. Como o céu de Paris em março.
Só que agora não estavam num bar. Estavam num mercado, às oito da manhã de sábado, com luz natural impiedosa e nenhum copo de vinho para borrar os contornos.
Ele não a estava olhando. Estava olhando para os pêssegos, com a expressão de alguém pessoalmente ofendido pela existência de frutas fora de temporada.
Bia ficou paralisada.
Era ele. O homem do bar. O homem da noite. O homem cujo nome ela não sabia e cujo cheiro — lavanda e sabonete e pele quente — ela carregava na memória como uma tatuagem olfativa.
O pai do bebê.
Ali. No mercado. Criticando pêssegos.
O mundo tinha um senso de humor perverso.
"Eu não pedi opinião", ela disse, porque era a única resposta que o cérebro encontrou entre o pânico e a paralisia.
Ele levantou o olhar. E pela primeira vez a viu. Não com reconhecimento — não ainda — mas com o tipo de atenção que se dá a alguém que rebate uma afirmação. Curiosidade. Avaliação.
"Está apertando o pêssego com força demais", ele disse. "Se apertar assim, vai machucar a polpa. E não vai mudar o fato de que é um pêssego ruim."
"Eu sei avaliar uma fruta."
"Pelo modo como está segurando, discordo."
Bia soltou o pêssego. Não porque ele tinha razão — ele tinha razão, mas esse era um detalhe irrelevante — e sim porque os dedos estavam tremendo e ela precisava deles longe de qualquer coisa que pudesse denunciar o terremoto que acontecia dentro dela.
Olhou para ele com mais atenção, agora que o choque inicial cedera espaço para a análise. Estava de jaqueta de couro escuro sobre uma camisa de linho cinza. Sem avental, sem uniforme de cozinha, mas havia farinha na bochecha esquerda — um vestígio sutil, quase invisível, que só alguém treinado para ver detalhes notaria. Ele carregava uma sacola de papel com o logo de uma boulangerie que Bia não reconheceu. E as mãos — as mãos que ela lembrava no escuro — seguravam um pacote de manteiga artesanal com a reverência de quem segura algo sagrado.
"Espera." A memória veio em flash. Não do bar. De antes. Meses antes. "Eu conheço você."
Ele franziu a testa. "Não acredito que nos conhecemos."
"Não pessoalmente. Quer dizer, não..." Bia tropeçou nas palavras e sentiu o rosto esquentar. "Você é o chef que veio na pâtisserie de Madame Lavigne em outubro. O que provou meus macarons e disse que eram..." ela procurou a citação exata na memória. "'Tecnicamente competentes mas sem alma.'"
O reconhecimento apareceu no rosto dele como uma cortina se abrindo. Não sobre o bar — sobre a pâtisserie. Sobre os macarons.
"Ah." Ele inclinou a cabeça, e algo que podia ser um sorriso — ou uma careta disfarçada — apareceu no canto da boca. "Eram mesmo sem alma."
"Eram perfeitos."
"Perfeição e alma são coisas diferentes." Ele trocou a sacola de mão. "A perfeição é técnica. A alma é o que faz alguém fechar os olhos quando morde."
"Você deu uma palestra sobre isso enquanto cuspia meu macaron num guardanapo."
"Eu não cuspi."
"Você fez uma cara que era pior do que cuspir."
"Eu fiz uma avaliação honesta."
"Você fez uma crueldade revestida de francês bonito."
Ele parou. Olhou para ela com uma atenção renovada, como se estivesse recalibrando o cenário. E Bia percebeu, com uma clareza que doía, que ele não a reconhecia. Não da noite. Não do bar. Não do apartamento no terceiro andar sem elevador.
A confeiteira dos macarons sem alma, ele lembrava. A mulher com quem dormiu três semanas atrás, não.
A ironia era tão grossa que dava para fatiar e servir com chantilly.
"Étienne Beaumont." Ele estendeu a mão. Um gesto formal, quase antiquado, que contrastava com o modo casual como tinha acabado de insultar o gosto dela para frutas.
Étienne. O nome caiu sobre Bia como uma pedra num lago parado. Étienne Beaumont. O desconhecido tinha nome. Tinha sobrenome. Tinha farinha na bochecha e manteiga artesanal na sacola e uma opinião sobre pêssegos espanhóis.
E não fazia ideia de que, dentro dela, algo do tamanho de um grão de arroz carregava metade do DNA daquelas mãos grandes estendidas em cumprimento.
"Bia." Ela apertou a mão dele. Firme, rápido, o mínimo de contato. A pele dele era quente, áspera nos dedos — calos de faca, de forno, de horas na cozinha. "Bia Ferreira."
"A confeiteira brasileira."
"A confeiteira cujos macarons você destilou."
"Não destilei. Analisei."
"Com requintes de crueldade."
Ele quase sorriu. Quase. O canto da boca se moveu um milímetro, como uma porta que abre e fecha antes que se possa ver o que há do outro lado.
"Seu francês melhorou", ele disse, mudando de assunto com a sutileza de um trem descarrilhando.
"Obrigada. Seus modos não."
§
Bia se afastou da barraca de frutas com o coração — não, não o coração, porque corações não disparam nesta história — com o sangue pulsando nos ouvidos e as mãos enfiadas nos bolsos do casaco para que ninguém pudesse ver que tremiam.
Étienne Beaumont.
O nome rodava na cabeça como um disco arranhado. Étienne Beaumont. O chef que destilou seus macarons. O desconhecido do bar. O pai do bebê que crescia escondido debaixo do avental.
Uma pessoa. Três identidades. Nenhuma que tornasse a situação menos absurda.
Caminhou entre as barracas sem ver o que vendiam. O mercado era um borrão de cores e vozes. O cardamomo do Senhor Mourad pesava no bolso como uma acusação: "Você está pálida." Claro que estava pálida. Acabara de descobrir que o universo não apenas tinha um senso de humor perverso, como também tinha péssima noção de timing.
Parou diante da barraca de flores. As tulipas vermelhas estavam ali, obscenamente bonitas, e Bia as olhou sem pensar em comprar, sem pensar em nada, apenas olhando para algo que fosse simples e belo e não complicado.
"Desculpe."
A voz veio de trás. Bia virou. Étienne estava ali, a dois passos, com uma expressão que era o equivalente facial de um homem retirando uma pedra do sapato — desconforto disfarçado de pragmatismo.
"Sobre os macarons", ele disse. "Em outubro. Eu poderia ter sido mais... diplomático."
"Poderia."
"A técnica era boa."
"Eu sei."
"Mas a alma—"
"Se você falar em alma de novo, eu juro por Deus e por Nossa Senhora Aparecida que enfio um pêssego espanhol na sua boca."
Ele piscou. Uma vez, duas vezes. E então fez algo que Bia não esperava: riu. Uma risada curta, contida, como se tivesse escapado contra a vontade. Como se rir fosse um ingrediente que ele não costumava usar.
"Justo", ele disse.
Ficaram em silêncio por um momento. O mercado continuava ao redor — vendedores, clientes, pombos oportunistas. Um acordeonista tocava algo vagamente parecido com Piaf a três barracas de distância. O cheiro de castanhas assadas voltou, misturado ao de queijo forte e cidra morna.
"Você trabalha para Madame Lavigne há quanto tempo?" ele perguntou. A pergunta era casual. A atenção, não.
"Quase dois anos."
"Ela é boa."
"Ela é extraordinária."
"Ela é obstinada."
"Também. As duas coisas não se excluem."
Ele assentiu, como se arquivasse a informação num fichário mental. "Vou fornecer para ela a partir de janeiro. Massa folhada e bases. Ela mencionou?"
O estômago de Bia, que estivera cooperando bravamente desde o gengibre da manhã, fez uma pirueta de protesto. Não de enjoo — de algo pior. De compreensão.
"Fornecedor."
"A partir de segunda quinzena de janeiro."
"Para a pâtisserie."
"Para a pâtisserie."
Bia calculou. Janeiro. O homem com quem dormira — o pai do bebê cujo tamanho provavelmente já ultrapassara o de um grão de arroz — ia entrar na pâtisserie onde ela trabalhava. Todo dia. Com farinha na bochecha e manteiga artesanal e aquele cheiro de lavanda que ela sentia como uma emboscada.
"Ótimo", ela disse, e sua voz soou como alguém testando se o gelo aguenta o peso. "Bem-vindo ao time."
"Não é time. É fornecimento. Relação comercial."
"Que seja."
Ele a olhou por mais um segundo — aquele olhar avaliador, de chef que analisa um prato antes de decidir se tem algo faltando — e acenou com a cabeça.
"Bom dia, Bia Ferreira."
"Bom dia, Étienne Beaumont."
Ele se virou e caminhou na direção oposta. Bia ficou parada entre as tulipas e as castanhas e o som do acordeão, vendo as costas dele sumirem entre a multidão do mercado.
Étienne Beaumont. Fornecedor. Crítico de macarons. Ex-desconhecido.
E ele não a reconhecia. Não do bar, não da noite, não do terceiro andar sem elevador. Para ele, ela era a confeiteira brasileira dos macarons sem alma. Ponto.
Bia comprou as tulipas. Vermelhas, ridiculamente caras, completamente desnecessárias.
Porque às vezes, quando o universo decide rir de você com tanta dedicação, a única resposta é comprar flores que não cabem no apartamento e caminhar para casa fingindo que nada mudou.
Mesmo quando tudo mudou.
Mesmo quando o desconhecido agora tem nome, vai trabalhar no mesmo lugar, e não faz ideia de que, em algum momento entre julho e a eternidade, vai ser pai.