LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
A Última Temporada
A noite era perfeita para observar Júpiter.
Alexander Blackwood, 5o Duque de Ravenswood, sabia disso porque passara a tarde verificando as efemérides astronômicas, calibrando a lente do telescópio e assegurando-se de que o relógio do observatório estava sincronizado com precisão de segundos. Eram os preparativos de um homem que compreendia que o universo operava em escalas de tempo e distância que tornavam os problemas humanos — inclusive e especialmente os seus — magnificamente irrelevantes.
O observatório ficava no último andar da casa de Mayfair, num cômodo que Alexander mandara construir dois anos atrás, removendo o teto e instalando uma cúpula giratória que o arquiteto chamara de "excêntrica" e o mordomo, Henderson, chamara de "corrente de ar permanente." Mas o frio não incomodava Alexander. Gostava do ar noturno contra o rosto, do cheiro de metal frio do telescópio, do silêncio que só existia acima do nível das ruas.
O telescópio era um refrator de Dollond, cinco polegadas de abertura, com óptica que Alexander melhorara pessoalmente, porque confiava nos fabricantes para a mecânica e em si mesmo para a precisão. O couro da empunhadura estava gasto pelo uso — suas mãos, não as de um criado. Era a única coisa na casa que ele tocava com algo parecido a carinho.
Ajustou o foco. Júpiter apareceu no campo de visão como um disco pálido, acompanhado de três das quatro luas galileanas — Io, Europa e Ganimedes alinhados como contas num fio invisível. Alexander anotou as posições no caderno, a caligrafia precisa e compacta, e sentiu algo que em outro homem seria chamado de paz.
— Alexander.
A voz veio das escadas e carregava consigo o perfume de rosas e talco e a autoridade inegociável de Lady Eloise Blackwood, Duquesa-viúva de Ravenswood, tia paterna de Alexander e a única pessoa viva a quem ele obedecia sem discutir — embora discutisse com frequência, por princípio.
— Estou ocupado — disse ele, sem tirar o olho da ocular.
— Está olhando para o céu.
— Exatamente. Ocupado.
Eloise emergiu da escadaria com a dignidade de uma rainha visitando masmorras. Tinha sessenta e dois anos, cabelos brancos arranjados com perfeição militar, e olhos cinzentos idênticos aos de Alexander — herança dos Blackwood, junto com a altura, a teimosia e uma propensão melancólica que a família disfarçava de arrogância há gerações.
— Precisamos conversar — disse Eloise, sentando-se na única cadeira do observatório, que Alexander deixara ali especificamente para ela, embora nunca admitisse isso.
— Sobre?
— Sobre o fato de que você completou trinta anos, é o último dos Blackwood, e esta casa tem trinta e dois cômodos ocupados por uma pessoa e um telescópio.
Alexander continuou anotando. As posições das luas de Júpiter eram mais interessantes do que esta conversa, que ele já tivera com a tia aproximadamente vinte e seis vezes — ele contara.
— Trinta e três cômodos — corrigiu. — A senhora esquece o observatório.
— O observatório não é um cômodo. É um telhado com pretensões.
— É uma cúpula astronomicamente funcional com...
— Alexander. Olhe para mim.
Ele olhou. O erro foi imediato — porque Eloise tinha aquela expressão. Não a severa (cotidiana), nem a irônica (habitual), mas a outra. A que lembrava sua mãe. A que fazia algo apertar no peito de Alexander como uma correia de couro molhado.
— Esta *Season* — disse Eloise, medindo as palavras como quem dosifica veneno — vai ser a última em que tolero sua reclusão.
— Não estou recluso. Fui ao White's na terça.
— Ficou no canto lendo um tratado sobre líquenes.
— Líquenes são fascinantes.
— Alexander.
— E sociais. Vivem em simbiose com algas. É praticamente um casamento.
Eloise não riu. Eloise raramente ria, mas quando o fazia, era um evento que alterava a temperatura do cômodo. Desta vez, manteve a expressão fixa.
— Você é o 5o Duque de Ravenswood. Tem propriedades em três condados, uma fortuna que poderia alimentar um regimento, e a responsabilidade de garantir que o nome não morra com você. Seu pai...
— Não fale do meu pai.
O silêncio que se seguiu tinha peso. Alexander sentiu-o nos ombros como uma mão.
— Seu pai — continuou Eloise, mais suave agora, e a suavidade era pior que a severidade — não definiu o que significa ser Blackwood. Você pode definir.
Alexander pousou a caneta. O caderno de anotações astronômicas estava aberto na página de observações de Júpiter, e entre as coordenadas e medições de ângulo, havia um espaço em branco onde sua mão havia parado. As mãos eram grandes, de dedos longos, mais adequadas a instrumentos de precisão do que a luvas de baile. Tinham calo de tanto girar parafusos de calibração e uma cicatriz fina no indicador esquerdo — o dia em que derrubara uma lente e tentara pegá-la no ar. Coisas que ele valorizava tendiam a se quebrar quando tentava segurá-las.
— O que a senhora quer, exatamente? — perguntou ele, e a pergunta saiu mais cansada do que pretendia.
— Quero que participe da *Season*. De verdade. Bailes, jantares, saraus. Que conheça pessoas. Que considere... possibilidades.
— Possibilidades.
— Casamento, Alexander. A palavra é casamento.
Ele se levantou. No observatório, em pé, Alexander Blackwood era uma presença que ocupava espaço de forma que poucas pessoas toleravam. Tinha um metro e oitenta e cinco, ombros largos que o alfaiate chamava de "dramáticos" e um rosto que a sociedade descrevia como bonito — mas bonito da forma errada, bonito como uma lâmina, algo a ser admirado a distância. Os olhos cinza-azulados tinham a qualidade particular de fazer as pessoas sentirem que estavam sendo avaliadas e achadas insuficientes, o que geralmente era verdade.
Mas Eloise era imune.
— Tive pretendentes — disse Alexander, e a palavra soou clínica em sua boca, como se discutisse espécimes. — Nenhuma suportaria isso. — Gesticulou para o observatório, o telescópio, o caderno de anotações, o silêncio. — Nenhuma entenderia.
— Talvez porque você nunca deu a nenhuma a chance de tentar.
— Tentei. Lady Priscilla conversou comigo por vinte minutos sobre chapéus. Mrs. Worthington perguntou se meu observatório era "um hobby como a equitação." E Miss Alderton...
— O que houve com Miss Alderton?
— Chamou Galileu de "aquele italiano que inventou o telescópio."
— Galileu não inventou o telescópio?
— Não. — Alexander sentou-se novamente, com a exaustão de quem explicou isso muitas vezes. — Hans Lippershey patenteou, embora a prioridade seja disputada. Galileu aperfeiçoou e direcionou ao céu. Há uma diferença fundamental entre inventar e transformar, e...
— Alexander.
—...nenhuma pessoa naquela sala teria entendido por que essa distinção importa.
Eloise observou o sobrinho por um longo momento. O vento noturno entrava pela abertura da cúpula, trazendo o cheiro de Londres — fumaça, rio, cavalos, e por baixo de tudo, o perfume distante de jardins que já dormiam. O whisky de malte no copo ao lado do caderno de Alexander estava pela metade, e Eloise sabia que ele tomava devagar, ao longo de horas, porque Alexander fazia tudo devagar e com controle — exceto sentir, que evitava por completo.
— Recebi uma carta de Helena Stirling — disse Eloise.
— Não conheço nenhuma Helena Stirling.
— Lady Stirling. Esposa do Visconde. Minha amiga mais antiga.
— A senhora tem amigos?
— Impertinente. Helena e eu nos conhecemos antes de seu pai destruir minha capacidade de socializar. — Pausa. — Ela tem uma filha.
— Todas têm.
— Uma filha diferente.
— Todas dizem isso também.
— Theodora Stirling. Vinte e seis anos. Sétima *Season*. Lê grego e latim. Jogadora de xadrez. Recusou todas as propostas que recebeu porque os homens a queriam decorativa, e ela é qualquer coisa menos decorativa.
Alexander permaneceu imóvel, mas algo na descrição — talvez o grego, talvez o xadrez, talvez o "qualquer coisa menos decorativa" — fez seus dedos pararem a meio caminho do copo de whisky.
— E a senhora quer que eu a conheça.
— Quero que me acompanhe a *Almack's* na quarta. Helena estará lá com a filha. O resto é da sua conta.
— Não estou interessado.
— Não perguntei se está interessado. Perguntei se vai me acompanhar.
— Qual a diferença?
— A diferença, Alexander, é que na primeira opção você tem escolha, e na segunda eu escolho por você. — Eloise se levantou, alisou as saias e caminhou até a escada. Na última degrau, parou. — Se não comparecer à *Season* este ano, vou convidar Lady Cordelia Ashton para um mês em Ravenswood. Com a mãe dela.
O silêncio que se seguiu foi o de um homem reconhecendo uma derrota militar.
Lady Cordelia Ashton era tudo o que a sociedade considerava perfeito numa futura duquesa — bonita, elegante, impecavelmente educada, e tão previsível quanto um relógio suíço. Alexander a achava perfeitamente agradável e perfeitamente insuportável, o que era, ele suspeitava, exatamente o que a sociedade esperava que ele sentisse antes de se render à inevitabilidade.
— Está me chantageando — disse Alexander.
— Estou te motivando. Há uma diferença fundamental — não foi isso que disse sobre Galileu?
E saiu.
Alexander ficou sozinho no observatório. O vento mudou, trazendo uma nota de chuva iminente. Júpiter continuava no mesmo lugar — distante, constante, indiferente — e Alexander invejou o planeta com uma intensidade que reconhecia como patética.
Levantou-se e foi até a janela que dava para o jardim. Mesmo no escuro, sabia exatamente a disposição de cada canteiro. O jardim da mãe. As rosas que ele mandava manter intactas — as mesmas variedades, as mesmas posições, cuidadas por um jardineiro que recebera instruções de tratar cada arbusto como se fosse herança da Coroa.
Sua mãe morrera quando Alexander tinha dezesseis anos. Charlotte Blackwood, nascida Pemberton, havia sido bonita, gentil e completamente esmagada pelo marido. O 4o Duque de Ravenswood fora o tipo de homem que a sociedade admirava e a família temia — controlador, meticuloso, com uma crueldade que nunca levantava a voz porque não precisava. Bastava o silêncio. Bastava o olhar. Bastava a forma como avaliava sua esposa durante um jantar e depois, na carruagem de volta, listava cada erro — o prato errado, o comentário imprudente, o sorriso largo demais — com a calma de um cirurgião catalogando feridas.
Charlotte murchara como um jardim sem sol. Alexander assistira, ano após ano, impotente com os punhos cerrados, enquanto a mulher mais gentil que conhecia se tornava sombra, depois silêncio, depois nada.
Quando morreu — pneumonia, disseram os médicos, mas Alexander sabia que pessoas não morrem só de pulmões; morrem de desistência —, o 4o Duque observara o caixão com a mesma expressão que reservava para contas e contratos. Alexander, aos dezesseis, ficara ao lado dele e jurara duas coisas: nunca ser como o pai, e nunca dar a ninguém o poder de destruí-lo daquela forma.
O pai morrera seis anos depois, e Alexander herdara o título, as propriedades, a fortuna e o medo. Porque essa era a verdade que ninguém via atrás da frieza e da sobrancelha franzida e dos monossilábicos em bailes: Alexander Blackwood não era frio porque não sentia. Era frio porque sentia demais, e o que sentia o aterrorizava.
Seu pai sentira também. Havia cartas que provavam — cartas escritas nos primeiros anos do casamento, quando o 4o Duque escrevia sobre Charlotte com algo que se parecia dolorosamente com amor. O que acontecera entre aquele homem e o monstro que Alexander conhecera era um mistério que ele não queria resolver, porque resolver significava aceitar que a crueldade podia ser uma distorção do amor, e se o amor podia se distorcer assim, então Alexander preferia não amar.
Voltou ao telescópio. Ajustou o foco. Júpiter estava exatamente onde a matemática previa — reconfortante, previsível, a milhões de quilômetros de distância.
— Almack's — disse ele para o silêncio. — Na quarta.
O silêncio não respondeu, que era sua qualidade favorita.
Na manhã seguinte, Henderson informou que Lady Eloise já providenciara traje adequado para a ocasião e que o alfaiate esperava às dez. Alexander recebeu a notícia com a expressão que seu mordomo descreveria depois, na cozinha, como "a de um homem marchando para o cadafalso com a postura impecável."
— Será que Sua Graça deseja algo para o café da manhã? — perguntou Henderson.
— Silêncio — respondeu Alexander.
— Torradas e silêncio, então, Sua Graça.
Henderson era o único criado que se permitia ironia, e Alexander o mantinha exatamente por isso.
O café foi tomado sozinho, numa sala de jantar projetada para vinte pessoas. A mesa de mogno refletia as janelas altas. A prata brilhava. O serviço era impecável. Tudo era impecável na casa de Ravenswood — cada livro alinhado, cada superfície polida, cada flor arranjada com a precisão de um relógio. Era a casa de um homem que controlava tudo o que podia controlar, porque as coisas que não podia — o passado, a memória do pai, o rosto da mãe nos retratos que havia removido e depois recolocado e depois removido de novo — eram insuportáveis.
Alexander mordeu a torrada. Estava perfeita. A manteiga era da melhor qualidade. A geleia era de damasco importado.
Ele não sentiu gosto de nada.
Na mesa ao lado, o convite para *Almack's* esperava, gravado em papel creme com letras douradas, e Alexander o encarou como se fosse um tratado de paz com cláusulas escondidas.
Em dois dias estaria num salão cheio de gente que não queria estar, procurando uma mulher que não queria encontrar, para satisfazer uma tia que era a única pessoa viva capaz de fazê-lo sentir que estava falhando.
Bebeu o café. O whisky teria sido mais apropriado, mas eram oito da manhã e Alexander tinha padrões.
Em algum lugar de Londres — numa casa barulhenta onde escadas rangiam e besouros invadiam a cozinha e torradas queimavam e uma mulher de cabelos castanho-avermelhados consultava um livro-caixa escondido com a determinação de um general diante de um mapa de batalha — sua vida estava sendo planejada sem seu consentimento.
E pela primeira vez em oito *Seasons*, Alexander teve a sensação incômoda de que esta seria diferente.
Detestou a sensação imediatamente.