LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
A Jogadora
Sábado. Dia de inventário pessoal.
Acordo às seis — o corpo não sabe mais dormir até tarde, treinado por anos de escola pública com aula às sete e mãe que levanta às cinco pra pegar ônibus pro Morumbi. A Jéssica dorme como se o mundo não tivesse problemas, o cobertor enrolado no corpo como um casulo, a boca levemente aberta. Eu invejo isso. Não o sono — a capacidade de abandonar-se nele.
A mãe já está na cozinha. Sábado é dia de faxina na casa da dona Cristina, no Morumbi. Sessenta reais. Ônibus e metrô, quatro horas de trabalho, volta às três se o trânsito colaborar. Minha mãe trabalha seis dias por semana e no sétimo lava a roupa da nossa casa, como se descanso fosse um conceito que não coubesse na grade horária.
— Tem café — ela diz, já de uniforme. Calça jeans clara, camiseta branca que ela passa com cuidado religioso, tênis limpo. Minha mãe vai limpar a casa dos outros com a dignidade de quem vai a uma reunião de negócios. Isso me destrói e me constrói ao mesmo tempo.
— Mãe, a senhora precisa de alguma coisa?
Ela me olha. Aquele olhar que dura meio segundo a mais que o normal.
— Preciso que você coma direito. Tá mais magra.
— Eu como.
— Você come o que dá e chama de refeição.
Ela tem razão. Eu como a salada subsidiada da GV no almoço, pulo o jantar quando o dinheiro tá curto, e compenso com café — o de lá, não o daqui. O de lá é espresso, curto, sem açúcar, servido em xícara pequena que eu seguro como vi a patroa da minha mãe segurar: dois dedos na alça, o mindinho relaxado, nunca esticado. Protocolo.
Minha mãe sai. Pela janela da cozinha — janela que dá pra parede do prédio ao lado, separada por um metro de distância onde o sol nunca entra direito — eu vejo ela caminhando até o ponto. Costas retas, passo firme. Dona Marta não se curva. Mesmo quando o mundo pesa.
Eu me curvo. Mas por dentro.
* * *
O plano do sábado é simples: me reconstruir.
Abro o notebook — um Lenovo usado que comprei com dinheiro da feira do rolo, teclado com três letras apagadas, mas funciona. Sento na cama, porque a mesa da cozinha é da Jéssica quando ela está estudando e eu não quero disputar território. Coloco o caderno do lado, abro o navegador e começo.
Primeira etapa: linguagem.
Digito "gírias classe alta São Paulo" e me arrependo imediatamente — não é assim que funciona. A classe alta não tem gírias. Tem ausências. Não diz "mano", não diz "cê", não diz "firmeza". Diz "perfeito", "sem dúvida", "com certeza". Usa subjuntivo com naturalidade — "seria interessante se fôssemos" em vez de "bora lá". Faz perguntas retóricas em vez de afirmações diretas. Diz "não acha?" como se a sua opinião precisasse de validação democrática, quando na verdade já está decidida.
Eu anoto:
"MANUAL — LINGUAGEM" "1. Eliminar: mano, tipo (excesso), cê, firmeza, da hora, suave." "2. Incorporar: de fato, sem dúvida, absolutamente, me parece que, seria interessante." "3. Tom: nunca alto. Nunca apressado. A voz da elite é lenta porque eles sabem que o mundo espera." "4. Risada: breve. Sonora mas contida. Nunca gargalhar em público." "5. Discordância: nunca direta. 'Entendo seu ponto, mas será que...' em vez de 'não concordo'."
Prático em voz alta. Fecho a porta do quarto — que é a porta do quarto e da sala, porque o quarto é a sala, o beliche dividindo espaço com o sofá de dois lugares que veio de doação — e repito:
— De fato, me parece uma perspectiva interessante. — Sem dúvida, seria ótimo. — Absolutamente.
A voz sai estranha. Robótica. Preciso suavizar. Repetir até que soe como reflexo, não como ensaio. Até que minha boca pronuncie essas palavras com a mesma naturalidade com que diz "oi, mãe".
Segunda etapa: aparência.
Abro o Pinterest. Instagram de influenciadoras que são o que eu preciso parecer — não as ostensivas, não as que postam logo de marca. As discretas. As que usam linho, jeans de corte reto, sapatilha, bolsa de couro que não grita mas sussurra. A estética da riqueza que não precisa provar nada.
Anoto:
"MANUAL — APARÊNCIA" "1. Cabelo: progressiva urgente. Pesquisar salão acessível. Enquanto isso, coque baixo com gel (YouTube: 'coque elegante cabelo crespo')." "2. Roupa: tons neutros. Preto, branco, bege, azul-marinho. Nunca estampa chamativa. Peças simples, corte bom. Brechó da Augusta: procurar blazer, calça de alfaiataria, camisa branca." "3. Maquiagem: menos é mais. Base que uniformize (pesquisar tom no YouTube). Rímel. Batom nude. Batom vermelho: reservar para ocasiões estratégicas." "4. Unhas: parar de roer. Lixar, esmalte transparente. Mãos sempre hidratadas." "5. Sapato: investir num par bom. É o que mais entrega. Scarpins pretos, salto médio. Brechó ou promoção."
Olho pras minhas mãos enquanto digito. As cutículas irregulares. O calo do lápis. A pele áspera da água sanitária que uso pra limpar o banheiro. Essas mãos precisam de uma história diferente.
Terceira etapa: repertório.
Essa é a mais complexa. Não basta falar como eles e vestir como eles — preciso saber o que eles sabem. Ou fingir que sei. Anoto:
"MANUAL — REPERTÓRIO CULTURAL" "1. Vinhos: aprender básico. Tinto/branco/rosé, regiões principais (Borgonha, Toscana, Vale dos Vinhedos). Nunca pedir o mais barato nem o mais caro. Segundo mais barato da carta." "2. Restaurantes SP: decorar nomes e especialidades dos principais. Fasano (italiano), Arturito (contemporâneo), A Casa do Porco (porco, fila). Comentar como quem já foi." "3. Viagens: ter destinos prontos. 'Fui pra Lisboa no último verão' é seguro — Lisboa é acessível, plausível, sem ostentação excessiva." "4. Música: Spotify das playlists certas. Jazz, MPB clássica, alguma coisa em inglês que não seja pop de rádio. Nunca dizer que gosta de funk — não porque eu não goste, mas porque funk nessa roda é 'interessante antropologicamente', não trilha sonora de vida." "5. Séries/filmes: Netflix e HBO. Ter opinião sobre documentários. Nunca dizer que assistiu novela aberta."
Cada item da lista é uma pequena morte. Cada coisa que eu preciso esconder — o funk que me embala pra dormir, a novela que minha mãe assiste e que eu finjo não acompanhar mas sei todos os personagens, o vinho que eu nunca tomei, os lugares que eu nunca pisei — é uma parte de mim que eu embalo e guardo num porão interno.
Não é que eu tenha vergonha. Eu repito pra mim mesma que não tenho vergonha.
É que vergonha e estratégia moram na mesma rua, e às vezes eu confundo os números das casas.
* * *
Às dez, saio pra Rua Augusta.
O ônibus de sábado é diferente — mais vazio, mais lento, como se até o transporte público tirasse folga parcial. Desço na Augusta e ando. A rua é um catálogo de contradições: brechó de luxo ao lado de sex shop, café artesanal ao lado de loja de R$ 1,99, gente de terno ao lado de gente de moicano. São Paulo não escolhe — empilha.
O brechó se chama "Garimpeira" e fica num segundo andar com escada estreita que cheira a incenso e naftalina. A dona — mulher de uns cinquenta anos, cabelos roxos, anéis em todos os dedos — me olha com aquele radar que donos de brechó têm: está aqui por estilo ou por necessidade?
Eu finjo estilo. Folheio as araras com a displicência de quem não precisa, mas quer.
Encontro: um blazer azul-marinho, corte reto, tecido bom, etiqueta de uma marca que eu não conheço mas que parece cara — R$ 45. Uma calça preta de alfaiataria, cintura alta, com vinco — R$ 30. Duas camisas, uma branca, uma azul-clara — R$ 20 cada. Um par de scarpins pretos, salto sete, levemente arranhados na sola, número 37, meu número exato — R$ 55.
Total: R$ 170.
O salário do café onde começo segunda é R$ 850 por mês, meio período. Menos o transporte — que come mais da metade se eu não usar o passe estudantil com cuidado —, menos a contribuição pra casa, menos o celular. Cento e setenta reais é sangue.
Mas cento e setenta reais é o preço de parecer que pertenço. E parecer é o primeiro passo pra pertencer. E pertencer é o primeiro passo pra conquistar.
Pago em dinheiro. Sempre dinheiro. Cartão deixa rastro, e eu não tenho cartão que aguente.
Na saída, visto o blazer por cima da minha camiseta. Me olho no espelho do brechó — corpo inteiro, luz natural da janela. O blazer me transforma. Os ombros ficam mais largos, a postura muda, como se a roupa carregasse instruções de como usá-la. A dona me olha.
— Ficou linda.
Eu sei. Não é vaidade. É constatação técnica.
* * *
Volto pra casa com as sacolas e uma sensação que não sei nomear — algo entre empolgação e náusea, como se estivesse me preparando pra uma guerra que só eu sei que está acontecendo.
Minha mãe chegou antes de mim. Está sentada na cadeira da cozinha, os pés num balde de água quente — o ritual de sábado, os pés inchados depois de quatro horas de pé limpando casa alheia. O cheiro de água com sal e eucalipto. A TV ligada numa novela que já começou. A luz da cozinha é amarela, cansada, como tudo nessa casa.
— Comprou roupa? — ela pergunta, olhando as sacolas.
— Pro estágio — minto pela metade. — Preciso de roupa mais formal.
— Quanto gastou?
— Quarenta reais. Brechó.
O número real morreria na garganta se eu dissesse. Minha mãe, que ganha sessenta reais por faxina, não precisa saber que eu gastei quase três faxinas dela em roupas pra fingir que sou outra pessoa.
Ela assente. Não questiona — porque confia, e a confiança dela é a coisa mais pesada que eu carrego.
— Vem cá — ela diz. — Senta.
Sento na outra cadeira. Ela me olha com aquele raio-x.
— Você tá diferente.
— Diferente como?
— Não sei. Diferente. — Pausa. — Tá falando diferente. Esses dias você disse "de fato" e eu pensei que tava assistindo jornal.
O gelo corre pela espinha. Minha mãe, que não terminou o ensino médio, que lê revistas velhas na condução e assina o nome com a letra caprichada de quem aprendeu tarde, percebeu em três dias o que eu esperava que levasse semanas.
— É a faculdade, mãe. A gente acaba pegando o jeito de falar.
— Pegar o jeito de falar é uma coisa. Virar outra pessoa é outra.
A frase me atinge como um tapa. Não pela força — pela precisão. Dona Marta não desperdiça palavras. Cada frase que sai da boca dela carrega o peso de uma vida inteira observando, calada, as pessoas que ela serve. Ela sabe — talvez não em palavras articuladas, mas sabe com o corpo, com a intuição de quem limpou banheiro de juíza e cozinha de empresário e escritório de médico — que existe uma diferença entre aprender e se apagar.
— Não vou virar outra pessoa, mãe.
Minto. Olhando nos olhos dela. Minto.
Ela não acredita. Eu vejo que não acredita. Mas ela faz o que sempre faz: aceita o que eu ofereço, porque é o que tem, e o que tem precisa ser suficiente.
— Vou esquentar o jantar — ela diz, tirando os pés do balde. — Fiz macarrão.
* * *
Depois do macarrão — alho e óleo, o molho que ela faz com dois dentes de alho, azeite barato e sal, que é a melhor coisa que eu já comi e que eu nunca vou admitir em voz alta na GV — eu me tranco no banheiro.
É o meu escritório. O único lugar com porta que fecha e tranca.
Pego o celular e abro o YouTube. Busco: "como andar de salto alto". Parece ridículo, eu sei. Mas eu nunca usei salto na vida. Meu universo de calçados consiste em: chinelo Havaianas (azul, gasto), tênis Olympikus (preto, sobrevivente), e sandália rasteira (doação, levemente grande). O scarpin do brechó é um território desconhecido.
Coloco os scarpins. No banheiro, no piso de cerâmica fria, com a porta trancada e o funk do vizinho fornecendo a trilha sonora mais improvável para uma aula de etiqueta.
Primeiro passo: o pé direito avança, o calcanhar toca primeiro, depois a ponta. Os dedos se espremem na biqueira estreita. O corpo oscila — o equilíbrio muda, a postura muda, tudo muda. É como aprender a andar de novo. Segundo passo. Terceiro. Quatro passos no banheiro, meia-volta na frente do vaso, quatro passos de volta.
A dor é imediata. Uma pressão no metatarso, uma fisgada no calcanhar, uma queimação no dedo mindinho que está sendo lentamente assassinado pela biqueira. Eu entendo agora por que mulheres ricas andam devagar — não é elegância, é sobrevivência.
Prático por vinte minutos. Ida e volta no banheiro. Os passos vão ficando mais firmes, a oscilação diminui. Eu me olho no espelho — do pescoço pra baixo, blazer azul-marinho, calça preta, scarpin. Falta o cabelo, falta a maquiagem, falta a mão hidratada e a unha feita. Mas o esqueleto está lá. A estrutura sobre a qual eu vou montar a personagem.
Porque é isso que é. Uma personagem. Renata de Pinheiros, filha de pais divorciados, mãe professora — essa é a mulher que vai entrar na GV segunda-feira. A outra — a de Cidade Tiradentes, filha de diarista, cabelo crespo, chinelo Havaianas, que come pão com margarina e ouve funk do vizinho — essa fica aqui. Neste banheiro. Nesta casa. Neste lado da cidade.
Tiro os scarpins. A sola dos pés pulsa de dor. Coloco o chinelo — o alívio é imediato, é voltar pra casa depois de uma viagem longa. Olho os scarpins no chão, pretos, elegantes, ligeiramente ameaçadores.
Duas vidas. Dois pares de sapato. Um armário onde eu guardo quem eu sou e outro onde eu monto quem preciso ser.
* * *
Antes de dormir, pego o caderno. A Jéssica já está apagada no beliche de baixo, respiração regular, o celular caído no chão com a tela ainda acesa mostrando uma conversa de WhatsApp cheia de emojis.
Eu escrevo a última entrada do dia:
"O MANUAL — versão 1.0" "Linguagem: 70% pronta. Precisa de mais prática oral. Gravar áudio e ouvir." "Aparência: base adquirida. Falta: progressiva, maquiagem, hidratante de mãos." "Repertório: 30% pronto. Prioridade: vinhos, restaurantes, referências culturais." "Postura: treinar salto diariamente, 20 min." "Próxima etapa: IDENTIFICAR O ALVO."
Sublinho a última linha. Duas vezes.
O alvo. Eu ainda não escolhi oficialmente. Gabriel Monteiro é o nome mais forte no inventário, mas eu preciso de mais dados. Preciso vê-lo de perto, entender como funciona, mapear vulnerabilidades.
Todo mundo tem uma vulnerabilidade. A questão é encontrá-la antes que encontrem a sua.
Fecho o caderno. Apago a luz do celular. O escuro do quarto é total — o tipo de escuro que só existe em lugar onde a iluminação pública é espaçada e as cortinas são finas. O funk parou. O silêncio de Cidade Tiradentes de madrugada é feito de cachorros distantes, motocicletas esporádicas e o zumbido dos fios de alta tensão que cortam o céu do conjunto habitacional como cicatrizes.
Eu fecho os olhos e penso na minha mãe dizendo "virar outra pessoa".
Ela está errada. Eu não vou virar outra pessoa.
Eu vou construir uma. Do zero. Com manual, com inventário, com mapa. E quando a construção estiver perfeita — quando ninguém mais conseguir distinguir a réplica do original — eu vou usar essa pessoa para conseguir tudo que o mundo me negou.
E se no processo eu perder alguma coisa — algum pedaço de quem eu era, algum canto do meu riso verdadeiro, alguma parte que só sai quando estou de chinelo na cozinha ouvindo funk —, bem. Todo investimento tem custo.
O meu é quem eu sou.
E eu já decidi que o retorno vale a pena.