LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 3
A Amante Comprada
A vela mais próxima da cama crepitou e morreu.
Helena assistiu a chama encolher, lutar, e desaparecer com a resignação de algo que já esperava o fim. O cheiro de cera quente subiu — doce, sufocante, parecido com velório. As outras velas ainda queimavam, mas a escuridão ganhou um palmo de território no canto do quarto, e Helena se pegou catalogando sombras como quem cataloga ameaças.
Parede. Console da lareira. Poltrona de veludo onde ele sentara. Vazia agora. Ainda com a marca do corpo — o tecido amassado no assento, os braços ligeiramente deformados onde as mãos descansaram. Ele estivera ali. Olhando para ela como quem olha para um túmulo aberto. E depois saíra dizendo "Valenti" como se o nome fosse aviso e despedida ao mesmo tempo.
Helena sentou na beira da cama. Os saltos apertados latejavam, e ela os tirou com a gratidão simples de quem tira algema. Os pés estavam vermelhos, marcados, dois meios-luas de pele irritada nos calcanhares. Pés de quem caminha descalça — de quem cresceu correndo no quintal da casa em BH, pés que dona Célia esfregava com pedra-pomes nas noites de sábado enquanto Helena praticava escalas sentada na cadeira da cozinha.
Dona Célia.
O pensamento veio com gosto de bile. Amanhã. Amanhã ligaria e diria — o quê? "Mãe, participei de um leilão de mulheres num palácio em Veneza e um homem me comprou por duzentos mil euros, mas não se preocupa, ele só ficou me olhando"? A versão da verdade que dona Célia ouviria seria outra. Teria que ser outra. Porque Célia Matos, costureira de mão cheia e católica de rosário no pulso, não sobreviveria à versão real. O coração já era fraco. A verdade o pararia de vez.
Helena deitou-se de vestido mesmo. Os lençóis eram de algodão egípcio — o tipo que ela reconhecia por tato, não por rótulo, porque dona Célia costurava enxovais de luxo para clientes ricas e Helena crescera sabendo distinguir fio por fio. Quatrocentos fios. Macios como pele de recém-nascido. Frios. Tudo nesse lugar era frio.
O teto tinha um afresco parcialmente descascado — anjos sem rosto, nuvens que pareciam fumaça, uma cena que poderia ser ascensão ou queda, dependendo do ângulo. Helena encarou os anjos e os anjos não retribuíram.
Fechou os olhos.
Valenti. O nome ricocheteou na escuridão atrás das pálpebras. Marco Valenti — porque o dossiê mental já estava se montando. O leiloeiro chamara de "dottore" quando anunciou o lance. A mulher de preto fizera uma reverência que era quase prostração. E os outros homens no salão — homens que claramente tinham poder, dinheiro, influência — tinham ficado em silêncio quando ele ofereceu duzentos mil. Não silêncio de surpresa. Silêncio de reconhecimento.
Quem paga duzentos mil euros por uma noite?
Quem pode?
Helena virou de lado. O vestido cravou no quadril — a costura lateral, mal-ajustada, uma picada constante. Renata usava esse vestido como segunda pele. Em Helena, era molde errado. Como tudo naquela noite: o vestido, o palco, o preço. Tudo cortado para outra mulher.
A ideia chegou devagar, como maré que não se sente até que os pés já estejam cobertos.
Ele não a olhara com desejo.
Helena repassou mentalmente. Os minutos — quinze, talvez vinte — em que ele ficara na poltrona, silencioso, os olhos fixos. Não tinham descido para o decote. Não tinham demorado na curva do quadril, na perna exposta pela fenda lateral. Não tinham feito o percurso que Helena aprendera a reconhecer desde os quatorze anos, quando os homens começaram a medir seu corpo com a mesma objetividade com que mediam móveis: isso cabe aqui, isso serve para isso.
Os olhos dele tinham ficado no rosto. Só no rosto. Testa, olhos, nariz, boca, maxilar. Como quem estuda uma partitura. Não como quem deseja — como quem lembra.
Dor. Era isso. O que ela vira nos olhos dele era dor.
Helena abriu os olhos. O teto continuava ali, com seus anjos incompletos.
— Que merda — disse em português, para ninguém.
§
O sono não veio. Ou veio em fragmentos — cochilos breves entre um pensamento e outro, interrompidos pelo som de passos no corredor, pelo estalido das velas morrendo uma a uma, pelo barulho distante de água batendo contra pedra. Veneza dormindo. Ou fingindo que dormia.
Às quatro da manhã, Helena levantou.
O banheiro do quarto era absurdo — banheira com pés de garra, espelho com moldura dourada, toalhas tão brancas que pareciam hostilidade. Lavou o rosto. A maquiagem de Renata saiu em camadas — rímel, base, blush — revelando a pele de baixo. Olheiras. Pele ressecada nos cantos da boca. Dois pontos de acne no queixo que a base tinha escondido. O rosto de uma mulher de vinte e sete anos que dormia mal, comia pior, e vivia no fio entre a sobrevivência e o colapso.
No espelho, procurou o que ele procurara. Testa. Olhos. Nariz. Boca. Maxilar. Viu o que sempre vira: um rosto. Razoavelmente bonito. Nada extraordinário. A pele morena do pai — que ela nunca perdoara por ser morena e ausente ao mesmo tempo — e os olhos escuros da mãe. Mãos de instrumentista. Ombros estreitos. A clavícula saliente de quem esquece de jantar.
O que ele viu?
A pergunta grudou como resina de arco nos dedos. Pegajosa, persistente, impossível de limpar completamente.
Helena voltou ao quarto e fez a única coisa que sabia fazer quando o mundo não fazia sentido: tocou. Sem instrumento — os dedos no ar, percorrendo as cordas invisíveis do violoncelo que não estava ali. A mão esquerda apertando notas imaginárias, a direita movendo o arco fantasma. Suíte nº 1, Prelúdio. A abertura que era como respirar — sol, ré, si, ré, sol — as notas subindo pelo braço, pelo ombro, vibrando no esterno como se o corpo fosse a caixa de ressonância.
Tocou até as mãos doerem. Até os dedos tremerem. Até o afresco no teto parecer menos ameaçador e Veneza, pela janela entreaberta, clarear com a primeira luz que transformava os canais em mercúrio líquido.
§
Às sete da manhã, alguém bateu.
Helena, que tinha vestido o roupão do banheiro por cima do vestido amassado, abriu a porta esperando a mulher de preto. Encontrou uma bandeja.
A bandeja estava no chão. Prata, coberta com cloche. Ao lado, um envelope creme. Nenhuma pessoa à vista — o corredor estava vazio, as paredes de pedra indiferentes.
Helena trouxe a bandeja para dentro. Sob a cloche: croissant, frutas — figo fresco, uvas escuras, fatias de pêssego — um café em xícara de porcelana que ainda fumegava, e um copo de suco de laranja. A comida cheirava a manteiga e normalidade, e o estômago de Helena se contraiu com a fome de quem não comia direito havia dois dias.
Comeu o croissant em quatro mordidas. As frutas foram mais lentas — o figo estourou na boca com uma doçura que era quase indecente. O café era forte, amargo, italiano — nada parecido com o café de dona Célia, coado em filtro de pano, adoçado com colheres generosas de açúcar, cheiro de manhã e quintal. Esse café era uma declaração: sou melhor que você, e sei disso.
Helena bebeu mesmo assim. Duas xícaras.
O envelope. Abriu com os dedos sujos de figo. Dentro, um cartão de papel grosso — o tipo de papel que custava mais que uma refeição. Escrita à mão, caligrafia precisa, inclinada para a direita.
"Há um carro esperando no cais às nove. Leve você até o aeroporto. Voo para Milão, bilhete na recepção. Se preferir ir embora, o carro leva ao destino que quiser. Em qualquer caso, o pagamento da noite será transferido hoje.
V."
Helena releu. Três vezes.
Se preferir ir embora.
A frase era uma porta. A opção de sair, de pegar o dinheiro da noite — quanto seria? O suficiente para a cirurgia? Metade? — e desaparecer no mundo. Voltar para o apartamento no Navigli. Voltar para os bicos tocando em casamentos. Voltar para o desespero administrativo de números vermelhos e promessas de "mando mês que vem, mãe".
Ou.
Milão. O carro. O homem que pagara duzentos mil euros para olhar seu rosto e sair sem tocar.
Helena levou a xícara de café à janela. Veneza despertava lá embaixo como cenário de ópera — gôndolas, pontes, turistas já em formação, o som de sinos de igreja se espalhando pela superfície da água como pedras jogadas em lago. O ar cheirava a café e pão fresco e possibilidade e perigo, e Helena não sabia onde um terminava e o outro começava.
Pegou o celular. Renata atendeu no segundo toque.
— Você está viva?
— Estou.
— Inteira?
— Inteira.
— Ele fez alguma coisa?
Helena pensou na poltrona. No silêncio. Nos dedos desenhando o contorno do maxilar sem tocar.
— Não.
— Nada?
— Ficou olhando pra mim. Pediu que eu falasse.
Silêncio do outro lado. Depois Renata, com a voz de quem está processando algo que não cabe no processador:
— Helena. Quem paga duzentos mil euros pra ficar olhando?
— Alguém que perdeu alguma coisa — disse Helena, e a frase saiu antes do pensamento, como se o corpo soubesse antes da mente.
Renata respirou fundo. — Tem um carro? Pra onde?
— Milão.
— Não vai.
— Rê...
— Helena, escuta. Eu te botei nesse negócio e não me orgulho. Uma noite era uma noite. Milão é outra coisa. Milão é entrar na vida desse cara, e a gente não sabe quem esse cara é.
Helena olhou para o cartão. A letra inclinada. O "V." no final — seco, suficiente, como tudo nele.
— Ele vai depositar o pagamento da noite. Se for o proporcional ao que pagou no leilão, isso cobre metade da cirurgia.
— E a outra metade?
— Se eu for pra Milão, talvez cubra tudo.
— Talvez.
— É mais do que eu tenho agora.
Renata ficou quieta. O silêncio entre elas era diferente do silêncio com Valenti — era quente, pesado de cuidado, cheio das coisas que amigas dizem sem abrir a boca. Renata sabia. Sabia dos números, da mãe, do visto, da bolsa cortada, do diretor do Conservatório que assediou Helena e, quando ela recusou, cortou o financiamento com a crueldade burocrática de quem assina uma folha e destrói uma vida.
— Se você for — disse Renata finalmente — liga todo dia. Todo dia, Helena. Se um dia não ligar, eu chamo a polícia, a embaixada, o Papa e a mãe de Jesus.
Helena sorriu. O primeiro sorriso em — quanto tempo? Dias? Semanas?
— Todo dia.
— Promete.
— Prometo.
Desligou. Olhou para Veneza uma última vez. Os canais brilhavam sob o sol novo, e a cidade era bonita da maneira que certas armadilhas são bonitas: irresistíveis, ornamentadas, projetadas para fechar quando você está dentro demais para sair.
§
O carro estava no cais às nove em ponto. Preto. Discreto da maneira que coisas muito caras são discretas — sem ostentação, apenas a qualidade surda de uma engenharia que custa mais do que a maioria das pessoas ganha em um ano. O motorista abriu a porta sem falar. Helena entrou.
O interior cheirava a couro e aquele ambientador artificial que carros de luxo usam para eliminar qualquer vestígio de humanidade. Assentos escuros, macios como confissão. Uma garrafa de água no suporte. Um lenço de tecido no apoio de braço — linho, com iniciais bordadas. MV.
Marco Valenti.
O nome completo se encaixou como peça de quebra-cabeça que faltava sem que Helena soubesse que faltava. Marco. O nome tinha peso — a mesma economia dura do sobrenome, mas com algo mais. Algo que soava como sinal de trânsito: pare, pense, decida.
O carro se moveu. Veneza ficou para trás — primeiro as vielas, depois a ponte, depois o continente abrindo como mão que solta. A estrada para o aeroporto era reta e comum, e a normalidade do asfalto era quase reconfortante depois de vinte e quatro horas de palácios, leilões e olhares que doíam.
No aeroporto, um homem de terno a esperava com um bilhete de primeira classe. Milão-Linate. Voo de quarenta e cinco minutos. Helena nunca voara de primeira classe — nunca voara sem contar moedas para pagar a taxa de bagagem. O assento era largo como sofá, e a comissária trouxe champanhe que Helena recusou e café que aceitou.
O avião decolou. Helena olhou pela janela. A Itália lá embaixo era um mosaico de verde e terracota, bonita e indiferente, e Helena pensou em dona Célia na casa em BH — a sala pequena, a máquina de costura Singer que era mais velha que Helena, o cheiro de feijão no fogão, e o coração que estava falhando silenciosamente como motor velho.
Quarenta e dois mil euros. A cirurgia. O preço da sobrevivência de sua mãe.
E do outro lado, o homem com olhos de cinza que a olhara como quem olha para uma morta.
Helena fechou os olhos. Os dedos tamborilaram no apoio de braço — Bach, sempre Bach. Sol, ré, si, ré, sol.
O avião cortava o céu da Itália com a precisão de quem sabe exatamente para onde vai. Helena não tinha essa certeza. Tinha apenas a convicção surda, instalada no centro do peito como nota sustentada, de que algo estava muito errado.
Quando o avião pousou em Milão, o céu estava cinza. Uma chuva fina caía sobre a pista com a insistência de quem tem todo o tempo do mundo. O motorista — outro, diferente do de Veneza — esperava com um guarda-chuva preto.
O carro era igual ao anterior. Preto, discreto, cheiro de couro. As ruas de Milão passaram pela janela como projeção: prédios de pedra escura, vitrines iluminadas, pessoas andando rápido sob guarda-chuvas, a cidade inteira parecendo pressa e propósito.
Helena encostou a testa no vidro frio. O néon de uma farmácia refletiu no asfalto molhado — verde, pulsante, como sinal vital num monitor cardíaco.
Mãe, pensou. Eu vou conseguir. Nem que eu tenha que olhar nos olhos de um homem assombrado todos os dias por um mês.
O carro fez uma curva. E outra. E parou.
Helena olhou para cima.
O prédio era de pedra clara, austero, com janelas altas que refletiam o céu cinza. Não ostentava. Não precisava. Era o tipo de endereço que não existe nos aplicativos de mapa — existe apenas para quem sabe que existe.
O motorista abriu a porta.
— Cobertura, signora. Don Valenti a espera.
Helena saiu do carro. A chuva fina tocou seu rosto — fria, milanesa, sem a generosidade da chuva tropical que lavava BH nas tardes de verão. Essa chuva não lavava nada. Apenas molhava.
Entrou no prédio. O saguão era mármore e silêncio. Um elevador com porta de ferro e espelho antigo. O espelho mostrou o que Helena já sabia: uma mulher de vestido preto amassado, maquiagem borrada, cabelo preso num coque que estava se desfazendo, e olhos que tinham visto demais nas últimas vinte e quatro horas.
O elevador subiu. O estômago desceu.
As portas se abriram direto num hall privativo — mármore branco, uma mesa com um vaso de lírios frescos, e uma mulher.
Não era a mulher de preto do palazzo. Esta era diferente. Quarenta e poucos anos, cabelo curto, ombros largos, postura militar, rosto que não pedia nada e não oferecia nada. Vestia-se com a neutralidade estudada de quem quer ser eficiente, não notada. Mas os olhos — escuros, atentos, calibrados — eram de alguém que notava tudo.
— Helena Matos — disse a mulher. Não pergunta. Confirmação.
— Sim.
— Gianna. Chefe de segurança. — Estendeu a mão. Aperto firme, mão seca, dois segundos exatos. — Bem-vinda à residência Valenti. O carro é blindado. Caso esteja se perguntando.
Helena sentiu o frio no estômago se espalhar.
— Blindado — repetiu. — Por quê?
Gianna não respondeu. Abriu a porta dupla atrás de si e fez um gesto para que Helena entrasse.
Helena entrou.
E o frio se tornou outra coisa — não medo, não espanto, mas o reconhecimento físico de que havia cruzado uma fronteira, e que o caminho de volta, se ainda existisse, já não era o mesmo por onde viera.