LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Sangue e Lua
Capítulo 2 — O Desenho
Iris não dormiu.
Não da forma dramática que aparece nos filmes — revirando-se entre lençóis com o cabelo artisticamente espalhado e um semblante fotogênico de angústia. Iris não dormiu da forma real, feia, irritante: deitada de lado no sofá-cama do flat em Camden com o notebook aberto no colo, o café da terceira caneca esfriando na mesa de centro entre uma suculenta chamada Marília e um prato com restos de risoto de Oliver, os olhos ardendo de tela e a mente girando em círculos como um cão perseguindo a própria cauda.
Marcadora.
A palavra fazia menos sentido quanto mais Iris pesquisava. Google: "marcadora significado sobrenatural" — resultado: marcadores de texto, marcadores genéticos, marcadora esportiva. Google: "selo antigo tatuagem símbolo espiral" — resultado: Pinterest de tatuagens celtas que não tinham nada a ver. Google: "linhagem de marcadores poder tinta pele" — resultado: absolutamente nada. Mudou para inglês: "marker supernatural lineage skin seal" — resultado: um fórum de RPG, dois romances de fantasia na Amazon e uma teoria conspiratória sobre alienígenas e petroglifos.
Iris fechou o laptop com mais força do que necessário.
— Tá bom — murmurou para o teto. — Eu sou uma tatuadora que tatuou um cara estranho num horário estranho com um desenho estranho e ele me chamou de um nome estranho. Isso é tudo.
O teto não a contradisse, mas também não concordou, e Iris sentiu que até a arquitetura estava sendo evasiva.
Levantou-se. O flat era pequeno — sala-quarto-cozinha num espaço que os ingleses chamavam de "studio apartment" e que qualquer brasileiro chamaria de "conjugado apertado" — mas Iris o transformara em algo que era inequivocamente dela. Plantas em cada superfície horizontal disponível. Desenhos fixados na parede com fita washi. A máquina de tatuagem da avó Celeste — velha, manual, completamente obsoleta — num altar improvisado sobre a cômoda, ao lado de um pote de cerâmica com incenso e uma foto desbotada: Iris aos sete anos, no colo da avó, na varanda da casa em Belém, ambas sorrindo com o mesmo sorriso torto.
Iris parou diante da foto. Os dedos coçavam.
Sempre coçavam quando a avó invadia seus pensamentos — o que acontecia com frequência inconveniente, geralmente nas madrugadas, geralmente quando o café já estava amargo e o silêncio do flat ficava alto demais. Celeste Navarro morrera quando Iris tinha dezessete. Câncer. Rápido e sem piedade, como quase tudo na vida da avó — que também tinha sido rápida e sem piedade, à sua maneira. Benzedeira em Belém do Pará, conhecida no bairro como "dona Celeste que faz proteção", e que passava as tardes na varanda desenhando na pele das pessoas com tinta de jenipapo enquanto cantarolava coisas que Iris nunca entendeu.
"Isso é o quê, vó?"
"Proteção, meu bem."
"Proteção contra quê?"
"Contra o que não se vê."
Na época, Iris revirara os olhos com a maestria de uma pré-adolescente entediada. Agora, às quatro da manhã num flat em Camden, com os dedos formigando e a imagem daquele selo queimando na retina, Iris queria poder revirar os olhos de novo. Mas não conseguia. Porque a mesma gramática visual — as espirais, a lógica orgânica, o jeito como as linhas respiravam — estava nos desenhos da avó. Estava no selo que tatuara no homem de olhos cinza. E estava nos seus próprios projetos, Iris percebia agora, em cada blackwork botânico que já criara, como uma assinatura escondida no DNA do traço.
Pegou o bloco de desenho. Sentou no chão da cozinha — o único lugar com espaço suficiente para espalhar folhas — e começou a desenhar.
O selo, primeiro. De memória. A mão se movia com a mesma certeza perturbadora de horas atrás, como se copiasse algo que existia dentro dela e não no papel. Cada linha era precisa, sem hesitação, sem borracha. Quando terminou, olhou para o resultado e sentiu o estômago apertar: era perfeito. Exatamente igual ao papel que o homem trouxera. Iris nunca copilava de memória com essa fidelidade — ninguém copiava.
Desenhou de novo. Variações, dessa vez. A espiral central girada noventa graus. Os símbolos exteriores reordenados. Cada versão saía completa, coerente, como se existisse um alfabeto inteiro na cabeça de Iris que ela nunca acessara conscientemente — e agora a porta estava entreaberta e as letras escapavam.
Preencheu seis folhas em uma hora. No final, tinha as mãos sujas de grafite, o joelho dormente e a sensação de que acabara de ler um livro num idioma que não sabia que falava.
§
O sol nasceu cinza — porque era fevereiro, porque era Londres, porque o sol em Camden tem a energia de alguém que não queria ter saído da cama. Iris tomou banho, vestiu jeans pretos, a camiseta de uma banda que não existia mais, e a jaqueta de couro que cheirava a tinta e incenso e que era, provavelmente, a relação mais estável da sua vida.
Chegou ao estúdio às nove. Nando já estava lá.
Fernando Silva dos Santos — "Nando, pelo amor de Deus, Nando" — era o tipo de pessoa que preenchia qualquer ambiente com a própria existência, não por ser grande (era magro e anguloso, todo cotovelo e atitude), mas por ser inevitável. Hoje o topete era verde-limão. Os piercings — sobrancelha, septo, lábio, três em cada orelha — brilhavam sob a luz fluorescente do estúdio. Estava debruçado sobre a bancada de desenho, caneta entre os dentes, celular tocando funk a um volume que qualquer vizinho britânico classificaria como "perturbação da ordem pública".
— Bom dia, irmã do meu coração — disse sem levantar os olhos. — Você parece uma merda.
— Obrigada. — Iris largou a bolsa e foi direto à cafeteira. O café do Black Tide Ink era forte o suficiente para acordar os mortos — ou pelo menos para manter uma tatuadora insone funcional. — Noite longa.
— O risoto do Oliver te fez mal? Porque eu avisei que ele colocou noz-moscada demais. Homem não sabe dosar noz-moscada. É uma limitação do gênero.
— Não foi o risoto.
Nando finalmente levantou os olhos. Tinha o radar emocional de um morcego — captava frequências que ninguém mais ouvia.
— O que foi?
Iris tomou um gole de café. Amargo, denso, com o gosto de quem tem segredos. Poderia contar. Poderia sentar ao lado de Nando e dizer: "um homem entrou no estúdio depois do horário, me pediu pra tatuar um selo que eu nunca vi mas sabia fazer de cor, me chamou de Marcadora e me deixou com a sensação de que o chão das coisas que eu conheço rachou". Poderia.
Mas Iris Navarro não contava coisas. Não desde os seis anos, quando a mãe saiu de casa prometendo voltar e transformou a promessa em mentira permanente. Não desde os quatorze, quando o pai morreu num acidente de moto e a vizinha teve que explicar o conceito de "sozinha no mundo" para uma adolescente que já intuía. Não desde os dezessete, quando a avó fechou os olhos pela última vez e Iris aprendeu que até as pessoas que ficam acabam indo embora.
Iris fincava raízes em objetos — o estúdio, a máquina da avó, a jaqueta de couro, os vasos de planta. Nunca em pessoas. Objetos não prometem. Objetos não mentem. Objetos não saem pela porta e esquecem de voltar.
— Nada — disse. — Insônia normal. Me conta do Oliver.
Nando a olhou por mais dois segundos do que o confortável e depois, porque era Nando e sabia quando recuar, mudou de assunto com a elegância de um touro em loja de cristais.
— Oliver quer adotar um gato. Um gato, Iris. Eu, que já divido o apartamento com o ego dele e uma coleção de vinil que ocupa metade da sala, agora vou ter que conviver com um felino julgamental. — Fez uma pausa dramática. — Eu disse sim, óbvio. Já escolhi o nome: Beyoncé.
— Já existe uma Beyoncé. — Iris apontou para a costela-de-adão na prateleira. — Vai confundir.
— Beyoncé é grande o suficiente pra dois. A planta e o gato vão se resolver entre si.
Iris quase riu. O "quase" era progresso — horas atrás, riso era um conceito abstrato.
O dia seguiu. Clientes vieram: um universitário querendo uma âncora minimalista ("É porque a minha avó era de Santos" — Iris mordeu a língua para não perguntar o que Santos tinha a ver com âncoras), uma mulher de quarenta e poucos que queria cobrir o nome de um ex com uma fênix ("Sei que é clichê" — "Um pouco" — "Não me importo" — "Justo"), e um rapaz tímido que queria um semicolon no pulso e a quem Iris deu quinze por cento de desconto sem dizer por quê.
Mas entre um cliente e outro, voltava. A coceira nos dedos. A espiral do selo girando atrás das pálpebras. A voz grave dizendo "Marcadora" com a naturalidade de quem constata um fato — como dizer "tatuadora" ou "brasileira" ou "viva".
No intervalo do almoço — um wrap de falafel comprado na barraca do mercado, comido em pé na porta dos fundos enquanto a garoa transformava tudo em impressionismo —, Iris pegou um guardanapo e começou a desenhar. Sem pensar. Os mesmos traços, as mesmas curvas, mas menores, comprimidos no espaço do papel barato. A caneta era uma Bic ordinária e mesmo assim as linhas tinham aquela qualidade de certeza, de algo que existe antes de ser desenhado.
Quando terminou, guardou o guardanapo no bolso da jaqueta e voltou ao trabalho.
O último cliente saiu às seis. Nando arrumou a bancada, cantarolando algo que misturava pagode com Dua Lipa — uma combinação que não deveria funcionar e que, nas mãos de Nando, funcionava perfeitamente.
— Pub? — perguntou, jogando a mochila no ombro.
— Vai na frente. Eu fecho.
— A Iris antissocial de sempre. Ok. Oliver reservou mesa no Hawley Arms. Se mudar de ideia, aparece. — Parou na porta. — Ei.
Iris olhou.
— Quando quiser contar, eu tô aqui. Tá?
Saiu antes que ela respondesse. Que era, provavelmente, o único jeito de lidar com Iris Navarro: deixar a porta aberta e não empurrar.
§
Sozinha de novo, Iris fez o que não conseguira fazer o dia inteiro: sentou na poltrona de desenho e abriu o diário da avó.
Não o diário que chegara pelo correio — esse ainda não existia. Abriu o diário velho, o de capa de couro marrom que a avó mantinha na gaveta da cômoda e que Iris herdara junto com a máquina de tatuar. Sempre achou que eram receitas de chás, benzimentos, orações. Nunca leu com atenção — era da avó, portanto era sagrado, e coisas sagradas Iris protegia mas não examinava. Protegia como protegia o estúdio e a jaqueta e as plantas: com distância devocional.
Abriu na primeira página. A caligrafia de Celeste era miúda, inclinada para a direita, com o jeitão de quem aprendeu a escrever na escola pública de Belém nos anos cinquenta.
"O dom passa pelo sangue. Das mãos da minha mãe para as minhas, das minhas para quem vier depois. Se vier alguém. Se o sangue quiser."
Iris piscou. Leu de novo.
"Os que marcam não escolhem marcar. A tinta escolhe. O jenipapo, a agulha, o que for — é veículo, não ferramenta. O verdadeiro instrumento é a vontade de quem toca a pele. E a vontade não mente."
Uma gota de café caiu na página. Iris xingou baixo, secou com a manga — mancha irreversível. Continuou lendo.
"Mamãe dizia que os primeiros Marcadores vieram da floresta. Antes dos brancos, antes dos navios, antes de tudo. Desenhavam na pele com urucum e jenipapo e as marcas protegiam, curavam, selavam. Quando os outros chegaram — os frios e os quentes, ela chamava assim — os Marcadores ficaram no meio. Porque a marca não toma lado. A marca é verdade, e verdade não tem dono."
Frios e quentes.
Iris fechou o diário. As mãos tremiam — de cafeína ou de outra coisa, não importava distinguir.
Frios. Como a pele do homem no estúdio.
Levantou-se. Andou pelo estúdio como um animal enjaulado — três passos até a prateleira de plantas, volta, três passos até a vitrine, volta. Beyoncé a observava com a indiferença vegetal de sempre. Zé, o cacto, parecia ligeiramente mais ereto, mas Iris atribuiu isso à imaginação e à privação de sono.
— Isso é... — começou, e não terminou a frase porque não existia frase que cobrisse o que estava sentindo.
Parou diante da bancada de desenho. O guardanapo do almoço estava ali, esquecido entre canetas e potes de tinta. O selo em miniatura, desenhado com Bic, as linhas precisas como trilhos de trem.
Iris olhou para o guardanapo.
O guardanapo brilhou.
Um flash — rápido, âmbar, como se alguém tivesse ligado e desligado uma lanterna dourada por trás do papel. As linhas do selo pulsaram por um instante que durou menos que uma piscada e mais que o suficiente.
Iris piscou.
O guardanapo estava normal. Bic azul sobre papel branco. Nenhuma luz, nenhum brilho, nenhum âmbar. Só um desenho num guardanapo de lanchonete.
Mas os dedos de Iris formigavam tanto que doía.
— Eu vi — sussurrou para ninguém.
Pegou o guardanapo. Dobrou com cuidado. Colocou no bolso da jaqueta, junto ao celular e ao chaveiro do estúdio — os amuletos portáteis de uma vida que, até ontem, fazia todo o sentido do mundo.
Trancou o Black Tide Ink. Saiu para Camden. A noite era fria, úmida, barulhenta — música vazando dos pubs, o alarme de uma loja, um grupo de turistas rindo alto demais. Normal. Completamente normal.
Iris enfiou as mãos nos bolsos e caminhou para casa.
No bolso esquerdo, o guardanapo parecia mais quente do que deveria.