LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
O Refúgio
Capítulo 2 — O Intruso
A estrada de terra tinha engolido os amortecedores da caminhonete nos últimos quarenta quilômetros. Mateo Ibáñez dirigia com as mãos firmes no volante, os dedos brancos de pressão, o joelho esquerdo latejando a cada solavanco como um metrônomo de dor. A paisagem patagônica se abria diante dele em camadas de cinza e verde-musgo — o céu pesado, os campos rasos, e lá no fundo, erguendo-se como uma lâmina de pedra fincada no ventre do mundo, o Cerro Torre.
Ele não olhou para a montanha. Ainda não.
O chalé apareceu na curva seguinte, aninhado entre um bosque de lengas cujas folhas já tinham virado cobre. Telhado de madeira escura, uma chaminé de pedra, a varanda estreita com vista para o vale. Mateo estacionou ao lado de um tronco caído e desligou o motor. O silêncio desceu como uma avalanche — a palavra surgiu sozinha e ele a afastou com a mandíbula travada.
Pegou a mochila no banco de trás. Quarenta litros, o mesmo modelo que usava nas expedições, agora preenchido com roupas térmicas, latas de conserva e uma garrafa de Malbec que Diego tinha enfiado na mala antes da partida.
— Para cuando la montaña te mire feo — disse o irmão, com aquele sorriso que tentava disfarçar a preocupação.
Mateo não respondeu na época. Não respondia a muita coisa, nos últimos dois anos.
Subiu os três degraus da varanda e parou. A porta estava encostada, não trancada. Uma fresta de dois dedos entre a madeira e o batente, por onde escapava um fio de ar morno com cheiro de café requentado.
O corpo reagiu antes da mente. Os ombros se enrijeceram, as mãos largaram a mochila, os olhos varreram o entorno — avaliação de terreno, cálculo de risco, protocolo automático de quem viveu anos dependendo de perceber o perigo antes que ele percebesse você. Mas ali não havia corda bamba nem cornija de gelo. Havia apenas uma porta aberta que deveria estar fechada.
Empurrou a madeira com as costas dos dedos.
A sala do chalé era exatamente como nas fotos que Dora tinha mandado por e-mail: lareira de pedra, tapete de lã cru no chão, uma estante com lombadas gastas, duas poltronas, um sofá amplo coberto por uma manta xadrez. E no sofá, debaixo da manta, uma mulher dormia.
Mateo ficou parado por três segundos inteiros. Contou mentalmente, como fazia nas paredes de rocha quando precisava decidir entre subir e descer. Um. Dois. Três.
Uma mala vermelha com rodinhas estava largada no meio do caminho entre a porta e a cozinha, com o zíper entreaberto vomitando uma echarpe de lã e um livro de capa amassada. Ao lado do sofá, no chão, um par de tênis sujos de lama e um casaco puffy que parecia ter perdido uma briga com um arbusto de calafate.
A mulher se mexeu. Os cachos castanhos estavam espalhados pelo travesseiro como um ninho desordenado, e ela abraçava uma almofada contra o peito com a determinação de quem segura um colete salva-vidas. Respirava pela boca, de leve, um som quase infantil.
— Eh — disse Mateo, a voz rouca de quem tinha passado cinco horas em silêncio.
Nada.
— Eh. Despertate.
A mulher franziu o nariz e afundou mais o rosto na almofada.
Mateo largou a mochila no chão com um baque seco e proposital. O ruído cortou o ar como um trovão de verão e a mulher se sentou de um salto, os olhos arregalados, os cachos caindo sobre o rosto como uma cortina desalinhada.
— Quem é você? — ela perguntou, a voz embargada de sono e susto, recuando contra o encosto do sofá.
— Eso debería preguntar yo — respondeu Mateo, cruzando os braços. — Este es mi chalé. Tengo una reserva.
— Seu chalé? — Ela piscou, empurrando os cachos para trás com as duas mãos. — De jeito nenhum. Eu reservei esse chalé. Com a Dora. Cheguei ontem.
— Yo también reservé con Dora. Para hoy. — Ele tirou o celular do bolso e mostrou a tela, embora soubesse que ela não conseguiria ler dali. — Confirmado hace tres semanas.
A mulher se levantou do sofá com a dignidade possível para alguém de meias listradas e cabelo de quem sobreviveu a um furacão. Era mais baixa do que ele imaginava — a cabeça dela chegava pouco abaixo do seu queixo. Cheirava a sabonete barato e café.
— Pois eu também tenho confirmação. Por e-mail. — Ela cruzou os braços, espelhando a postura dele, e ergueu o queixo. — Luísa. Luísa Campos.
Ele não ofereceu a mão. Não ofereceu o nome.
— Mirá, no sé qué pasó con la reserva, pero yo no voy a irme. Viajé cinco horas por un camino de mierda para llegar acá.
— E eu viajei de avião, de ônibus e de uma caminhonete com um senhor que só falava de ovelhas, então a gente está quites.
O espanhol dele era rápido, cortante, carregado do sotaque portenho que engolia os esses e transformava as palavras em rajadas. O português dela era arredondado e cheio de vogais abertas, uma melodia que ele entendia pela metade e que o irritava justamente porque entendia.
— Vamos ligar pra Dora — disse Luísa, pegando o próprio celular da mesinha de canto. Olhou para a tela. Olhou de novo. — Sem sinal.
— Ya lo sé. No hay señal en todo este valle. — Mateo apontou para a janela com um gesto seco do queixo. — Por eso vine.
— Você veio para cá justamente porque não tem sinal?
— Sí.
Ela o encarou como se ele tivesse dito que gostava de comer pedras.
***
Mateo foi até a janela da cozinha e olhou para o céu. O que viu não o surpreendeu, mas tampouco o alegrou. As nuvens que na última hora eram apenas uma sujeira cinzenta no horizonte tinham se adensado em uma muralha compacta que avançava do sudoeste, engolindo os picos menores como uma boca lenta. O vento já mudara de direção — agora vinha em rajadas curtas que faziam as lengas se inclinarem todas para o mesmo lado, como se prestassem reverência a algo terrível.
Neve. Muita. Talvez em duas horas, talvez em menos.
Ele conhecia aquele tipo de céu. Tinha visto céus assim dezenas de vezes — nos Andes, na Patagônia, nas paredes do Fitz Roy e do Torre. Céus que pareciam avisá-lo de algo que já estava decidido.
— Não vai dar pra descer — disse, mais para si mesmo do que para ela.
— Como assim não vai dar pra descer? — Luísa apareceu atrás dele, espiando por cima do ombro. — Meu Deus, essas nuvens...
— Es una tormenta. Va a cerrar el camino. Probablemente hasta mañana. Tal vez más.
— Você tá me dizendo que a gente vai ficar presa aqui? Juntos?
Mateo se virou. Ela estava perto demais — ele podia ver as sardas miúdas na ponte do nariz, o jeito como os olhos castanhos se arregalavam de incredulidade. Deu um passo para trás.
— No es mi plan ideal tampoco.
— Deve ter algum jeito. A estrada...
— La estrada tiene dos kilómetros de descenso en curvas de tierra. Con nieve, es un tobogán. Ni con la camioneta se baja. — Ele fez uma pausa, avaliando o estoque de lenha ao lado da lareira. Seis, talvez sete feixes. Suficiente para dois dias se fossem econômicos. — Hay leña, hay agua del arroyo. ¿Trajiste comida?
Luísa hesitou.
— Tenho... biscoitos. E umas barrinhas de cereal. E café.
— ¿Eso es todo?
— Eu não planejei um apocalipse de neve, tá?
Mateo respirou fundo pelo nariz. A irritação era um animal quente que se enroscava no peito. Ele sabia lidar com tempestades, com frio, com fome, com altitudes que transformavam o ar em vidro moído. Sabia lidar com tudo isso sozinho. Sozinho era a palavra-chave. A presença daquela mulher — com seus cachos desordenados, seus biscoitos, sua mala vermelha no meio do caminho — era uma variável que ele não tinha calculado.
Abriu a mochila e tirou as latas de conserva: atum, feijão, milho, lentilha. A garrafa de Malbec apareceu por último.
— Isso é bastante comida — disse Luísa, a voz amolecendo de alívio.
— Es para una persona. Ahora somos dos.
O silêncio entre eles durou quatro batidas de coração. Mateo organizou as latas na bancada da cozinha com a precisão de quem arruma equipamento em um acampamento-base. Cada grama importa quando a montanha decide quem sobrevive.
***
Ele não queria olhar para o Cerro Torre. Tinha vindo até ali para encará-lo, sim, mas nos seus termos, na sua hora, com o silêncio como única testemunha. Não com uma desconhecida brasileira tropeçando na mala vermelha atrás dele.
Mas a montanha não pedia permissão.
Estava ali, emoldurada pela janela da sala como uma fotografia que alguém tivesse pendurado de propósito para atormentá-lo. A agulha de granito perfurava a base das nuvens, e o gelo que cobria suas paredes brilhava com um tom azulado que Mateo conhecia como a cor de seus próprios pesadelos.
A última vez que vira aquele pico foi de baixo para cima, a sessenta metros do cume, com a neve ruindo sob seus pés e o grito de Lucas perfurando o vento.
A corda. A corda entre eles vibrando como a corda de um violoncelo afinado no tom errado. O solavanco. O peso de Lucas desaparecendo de repente, como se a montanha tivesse simplesmente o engolido. E depois o silêncio — aquele silêncio específico que só existe depois que alguém cai, um silêncio que tem textura, que tem gosto, que gruda na pele e não sai com nenhuma água do mundo.
Mateo fechou os olhos. O joelho latejou em resposta, uma dor que era memória física, o corpo lembrando o que a mente tentava arquivar.
— Você tá bem?
A voz de Luísa chegou de algum lugar atrás dele, cautelosa, como quem se aproxima de um animal ferido.
— Estoy bien — disse, sem se virar. Abriu os olhos. O Cerro Torre continuava ali, indiferente, eterno, coberto de gelo como uma catedral construída por um deus que não gostava de gente.
— Olha — disse Luísa, e pelo tom ele soube que ela estava tentando ser razoável, o que de alguma forma era pior do que se estivesse gritando. — A gente não precisa gostar dessa situação. Eu fico com o quarto, você fica com o sofá. Ou o contrário. A gente divide a comida, espera a neve passar e resolve com a Dora depois. Tá?
Mateo finalmente se virou. Luísa estava encostada no batente da porta da cozinha, os braços cruzados sobre o peito, os cachos formando uma auréola rebelde em volta do rosto. Tinha a expressão de quem negociava um tratado de paz sem saber se o outro lado tinha armas.
— El sofá está bien — disse. Não era generosidade. Era hábito. Tinha dormido em lugares piores — em plataformas penduradas no vazio, em fendas de gelo, em bivouacs onde a única coisa entre ele e a morte era uma camada fina de nylon. Um sofá era luxo.
Luísa assentiu, aliviada demais para disfarçar. Saiu do batente e foi até a mala vermelha, que continuava aberta no meio do caminho como uma ferida.
Mateo voltou a olhar pela janela. Os primeiros flocos de neve começaram a cair — lentos, gordos, quase gentis, como se a tempestade estivesse apenas experimentando. Mas ele conhecia aquele truque. A montanha sempre começava gentil. Sempre.
E lá embaixo, onde a neve tocava o chão e desaparecia, ele quase podia ouvir a voz de Lucas — aquele riso largo de quem achava que nenhuma montanha era alta demais, nenhuma parede era vertical demais, nenhum risco era real demais.
— Mateo — chamou Luísa da sala, e por um instante absurdo, o som do próprio nome na boca dela — com aquele "a" aberto e brasileiro, aquele jeito de amassar o "t" — pareceu uma corda jogada na direção dele.
Ele não a segurou.
— ¿Qué?
— Tem só um cobertor extra. No armário do corredor.
— Quedate con él. Tengo mi bolsa de dormir.
Ouviu os passos dela se afastarem pelo corredor, desajeitados, tropeçando em algo que produziu um barulho seco seguido de um palavrão abafado.
Mateo encostou a testa no vidro gelado da janela. A neve agora caía com intenção, densa, vertical, apagando o mundo em camadas de branco. Em uma hora, a estrada seria intransitável. Em duas, o chalé seria uma ilha.
Olhou para o Cerro Torre uma última vez antes que a tempestade o escondesse. A montanha que quase o matou. A montanha que matou Lucas. A montanha que ele tinha vindo enfrentar — não escalando, não dessa vez, talvez nunca mais — mas ficando ali, diante dela, forçando os olhos a verem o que o corpo se recusava a esquecer.
A neve cobriu o pico e só restou o branco.
Mateo se afastou da janela, mancando de leve, e começou a acender a lareira.