LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Ilha de Mentiras
O porto de Pireu cheirava a diesel, sal e dinheiro velho.
Lara sabia distinguir os três a essa altura. Diesel era a nota de fundo, permanente, que grudava na roupa como confissão. Sal era o mar do Egeu batendo nas pedras do cais com uma insistência educada, como convidado que não vai embora. E dinheiro velho era aquele cheiro específico de madeira polida, linho novo e champanhe que emanava dos iates alinhados como joias no molhe privado — o tipo de lugar onde cada embarcação custava mais que o apartamento inteiro de Lara, incluindo a samambaia.
Ela ajeitou a alça da mochila no ombro. A câmera principal pendurada no pescoço pesava três quilos, e o peso era familiar como uma mão amiga. A mala de mão rolava atrás, puxada pela mão direita. A esquerda segurava o café grego que comprara no aeroporto de Eleftherios Venizelos e que já estava morno — *sketo*, sem açúcar, forte o bastante para acordar os mortos e os ex-membros da família Antonidis.
O iate *Eleni* estava no final do molhe.
Lara o viu de longe e parou.
Não era um iate. Era uma declaração de poder em formato náutico. Quarenta metros de proa a popa, casco branco com faixa azul-marinho, três andares de deck reluzindo sob o sol de Atenas. O nome estava pintado em letras douradas na popa: *Eleni*. O nome da mãe. Da mãe de Theo, Nikos e Dimi, que morrera dezoito anos atrás e cujo fantasma perfumado impregnava cada decisão daquela família como incenso de igreja.
Lara conhecia o iate. Tinha passado três fins de semana nele durante o casamento — dois com Nikos, um sozinha, quando ele "precisou ficar em Atenas por trabalho" e ela navegou com Stavros e o capitão Manos até Hydra, comendo pistache e fotografando o pôr do sol sem precisar fingir que estava feliz.
Deu um gole no café. Respirou fundo. O ar era quente, salgado, com aquele toque de thyme seco que a Grécia exalava no verão como se a terra inteira fosse um tempero. O sol batia na nuca, sem piedade. Floripa tinha sol forte, mas o sol grego era diferente — mais branco, mais vertical, como um refletor de interrogatório.
Colocou o protetor solar. O cheiro de coco e química era a blindagem mais honesta que carregava.
E caminhou até o iate.
A cada passo no cais, o som mudava. Os sapatos de Lara batiam na pedra com um ritmo que ela conhecia — o ritmo de quem se aproxima de coisa perigosa. Na Patagônia, caminhou assim até a borda de um glaciar que podia ceder. No Saara, assim até uma duna que escondia escorpiões. Agora, num porto de Pireu, com lanchas de luxo e gaivotas gordas e turistas tirando selfie ao fundo, caminhava assim até uma família que escondia algo pior que escorpiões: versões.
No colo da mochila, o celular mostrava a última foto que tirara no aeroporto de Guarulhos — a samambaia da sala, exuberante, verde-escura, deixada aos cuidados da vizinha com instruções precisas: "Água a cada três dias, sol indireto, nenhuma conversa motivacional — ela não gosta." A samambaia era a coisa mais estável na vida de Lara. Não julgava, não mentia, não ligava às três da manhã com histórias reescritas.
Lara guardou o celular.
O capitão Manos estava no píer, de camisa branca e bermuda cáqui, envelhecido com dignidade desde a última vez. Cabelo mais grisalho, mesmas rugas de quem enxerga longe, mesmo sorriso que não prometia nada além do que entregava.
— Lara. — Ele apertou a mão dela com firmeza. Cheirava a charuto e protetor labial. — O senhor Stavros está esperando.
— A família?
— Já a bordo. — Uma pausa que dizia tudo. — Todos.
Lara assentiu. Subiu a prancha de embarque com a postura que aprendera em expedições: coluna reta, passo firme, olhar adiante. Quando se entra em território de urso, não se corre. Quando se entra num iate cheio de gregos que te odeiam, não se pede desculpas por existir.
O convés principal era como ela lembrava: teca polida, almofadas de linho branco, uma mesa de centro com um balde de champanhe e taças que brilhavam como promessas caras. O motor ronronava em repouso — aquele som grave, quase inaudível, de máquina que custa mais por ser silenciosa.
E lá estavam.
Stavros a viu primeiro. Estava sentado na poltrona do convés com uma camisa de linho azul-claro e calça branca, bronzeado e menor do que Lara lembrava. Não menor em estatura — menor em presença. Como se algo dentro dele tivesse encolhido nos três anos. Mas quando sorriu, o sorriso era o mesmo: largo, generoso, sem economia.
— *Koukla!* — Levantou-se com um esforço que tentou disfarçar e que Lara percebeu porque era treinada para perceber detalhes. A mão dele na mesa para apoio. O segundo de hesitação antes de ficar em pé. — Veio. Veio mesmo.
Lara largou a mala, tirou a câmera do pescoço e abraçou o velho. Ele cheirava a colônia vetiver, sabonete de oliva e velhice — não a velhice ruim, mas aquela que vem com tempo acumulado, com histórias compactadas nos ossos. Sentiu os braços dele nas costas dela, magros mas firmes, e uma coisa dentro dela amoleceu que não deveria ter amolecido.
— Promessa é promessa — disse Lara, se afastando.
— E você é a única pessoa que conheço que cumpre.
Atrás de Stavros, o convés se organizava como um teatro. E o elenco estava completo.
*Yiayia* Eleni sentada numa cadeira à sombra, de preto da cabeça aos pés como se o luto pelos mortos se estendesse aos vivos, os olhos escuros e brilhantes como contas de rosário. Oitenta e cinco anos de mulher que tinha visto guerras, partos e falências e saído inteira de tudo. Quando viu Lara, o rosto não se moveu. Mas os olhos — os olhos disseram algo. Algo que Lara não conseguiu traduzir.
Dimi estava de pé perto da amurada, com um vestido amarelo que parecia sol derramado, os cabelos escuros soltos, a boca pintada de coral. Vinte e sete anos, designer de joias, e a única Antonidis que não parecia esculpida em mármore — tinha algo mole nela, algo quente, que o nome pesado não tinha conseguido endurecer. Quando viu Lara, os lábios abriram e fecharam sem som, como quem ensaia uma fala que não tem coragem de dar.
E Nikos.
Nikos estava encostado na porta do salão interno, uma taça de champanhe na mão, camisa branca aberta dois botões, o sorriso afiado como faca de peixe. O sol batia nele como se tivesse sido dirigido — Nikos era o tipo de homem para quem a luz sempre encontrava o ângulo certo. Olhos de mel, mandíbula geométrica, um corpo que ele tratava como vitrine. Trinta anos e nenhuma consequência escrita na pele.
No braço dele, uma mulher.
Helena Konstantinou era alta, loira de um loiro natural que beirava o dourado, com um vestido de linho cinza que custava mais do que o aluguel de Lara em Floripa. Tinha olhos azuis inteligentes, postura de quem sabe ocupar espaço, e o tipo de beleza que não pedia confirmação. Advogada, Lara lembrou. Trinta e um anos. A nova versão. O modelo atualizado.
Lara sentiu o golpe no peito — não de ciúme, fazia tempo que ciúme não morava ali, mas de reconhecimento. Porque Helena sorria para Nikos do mesmo jeito que Lara tinha sorrido no começo: com admiração e uma ponta de incredulidade por estar ao lado de alguém tão brilhante. O sorriso da fase um. A fase em que o encanto funciona e a realidade ainda não entrou.
— Lara. — Nikos deu dois passos à frente, e a voz dele era mel e vinagre em proporções iguais. — Que surpresa boa.
Não era surpresa e não era boa, e os dois sabiam. Mas Nikos era mestre no artifício social — o tipo de homem que abraçava quem desprezava com a mesma naturalidade com que pedia vinho num restaurante.
— Nikos. — Lara manteve a voz neutra. Nem quente nem fria. Temperatura ambiente. — Parabéns pelo aniversário do pai.
— Helena, essa é Lara. — Nikos se virou com a naturalidade ensaiada. — Minha ex-esposa.
A palavra "ex-esposa" saiu da boca dele com a mesma facilidade com que se diz "garçom" ou "com licença". Helena estendeu a mão. Aperto firme, sorriso educado, olhos que mediam e catalogavam.
— Prazer, Lara. Nikos falou de você.
Lara imaginou o que Nikos tinha "falado". A versão dele. A versão que virara liturgia na família: a brasileira que traiu, usou, descartou. Segurou a mão de Helena e pensou: *você não sabe ainda. Mas vai saber.*
— Igualmente.
O aperto durou dois segundos. A mão de Helena era fria — ar condicionado do salão, provavelmente —, e os dedos eram longos, com unhas curtas e bem cuidadas, unhas de quem trabalhava com papéis e teclados. Lara soltou. E notou, no pulso de Helena, um relógio caro, discreto, que parecia presente. Nikos dava relógios. Tinha dado um para Lara no primeiro aniversário — um Cartier de ouro que ela devolveu no divórcio junto com o anel e o sobrenome e a ilusão de que encanto era sinônimo de caráter.
A *yiayia* Eleni levantou a mão, um gesto imperioso de rainha, e disse algo em grego para Dimi. A voz dela era cascalho e mel, arranhada por oito décadas de orações e ordens domésticas. Dimi assentiu e se aproximou.
— Lara. — A voz de Dimi era cautelosa. Cada sílaba pesada na balança. — Boa viagem?
— Vinte e três horas. Sobrevivi.
A tentativa de leveza caiu no vazio. Dimi quase sorriu — o canto da boca subiu e voltou, como onda que não chega à praia.
Um silêncio. O tipo que suga o ar do ambiente.
Stavros bateu palmas — uma vez, seca, de patriarca que encerra desconfortos.
— Manos, pode zarpar quando quiser. — Depois, virando-se para todos: — Sete dias. Meu aniversário. E eu quero paz. — O olhar dele varreu a família como holofote. Parou em Nikos por um segundo a mais. — Paz.
O motor do *Eleni* ganhou corpo. O cais de Pireu começou a recuar, lento, e Lara sentiu o convés vibrar sob os pés — aquele tremor mínimo de máquina em movimento, o mundo se desprendendo da terra. O cheiro de diesel se misturou com a brisa do Egeu, e o sol bateu na água criando uma estrada de ouro líquido até o horizonte.
Lara largou a mala. Fechou os olhos por um segundo — um segundo de escuridão voluntária, como a pausa entre dois cliques, o intervalo sagrado em que a fotógrafa decide o que guardar e o que deixar ir. Abriu. Pegou a câmera. E enquanto o porto encolhia e a Grécia ficava para trás, fez o que sempre fazia quando o mundo pesava demais: olhou através da lente.
Pelo visor, enquadrou o cais se afastando, os barcos menores ficando pequenos, a linha da costa virando abstração. Focou na textura da água — azul escuro com veios brancos de espuma, como mármore invertido. Disparou. O clique do obturador era o som mais honesto que conhecia.
Baixou a câmera. E percebeu que não estava sozinha no deck.
Atrás dela, a dez metros, parado na escada que vinha do convés superior, estava Theo.
Theo Antonidis. O mais velho. O CEO. O pilar.
Ele era exatamente como Lara lembrava e completamente diferente. O rosto era o mesmo — mandíbula dura, maçãs do rosto altas, olhos escuros que pareciam feitos de café concentrado e julgamento. Mas havia coisas novas: linhas ao redor dos olhos que não estavam lá três anos atrás, uma tensão na mandíbula que sugeria dentes cerrados por hábito, e algo nos ombros — uma rigidez que não era postura, era peso.
Trinta e três anos e parecia carregar sessenta.
Vestia camisa de linho cinza-escuro, mangas dobradas nos antebraços, calça de alfaiataria preta que não fazia sentido num iate mas fazia sentido nele — Theo Antonidis era o tipo de homem que usava alfaiataria para dormir, provavelmente. Relógio de pulso discreto. Sem aliança. Sem sorriso.
Os olhos dele encontraram os dela.
E Lara sentiu — não no peito, não no estômago, mas na pele, como mudança de temperatura — o gelo.
Não era ódio. Ódio era quente, barulhento, exigia energia. O que Theo emanava era mais frio e mais preciso: desprezo calculado. O tipo de olhar que dizia "eu sei quem você é e o que fez e você não merece o ar que respira neste convés".
Lara sustentou o olhar. Não sorriu. Não acenou. Não baixou os olhos. Porque aprendera, em cinco anos de fotografia de natureza, que predadores respeitam quem não recua. E Theo Antonidis, com toda a sua alfaiataria e seus navios e seu sobrenome pesado, era só mais um predador de terno.
Ele desceu os últimos degraus. Passou por ela.
Não disse uma palavra.
Mas o ar entre eles ficou carregado, denso, como a pausa entre o trovão e o relâmpago.
Lara virou-se para o mar. Respirou. O sal picou nos lábios, o vento jogou os cabelos no rosto, e ela sentiu a teca quente do convés através das sandálias. As mãos tremiam — imperceptível, um tremor mínimo que ela controlou fechando os punhos. Não de medo. De adrenalina. A mesma que sentia ao enquadrar uma onça no Pantanal: o corpo sabendo que estava diante de algo perigoso antes que a mente formulasse a frase.
Theo cheirava a sabonete e autoridade. Mesmo de passagem, mesmo sem parar, o rastro olfativo era preciso, limpo, sem excesso — tão controlado quanto o dono.
Sete dias.
Olhou para a câmera. Olhou para o horizonte. O Egeu se estendia como uma página em branco, azul demais para ser real, pontilhado de ilhas que pareciam pedaços de terra que o continente tinha esquecido.
No bolso, o celular vibrou. Mensagem da mãe: "Chegou viva?"
Lara digitou: "Viva. Inteira. Armada."
E subiu para a cabine que Manos indicara — pequena, na proa, com uma janela redonda como olho de peixe e um colchão que cheirava a lavanda e solidão —, enquanto o iate cortava o Egeu em direção ao primeiro pôr do sol de sete dias que prometiam ser os mais longos da vida dela.
No deck, quando ela já não podia ouvir, Dimi se virou para a *yiayia* e disse, em grego:
— Ela está mais magra.
A velha não respondeu. Apenas apertou as contas do *komboloi* entre os dedos, olhando para o ponto onde Lara tinha estado.
E Nikos, do outro lado do convés, deu um gole longo no champanhe, beijou Helena na têmpora, e sorriu como quem sabe exatamente onde cada peça do tabuleiro está.
Só que ele não sabia.
Porque enquanto o *Eleni* ganhava velocidade e o porto virava lembrança, Stavros Antonidis — sentado na poltrona de proa, com o sol no rosto e a mão esquerda discretamente sobre o peito — sabia algo que nenhum dos filhos sabia: que este cruzeiro não era comemoração.
Era despedida.
E Lara Mendes — a ex-nora que ele tinha chamado de volta — era parte do motivo.