LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
Grávida em Paris
Capítulo 2 — O Croissant Queimado
O enjoo chegou às seis e quarenta e dois da manhã, pontual como o metrô da linha 1 — com a diferença de que o metrô ao menos tinha a decência de avisar antes de parar.
Bia estava no meio de uma fornada de croissants quando o estômago decidiu que manteiga — o ingrediente mais sagrado de qualquer pâtisserie francesa — era agora o inimigo. O cheiro subiu do forno aberto em ondas espessas, douradas, e tudo que ela conseguiu fazer foi largar a bandeja no balcão e caminhar até a pia com uma determinação que esperava parecer profissional e não desesperada.
Água fria no rosto. Respirar. Contar até dez.
Funcionou até o oito. No nove, o estômago fez uma pirueta que desafiava a anatomia.
"Bia." Claire apareceu ao lado como quem surge do nada, espátula na mão, olhar de enfermeira de campo. "Você está verde."
"Estou ótima."
"Você está da cor do pistache."
"Então estou na paleta da casa." Bia forçou um sorriso que não convenceu nem ela mesma. "A fornada vai queimar se—"
"Eu cuido. Vai ao banheiro."
Bia não foi ao banheiro. Ir ao banheiro significava admitir que algo estava errado, e ela passara os últimos quatro dias tratando a gravidez como tratava os e-mails de Dona Célia sobre casamento: ignorando com vigor e esperando que desaparecesse sozinha.
Em vez disso, abriu a porta dos fundos e ficou no beco. Dezembro em Paris cheirava a chuva velha e concreto molhado. O frio mordeu seu nariz e suas bochechas, e a náusea recuou um centímetro — o suficiente para que pudesse fingir que nunca tinha existido.
Encostou-se na parede de tijolos e olhou para cima. O céu era cinza pérola, daquele cinza específico de Paris que não é triste nem bonito, é só inevitável. Pombos andavam pelo chão com a arrogância de quem paga aluguel.
Quatro dias. Fazia quatro dias desde o teste. Quatro dias em que Bia ia trabalhar, voltava para o estúdio de vinte e sete metros quadrados que chamava de apartamento, comia biscoito de água e sal porque era a única coisa que o estômago tolerava, e dormia abraçada ao travesseiro com a determinação de quem acredita que problemas se resolvem com sono.
Não se resolviam.
A cada manhã, o enjoo voltava. E com ele, a certeza crescente de que o teste de farmácia não tinha mentido — porque testes de farmácia, diferente de homens bonitos em bares, não tinham motivo para mentir.
"Beatriz."
A voz veio de dentro da pâtisserie, nítida como cristal e duas vezes mais cortante. Madame Lavigne tinha o dom de pronunciar o nome dela como se fosse uma repreensão e um chamado ao mesmo tempo.
Bia ajustou o avental, esfregou o rosto com as costas da mão e entrou.
§
A pâtisserie de Madame Lavigne existia desde 1973 e se recusava a admitir que o mundo havia mudado desde então. As vitrines eram de mogno escuro. O balcão de mármore tinha o mesmo risco do lado esquerdo desde o dia em que o marido de Madame Lavigne — morto em 1998, Deus o tenha — tropeçou com uma bandeja de profiteroles. E a luz que entrava pela porta era sempre dourada de um jeito que desafiava a lógica da meteorologia parisiense, como se o sol reservasse seus melhores raios para aquela esquina da Rue du Cherche-Midi.
Madame Lavigne estava exatamente onde sempre estava às sete da manhã: atrás do balcão, óculos de armação dourada na ponta do nariz, olhar de gavião.
"Os croissants." Ela apontou para o forno com a caneta. "Dezoito minutos."
"Eu sei."
"Eles estão no forno há vinte e três."
O cheiro. Bia sentiu antes de ver — manteiga passando do ponto, massa passando de dourada para marrom, o aroma adocicado dando lugar a uma nota amarga que qualquer confeiteiro reconhecia como o som do fracasso.
Correu. Abriu o forno. A fornada inteira — vinte e quatro croissants que deveriam ser perfeitos — estava com a borda escura demais, a cor de um erro de cinco minutos que nenhuma desculpa poderia corrigir.
"Mon Dieu." Claire apareceu atrás dela.
Bia segurou a bandeja com as luvas e sentiu o calor atravessar o tecido. Vinte e quatro croissants. Uma manhã de trabalho. Queimados porque seu estômago decidiu que manteiga era veneno e sua cabeça decidiu que o beco era mais importante que o timer.
"Não estão queimados", ela tentou, analisando os croissants com o olho clínico de quem procura salvação onde não existe. "Estão... tostados."
"Estão queimados", disse Madame Lavigne, que havia se materializado ao lado do forno sem fazer barulho, como fazia sempre que algo dava errado. A mulher tinha um radar para desastres. "Claire, faça outra fornada. Bia, meu escritório."
O escritório de Madame Lavigne era um cômodo nos fundos da pâtisserie que cheirava a papel velho, café forte e Chanel Nº 5. Uma combinação que, em qualquer outro contexto, seria desconcertante, mas ali parecia inevitável. As paredes tinham fotos em preto e branco de Paris nos anos setenta. A mesa estava coberta de pedidos, notas fiscais e um exemplar da Le Figaro que Madame lia todas as manhãs como ritual religioso.
"Sente-se."
Bia sentou na cadeira de veludo verde que rangeu sob seu peso como se a julgasse. Madame Lavigne sentou do outro lado, tirou os óculos, limpou-os com um lenço de seda que provavelmente custava mais que o aluguel de Bia, e os recolocou.
"Você nunca queimou croissants."
"Eu sei."
"Nem no seu primeiro mês, quando confundia gramas com onças e eu quase a demiti por ter colocado sal em vez de açúcar nos macarons."
"Eu... perdi a noção do tempo."
Madame Lavigne a estudou. Tinha aquele olhar específico — parte curiosidade, parte raio-X — que fazia Bia sentir que cada segredo estava sendo lido em voz alta.
"Você está pálida há uma semana. Não come no intervalo. E hoje está com cara de quem comeu algo que não devia." Uma pausa cirúrgica. "Ou de quem precisa comer e não consegue."
Bia mordeu o interior da bochecha. O gesto automático de quem mente. O gesto que sempre a entregava.
"Estou bem, Madame."
"Não perguntei se está bem. Disse que está com cara de quem não está."
O silêncio que se seguiu tinha peso. Bia podia ouvir o relógio de parede — um cartel antigo que batia fora de compasso — e o barulho distante de Claire abrindo sacos de farinha. O cheiro de café forte do escritório misturava-se ao aroma residual dos croissants queimados, e o estômago de Bia fez uma ondulação de protesto.
"Se há algo que preciso saber como sua empregadora, preciso saber." Madame Lavigne cruzou as mãos sobre a mesa. "Se há algo que preciso saber como alguém que..." ela hesitou, procurando a palavra como se a emoção fosse um ingrediente que não costumava usar. "...que se importa com você, também preciso saber."
Era a coisa mais gentil que Madame Lavigne já havia dito. E foi exatamente por isso que os olhos de Bia arderam.
Ela não ia chorar. Não ia. Não no escritório com cheiro de Chanel e papel velho, não diante da mulher que a contratou quando seu francês era uma piada e sua técnica de templagem de chocolate era, nas palavras de Madame, "uma ofensa pessoal à pâtisserie francesa."
"Eu só... não dormi bem." Bia engoliu o nó na garganta. "Vou repor os croissants. Não vai acontecer de novo."
Madame Lavigne manteve o olhar por mais três segundos — tempo suficiente para que Bia soubesse que ela não acreditava — e depois acenou com a mão num gesto que era parte dispensa, parte rendição.
"Os croissants não me preocupam, Beatriz. Farinha e manteiga eu reponho. O que me preocupa é o que faz uma confeiteira esquecer que tem massa no forno."
§
O resto do dia passou num borrão de açúcar e sobrevivência.
Bia fez nova fornada de croissants — perfeitos, dourados, um pedido de desculpas em forma de massa folhada. Preparou sessenta macarons de framboesa para a encomenda do hotel Ritz. Temperou ganache de chocolate amargo com a precisão de quem compensa culpa com trabalho.
O enjoo ia e voltava como maré. Recuava quando ela se concentrava nas receitas e avançava nos momentos de pausa, como se soubesse que o melhor momento para atacar era quando a guarda baixava.
Claire tentou puxar conversa duas vezes. Bia respondeu com monossílabos e sorrisos que não alcançavam os olhos. Não era por falta de confiança — Claire era boa gente, o tipo de colega que dividia o almoço e cobria turnos sem reclamar. Mas contar significava tornar real. E Bia ainda não estava pronta para real.
No intervalo do almoço, sentou no banco dos fundos com um pedaço de baguete e um copo de água. A baguete era de ontem, levemente dura, e o sabor de trigo e fermento era a única coisa que não provocava revolta gástrica. Comeu devagar, mastigando cada pedaço como se fosse um exercício de meditação.
O celular vibrou no bolso. WhatsApp. O grupo da família — "Ferreiras Unidos (e o Wi-Fi)" — piscava com notificações.
Dona Célia tinha mandado uma foto da roseira do quintal em Belo Horizonte. "Olha que linda floresceu!" Seguida de quatro emojis de flor, dois de coração e um de mãos rezando.
Seu Jorge respondeu com "👍".
Luísa mandou um vídeo de trinta segundos de si mesma provando um croissant num café de São Paulo com a legenda "Pensando na mana em Paris 🥐✈️". Bia sabia que o vídeo era conteúdo para os oitocentos mil seguidores e que o pensamento era genuíno ao mesmo tempo. Com Luísa, essas coisas coexistiam.
Fernanda mandou: "Mãe, a roseira tá com pulgão. Bota inseticida."
Dona Nair mandou um áudio. Bia colocou o fone e ouviu a voz da avó — rouca, lenta, como quem tem todo o tempo do mundo porque já sabe que o tempo é pouco:
"Tô fazendo crochê e pensando em vocês. Célia, larga essa roseira e vai cuidar da sua pressão. Bia, come direito, você deve tá comendo só pão velho. Luísa, para de filmar e vai estudar. Fernanda, relaxa. Beijo."
Bia sorriu pela primeira vez no dia. O tipo de sorriso que começa nos cantos da boca e termina com uma dor no peito, porque avó é assim — mesmo a quatro mil quilômetros de distância, acerta exatamente onde dói.
Pensou em responder. Digitou: "Tô bem, vó." Apagou. Digitou: "Saudade." Apagou. Digitou: "Tô grávida de um francês que não sei o nome." Apagou tão rápido que quase derrubou o celular.
Mandou um emoji de coração e guardou o telefone.
§
Às cinco da tarde, quando a luz de dezembro já tinha desistido e Paris vestia seu manto cinza-alaranjado de luzes acesas cedo demais, Bia tirou o avental e o pendurou no gancho atrás da porta. O avental estava manchado de framboesa e chocolate — as cores do dia, o mapa de cada receita que fizera para não pensar no que carregava dentro de si.
"Bia." Claire segurou o braço dela na saída. "Se precisar de qualquer coisa. Tipo, qualquer coisa mesmo."
"Eu sei. Obrigada."
Saiu pela porta lateral. O ar frio de Paris envolveu o rosto como uma toalha gelada, e ela inspirou fundo — o cheiro de castanhas assadas do vendedor da esquina, gasolina, chuva que não caía mas pairava no ar como uma ameaça educada.
Caminhou até o metrô. Desceu as escadas. Esperou na plataforma lotada, espremida entre um homem de terno que lia Le Monde e uma senhora com três sacolas do Monoprix. O metrô chegou com seu sopro quente e seu barulho de metal, e Bia entrou, segurou na barra e fechou os olhos.
Dentro da bolsa, entre a carteira e as chaves, o teste de gravidez continuava ali. Ela não conseguira jogar fora. Não sabia explicar por quê. Talvez porque descartar o teste parecesse descartar a evidência, e sem evidência talvez pudesse fingir que nada havia mudado.
Mas a cada manhã, o enjoo lembrava que mudou.
E a cada noite, no estúdio de vinte e sete metros quadrados onde a cama ficava a dois passos da cozinha e a cozinha ficava a dois passos do banheiro, Bia deitava olhando o teto e conversava com alguém que ainda não existia de verdade.
"Escuta", ela sussurrou no metrô, a voz sumindo no barulho das rodas nos trilhos. "Eu não sei o que estou fazendo. Mas eu vou descobrir."
O metrô freou. Bia abriu os olhos. A porta se abriu para a estação Sèvres-Babylone e com ela entrou uma rajada de ar que cheirava a pão fresco de alguma boulangerie próxima.
Desceu. Subiu as escadas. Caminhou as três quadras até o prédio onde morava — um edifício do século dezenove com fachada bonita e encanamento duvidoso.
No terceiro andar, abriu a porta do estúdio. Acendeu a luz. A cama desfeita. A xícara de café da manhã na pia. A janela que dava para um pátio interno onde alguém sempre pendurava roupa para secar, mesmo no inverno, num otimismo que Bia admirava.
Sentou na cama. Tirou os sapatos. Olhou para o nada.
E então, como acontecia toda noite desde sexta-feira, pensou nele.
No homem sem nome. Nos olhos cinza-azulados. Nas mãos grandes. No riso que inclinava a cabeça. No sussurro em francês que ela sentiu na pele mas não entendeu com a mente.
Ele estava em algum lugar nesta cidade. Nove milhões de pessoas, e uma delas era o pai do bebê que crescia dentro dela sem pedir licença.
Bia deitou, puxou o cobertor até o queixo e fechou os olhos.
Amanhã seria outro dia. Outro enjoo. Outra fornada de croissants que ela não queimaria.
E talvez — talvez — ela encontrasse coragem para fazer o segundo teste. Porque uma parte dela, a parte que ainda controlava o pânico com a mesma precisão com que controlava a temperatura do forno, precisava ter certeza absoluta.
Uma linha rosa podia ser um erro de leitura. Duas seriam uma sentença.
Ou um começo. Dependia de como se olhava.
Bia ainda não sabia como olhar.