LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
A Última Temporada
A manhã seguinte trouxe chuva, uma nova explosão de Freddie — desta vez contida ao porão, o que representava progresso — e a notícia de que Benedict havia dormido no ateliê de novo.
Thea encontrou a evidência quando desceu para o café: o corredor do andar superior cheirava a terebintina e óleo de linhaça, um rastro olfativo que levava diretamente ao quarto que Ben transformara em estúdio sem pedir permissão a ninguém. A porta estava entreaberta e Thea resistiu à tentação de espiar. O que Ben fazia ali era assunto de Ben, embora Thea suspeitasse que envolvia telas, pincéis e um talento que o irmão tratava como segredo vergonhoso — o que, na opinião dela, era um desperdício criminoso, mas Thea já carregava segredos suficientes para saber que não se força uma confissão.
O café dos Stirling era uma coreografia ensaiada pelo hábito. Cada membro da família tinha seu papel, sua cadeira, seu padrão de chegada, e desvios do roteiro geralmente indicavam crise ou catástrofe.
Hoje, o desvio veio na forma de Lady Helena, que já estava sentada quando Thea desceu — meia hora antes do habitual — com o cabelo impecavelmente arrumado, as pérolas postas (as pérolas eram reservadas para ocasiões sérias) e uma expressão que Thea classificou imediatamente como "tramando algo de proporções épicas."
— Bom dia, mamãe — disse Thea, sentando-se e alcançando o bule. O chá já estava feito, o que confirmava suas suspeitas. Helena nunca fazia chá. Helena tinha criados para fazer chá. Se Helena havia feito chá com as próprias mãos aristocráticas, era porque queria algo.
— Bom dia, querida. Sente-se, sente-se. — Helena gesticulou como se Thea não estivesse já sentada. — Precisamos conversar antes que os outros desçam.
— Sobre minha declaração de ontem.
— Sobre seu futuro.
— São a mesma coisa.
Helena ignorou a correção com a elegância praticada de quem ignora coisas inconvenientes há três décadas.
— Escrevi a Lady Eloise — anunciou.
Thea pousou a xícara. O nome Lady Eloise não era pronunciado casualmente na casa dos Stirling. Lady Eloise Blackwood, Duquesa-viúva de Ravenswood, era uma força da natureza embalada em seda e pérolas, com uma língua mais afiada que qualquer lâmina e uma rede de influência que se estendia por cada salão relevante de Londres. Era também a amiga mais antiga de Helena, da época em que ambas eram debutantes, antes dos casamentos, dos filhos e das décadas que haviam separado seus caminhos — Helena para a respeitabilidade empobrecida dos Stirling, Eloise para a riqueza sombria dos Blackwood.
— Escreveu a Lady Eloise — repetiu Thea, com a voz cuidadosamente neutra. — Sobre o quê, exatamente?
— Sobre a *Season*. Sobre oportunidades. Sobre o fato de que minha filha mais velha, que é brilhante, bonita e perfeitamente adequada, continua solteira por pura teimosia.
— Não é teimosia. É padrão.
— Padrão?
— Tenho padrões, mamãe. Recuso desculpas por isso.
Helena respirou fundo — o tipo de respiração que precedia discursos longos ou lágrimas estratégicas, e Thea nunca sabia qual viria primeiro.
— Theodora, você disse que esta é a última *Season*. Muito bem. Aceito. Mas se é a última, então permitirá que eu a torne a melhor possível. Eloise concordou em nos ajudar. Ela tem... conexões.
— Conexões — repetiu Thea, e a palavra soou como armadilha.
— Conexões de primeira ordem. Do tipo que garante convites para os lugares certos, apresentações às pessoas certas, e...
O restante se perdeu quando Hugo irrompeu pela porta da sala de café com a velocidade e a determinação de uma bala de canhão. Trazia nas mãos um frasco de vidro, dentro do qual algo se movia com múltiplas patas.
— Thea! — gritou ele, esbaforido. — Encontrei um *Dytiscus marginalis*! No balde da cozinha! Mrs. Finch quase desmaiou!
— Hugo, por favor, não na mesa do café.
— Mas ele precisa de água fresca! É um besouro-mergulhador, entende? Respira debaixo d'água prendendo uma bolha de ar debaixo dos élitros, é fascinante, e...
— Hugo.
— Sim?
— Água fresca. Jardim. Agora.
Hugo saiu com o frasco, e Thea ouviu a voz de Mrs. Finch ecoando desde a cozinha — algo sobre "criaturas do demônio" e "a minha sopa, no meu balde, na minha cozinha." O cheiro de torta de carne subia pelas escadas, um pouco mais chamuscado do que o ideal, misturado ao aroma perpétuo de cera derretida das velas baratas que Thea comprara no mês passado.
— Como eu dizia — Helena retomou, com a serenidade de quem está acostumada a ignorar besouros — Eloise tem um plano.
— Eloise sempre tem um plano.
— E desta vez envolve...
Freddie apareceu. Tinha dezessete anos, cabelos espetados em ângulos que desafiavam a física e uma mancha escura no nariz que poderia ser fuligem ou poderia ser reagente químico. Era gêmeo de Georgie, embora os dois fossem tão diferentes quanto pólvora e tinta — ambos potencialmente explosivos, mas por razões distintas.
— Bom dia — disse ele, sentando-se e alcançando três torradas de uma vez. — Alguém mais ouviu aquele barulho às quatro da manhã?
— O barulho foi você, Freddie — disse Thea.
— Não, esse eu reconheço. Era outro barulho. Vinha do telhado. Pode ser um rato. Ou decomposição estrutural da viga mestra. Apostaria na viga.
— Obrigada, Freddie, isso é extremamente reconfortante.
— Posso examinar. Tenho ácido sulfúrico sobrando.
— De forma alguma — disse Thea e Helena ao mesmo tempo.
Georgie entrou em seguida, silenciosa como sempre, e sentou-se com o caderninho já aberto. Thea observou os olhos da irmã percorrerem a mesa, catalogando: a expressão conspiradora de Helena, a fuligem de Freddie, a cadeira vazia de Ben, a ausência de Lord Arthur. Georgie anotou algo. Thea sentiu aquele arrepio familiar — a irmã mais nova via demais.
Ned desceu com o livro debaixo do braço — não o mesmo de ontem, este era novo, algo sobre legislação trabalhista — e sentou-se sem cumprimentar ninguém, o que era seu estado natural antes do segundo chá.
Roz foi a penúltima, bonita e impecável mesmo às oito da manhã, o que Thea achava pessoalmente ofensivo.
— Mamãe está com as pérolas — observou Roz, sentando-se. — Devemos nos preocupar?
— Sempre — respondeu Thea.
Ben apareceu por último. Tinha vinte e quatro anos, o charme descuidado de alguém que nunca precisou se esforçar para ser agradável, e manchas de tinta azul nos dedos que ele tentava esconder enfiando as mãos nos bolsos do casaco. Era o herdeiro — o próximo Visconde Stirling — e carregava essa perspectiva com o entusiasmo de quem carrega uma pedra de moinho.
— Bom dia — disse ele, e seu sorriso era tão fácil e tão praticado que quase escondia as olheiras.
— Dormiu no ateliê — disse Thea.
— Dormi na biblioteca.
— Cheira a terebintina, Ben.
Pausa.
— A biblioteca estava muito fria. Fiz uma fogueira. Com... terebintina.
— Ninguém faz fogueira com terebintina.
— Os Stirling são inovadores.
Helena bateu a colher na xícara, o equivalente doméstico de um tiro de canhão, e o silêncio se fez.
— Crianças — anunciou Lady Stirling, e ninguém corrigiu que o mais novo presente tinha dezessete anos —, tenho uma comunicação a fazer. Escrevi a Lady Eloise Blackwood, Duquesa-viúva de Ravenswood...
— Lady Eloise? — interrompeu Ned, erguendo os olhos do livro pela primeira vez. — A Lady Eloise que controla metade dos convites de *Almack's*?
— A própria.
— A Lady Eloise que dizem ter reduzido o Marquês de Pemberton a lágrimas com uma única frase? — acrescentou Roz.
— Não foram lágrimas. Foi suor nervoso. Diferentes.
— A Lady Eloise que é tia do Duque de Ravenswood? — disse Georgie, sem levantar os olhos do caderno. — Aquele que não dança, não sorri e não fala com ninguém há oito *Seasons*?
Thea sentiu algo gelado na base da espinha. Olhou para a mãe. Helena sorria — o tipo de sorriso que deveria vir com aviso de perigo.
— Lady Eloise e eu concordamos — disse Helena, medindo cada palavra como uma costureira mede seda cara — que esta *Season* é uma oportunidade única. Para conexões. Para... encontros.
— Encontros — repetiu Thea.
— Encontros sociais perfeitamente normais entre pessoas de boa família.
— Mamãe. Está tentando me apresentar ao Duque de Ravenswood?
O silêncio que se seguiu tinha a qualidade específica de um barril de pólvora encontrando uma faísca.
— Apresentar é uma palavra forte — disse Helena. — Eu diria... posicionar estrategicamente.
Thea abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. Fechou de novo. Ao seu redor, irmãos observavam com graus variados de horror e fascínio.
— O Duque de Ravenswood — disse Thea, quando recuperou a capacidade de fala — é, por todos os relatos, o homem mais frio, mais arrogante e mais insuportavelmente soberbo de toda a Inglaterra.
— Também é o mais rico — disse Helena.
— Mamãe!
— Estou apenas contextualizando, querida.
— Ele olha para as pessoas como se estivesse avaliando o preço de cada uma no mercado.
— Thea...
— Dizem que a última mulher que tentou conversar com ele num baile recebeu de volta um monossilábico tão gelado que precisou de xale.
— Isso é exagero.
— Era julho.
Roz sufocou uma risada na torrada. Ben não se deu ao trabalho de disfarçar — riu abertamente. Freddie parecia estar calculando algo, provavelmente a temperatura exata necessária para congelar uma conversa. Georgie escrevia furiosamente.
— Não importa o que dizem — declarou Helena, com a inabalável certeza dos genuinamente obstinados. — Eloise me garantiu que Alexander é... diferente. Por dentro.
— Por dentro — repetiu Thea. — Como uma ostra.
— Ostras têm pérolas.
— Ostras também são escorregadias, viscosas e impossíveis de abrir.
— Theodora Stirling, vai conhecer o Duque de Ravenswood. Vai ser agradável. Vai sorrir. E vai dar a este plano uma chance honesta. Você mesma disse — esta é a última *Season*. Então o que tem a perder?
Thea quis dizer "dignidade", mas engoliu a palavra. Porque Helena, com toda a sua tendência ao drama e à conspiração, não estava completamente errada. O que Thea tinha a perder? Já perdera seis *Seasons*. Já perdera a ilusão de que o mercado matrimonial valorizava intelecto. Já perdera o sono, a paciência e quase toda a reserva de otimismo que trouxera da juventude.
Uma *Season* mais. Um plano mais. Um nome mais na longa lista de homens que olhariam para ela e veriam uma mulher alta demais, angulosa demais, inteligente demais.
— Está bem — disse Thea, e as palavras saíram com o peso de uma rendição negociada. — Uma chance. Uma. Se não funcionar...
— Vai funcionar.
— Se não funcionar, mamãe, o assunto está encerrado. Para sempre. Concordamos?
Helena hesitou apenas o suficiente para que Thea soubesse que a concordância era tática, não sincera. Mas acenou.
— Concordamos.
Lord Arthur apareceu nesse momento, atrasado como sempre, com dois manuscritos debaixo do braço, tinta no queixo além do nariz, e a expressão beatífica de alguém que vivia num mundo onde contas não existiam e o grego antigo pagava o aluguel.
— Bom dia, família — disse ele, sentando-se na cadeira de Ned por engano. — Helena, querida, recebeu minha nota sobre o leilão da Christie's? Há um fragmento de Safo que...
— Arthur — disse Helena —, estamos casando Thea.
— Maravilhoso, maravilhoso — murmurou Arthur, espalhando geleia na manga do casaco. — Com quem?
— Com o Duque de Ravenswood.
— Ah. — Pausa. — Não é aquele sujeito que publicou um artigo sobre classificação de rosas no *Philosophical Magazine*?
Thea ergueu as sobrancelhas. — Ravenswood publicou um artigo científico?
— Sob pseudônimo, claro. Mas reconheci o estilo. Metodologia excelente. Taxonomia impecável. Errou numa referência a Lineu, mas ninguém é perfeito. — Arthur mordeu a torrada, pensativo. — Se ele sabe latim botânico, provavelmente serve.
E com isso, Lord Arthur Stirling deu sua bênção matrimonial baseada exclusivamente em critérios de taxonomia vegetal, e voltou ao manuscrito.
Thea ficou na mesa depois que todos saíram. A casa ressoava com os sons habituais: Hugo conversando com o besouro no jardim, Freddie arrastando algo pesado no porão, o piano desafinado sob os dedos de Ben, Georgie subindo as escadas em silêncio, Ned discutindo consigo mesmo sobre reforma agrária.
Esses sons eram sua responsabilidade. Essas pessoas — barulhentas, imperfeitas, financeiramente desastrosas e totalmente suas — dependiam dela de formas que a maioria nem imaginava. Se a *Season* falhasse e os credores executassem a dívida, esta casa, esta mesa, essas manhãs caóticas e perfeitas desapareceriam.
Thea bebeu o resto do chá frio. Amargo, sem açúcar, exatamente como escolhera.
Depois levantou, subiu ao escritório, tirou o livro-caixa do esconderijo e acrescentou uma linha: "Despesas estimadas da *Season* — £45 (vestidos reformados, transporte, velas)."
Quarenta e cinco libras que não tinham, para uma temporada que provavelmente fracassaria, num plano montado por duas mulheres que acreditavam que teimosia e pérolas resolviam qualquer coisa.
Thea fechou o livro. Olhou pela janela. A chuva caía sobre Londres com a persistência enfadonha de uma conversa em baile.
Em algum lugar desta cidade, o Duque de Ravenswood existia em sua casa enorme e silenciosa, sem fazer ideia de que duas mães, seis irmãos e uma contabilidade catastrófica estavam prestes a invadir sua vida.
Thea quase sentiu pena dele.
Quase.