LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
A Planta Errada
A manhã em Alfama começava com um concerto que ninguém tinha ensaiado: gaivotas, um rádio tocando fado no andar de baixo, o elétrico 28 rangendo numa curva lá embaixo, e Pessoa — o gato, não o poeta — miando na porta do quarto de Beatriz com a urgência de quem anuncia o apocalipse ou o café da manhã, difícil distinguir.
Beatriz abriu os olhos e, por três segundos abençoados, não se lembrou de nada. Depois lembrou de tudo. A sócia. O namorado. A mala em Angola. O palacete. A ginjinha às onze da manhã. Os sete gatos. Os seis meses.
— Bom dia pra você também — disse para Pessoa, que entrou no quarto com a dignidade de um embaixador e sentou em cima da mala azul como se fosse um território recém-conquistado.
O cheiro de café subia pelas escadas — café forte, escuro, com aquele aroma de "eu fui feito por alguém que leva a vida a sério." Beatriz desceu seguindo o nariz, os pés descalços no assoalho frio, o cabelo formando uma nebulosa castanho-avermelhada ao redor da cabeça que ela nem tentaria domar antes de pelo menos duzentos mililitros de cafeína.
A cozinha do palacete era uma peça de museu involuntária: azulejos brancos e azuis do chão ao teto, um fogão a gás que parecia ter cozinhado para gerações de Figueiredos, uma mesa de madeira maciça com marcas de faca que contavam histórias, e Dona Benedita sentada na cabeceira com uma bica, três torradas, compota de figo e a expressão de quem já orquestrou pelo menos dois golpes de estado antes das nove.
— Dormiu bem? — perguntou Benedita, sem olhar, enquanto passava compota com a precisão de um cirurgião.
— Como uma pedra. Uma pedra num colchão de molas que range. Mas uma pedra.
— Ótimo. Toma café. Vais precisar.
Beatriz deveria ter prestado atenção naquela frase. Na maneira como Benedita disse "vais precisar" com a tranquilidade de quem avisa sobre tempo — "vai chover", "vai esfriar", "vai aparecer um homem que vai te fazer questionar todas as suas escolhas de vida."
Mas o café era bom demais para prestar atenção em presságios. Beatriz sentou, mordeu uma torrada com compota de figo que tinha gosto de outono condensado, e abriu o caderno de anotações. Tinha passado metade da noite desenhando — sem os materiais da mala perdida, trabalhava com o que tinha: lápis, borracha e a memória de quem estudara o palacete pelas fotos que Benedita enviara por e-mail.
— Dona Benedita, eu andei pensando no hall de entrada. Se a gente trocar o piso por ladrilho hidráulico restaurado e abrir aquela janela lateral que está emparedada, a luz natural vai...
— Guarda isso — disse Benedita, levantando uma mão delicada que continha, de alguma forma, a autoridade de um semáforo. — Tem uma coisa que preciso te dizer antes.
Beatriz parou com a torrada no ar. Compota de figo pingou na mesa.
— Que coisa?
— Não contratei só você para o projeto.
Silêncio. Um silêncio onde cabiam muitas interpretações, a maioria delas ruins.
— Como assim, não contratou só eu?
— Contratei outro arquiteto. Mais experiente em restauro estrutural. Vocês vão trabalhar juntos.
Beatriz pousou a torrada. O gesto foi lento e deliberado, o tipo de movimento que uma pessoa faz quando está tentando muito, muito mesmo, não gritar.
— Juntos — repetiu, saboreando a palavra como quem morde uma azeitona e descobre um caroço.
— Juntos. Complementarmente. Tu trazes a visão artística, ele traz a estrutura técnica. É perfeito.
— Dona Benedita, com todo o respeito, eu sou arquiteta formada. Eu faço estrutura E visão artística. Eu não preciso de...
A campainha tocou. Ou melhor, o batente de ferro na porta principal bateu três vezes com uma regularidade que sugeria um metrônomo humano.
— Ah — disse Benedita, levantando-se com um sorriso que era pura satisfação disfarçada de inocência. — Deve ser ele.
Beatriz não se mexeu. Permaneceu sentada na cadeira da cozinha com a compota de figo solidificando na torrada e uma expressão que oscilava entre incredulidade e o tipo específico de fúria calma que antecede furacões.
A porta se abriu. Passos no vestíbulo — passos precisos, espaçados, sem pressa, o tipo de passo que pertence a alguém que nunca se atrasou para nada na vida e secretamente julga quem se atrasa.
Ele apareceu na porta da cozinha como uma fotografia editorial que tomou vida por engano. Alto — mais alto do que o batente da porta parecia preparado para acomodar. Magro, com a magreza de quem corre ou nada ou faz algum exercício silencioso e disciplinado. Cabelo castanho claro, arrumado com o tipo de casualidade calculada que leva quinze minutos para parecer que levou zero. Barba de três dias que provavelmente era de três dias desde 2019, mantida com rigor milimétrico.
Vestia camisa de linho branco — engomada, pelo amor de Deus, engomada como se linho engomado fosse uma escolha e não um crime contra a natureza do tecido — com as mangas dobradas até o antebraço. Calça de alfaiataria bege. Sapatos italianos que nunca tinham visto uma poça de lama e pareciam orgulhosos disso. Carregava uma pasta de couro marrom que provavelmente custava mais do que o aluguel que Beatriz pagava em São Paulo — quando ainda pagava aluguel.
Ele olhou para Beatriz. Beatriz olhou para ele. O olhar durou exatamente o tempo necessário para que cada um formasse uma opinião completa, inabalável e provavelmente injusta sobre o outro.
O que Tomás Oliveira viu: uma mulher de pijama de algodão com estampa de abacaxis, cabelo explodindo em todas as direções como uma reação química em andamento, migalhas de torrada na camiseta, e um caderno aberto com desenhos que pareciam ter sido feitos durante um terremoto pessoal.
O que Beatriz Melo viu: uma planilha do Excel que ganhou pernas, um showroom ambulante da Kinfolk, um homem que provavelmente separava as meias por tonalidade e chamava isso de "sistema de organização."
— Tomás — disse Benedita, radiante. — Esta é a Beatriz. Beatriz, Tomás. Vocês vão trabalhar juntos. Não é maravilhoso?
— Encantado — disse Tomás, estendendo a mão. A voz era grave, controlada e tinha sotaque do Porto suavizado por anos de Lisboa — o tipo de sotaque que em outras circunstâncias poderia ser considerado agradável, mas naquele momento soava como o som de alguém que pronuncia cada consoante por escolha moral.
— Igualmente — disse Beatriz, apertando a mão dele. A mão era firme, seca e durava exatamente dois segundos. Beatriz apostaria dinheiro que ele cronometrava apertos de mão.
— Eu não sabia que havia outra arquiteta no projeto — disse Tomás, olhando para Benedita com uma educação que continha, em suas bordas, algo cortante. — Entendi que eu seria o responsável pelo restauro.
— E eu entendi que EU seria a responsável pelo projeto — disse Beatriz. — Inteiro. O projeto inteiro.
Benedita sentou-se entre os dois com a serenidade de uma bomba-relógio com boina de seda.
— Houve um mal-entendido. Mea culpa. Mas agora que estão ambos aqui, não faz sentido desperdiçar talento. — Serviu-se de mais café. — Tomás, senta. Come uma torrada. Beatriz, limpa essa compota da mesa, querida, está pingando no chão.
— Dona Benedita — começou Tomás, com a paciência de um professor universitário explicando algo pela terceira vez. — Um projeto de restauro precisa de uma visão unificada. Dois arquitetos com abordagens diferentes vão...
— Criar algo incrível — completou Benedita.
— Eu ia dizer "causar um desastre."
— Eu ia dizer coisa pior — acrescentou Beatriz.
Tomás olhou para ela. Beatriz olhou para ele. Havia, naquele cruzamento de olhares, o reconhecimento mútuo e instantâneo de que o outro era o obstáculo. Não o desafio, não o complemento — o obstáculo.
— Vamos ao menos ver os espaços — disse Tomás, colocando a pasta de couro sobre a mesa com o cuidado de quem pousa um recém-nascido. — Trouxe o levantamento estrutural completo, a análise de patologias da fachada e um cronograma preliminar com fases de intervenção.
Beatriz olhou para a pasta. Depois olhou para o caderno dela, com seus rabiscos de lápis, setas em todas as direções e um desenho de gato que ela tinha feito enquanto Pessoa dormia no seu colo às duas da manhã.
— Eu também tenho ideias — disse Beatriz. — Estão na minha outra mala. Que está em Angola.
— Angola? — O vinco entre as sobrancelhas de Tomás poderia ter sido medido com transferidor.
— Longa história.
— Então, para resumir: a sua colega chegou sem material de trabalho. — Tomás disse "colega" com a mesma entonação com que alguém diria "problema."
— Eu tenho material de trabalho. — Beatriz apontou para a própria cabeça. — Aqui dentro. Chama-se criatividade. Talvez tenha ouvido falar.
— Criatividade sem documentação técnica é decoração de bolo.
Beatriz abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. Fechou de novo. Parecia um peixe, e sabia que parecia um peixe, e o fato de saber tornava tudo pior.
— Decoração. De bolo. — Cada palavra saiu separada, como ingredientes de uma receita explosiva.
— Não foi o que eu quis dizer — disse Tomás, embora claramente fosse exatamente o que tinha querido dizer.
— Sabe o que eu acho? — Beatriz levantou-se, e a cadeira rangeu em solidariedade. — Eu acho que o senhor chegou aqui com a sua pastinha de couro e a sua camisa de linho ENGOMADA achando que vai fazer o projeto sozinho enquanto eu fico de assistente segurando a trena. Mas não é assim que funciona. Eu fui contratada. Eu tenho visão pra esse espaço. E o fato de eu estar de pijama de abacaxi às nove da manhã não me faz menos competente, me faz mais confortável.
Silêncio. Um gato — provavelmente Eça — atravessou a cozinha com a indiferença de quem já viu guerras maiores.
Tomás olhou para Beatriz por um longo momento. Depois, com uma calma que era quase ofensiva:
— Abacaxis. Eu pensei que fossem ananases.
— São abacaxis.
— Em Portugal chamamos ananases.
— Nós não estamos discutindo frutas, estamos discutindo o fato de que você me chamou de decoradora de bolos.
— Eu disse que criatividade sem documentação é...
— Decoração de bolo. Eu ouvi. Minha audição é excelente. Também funciona de pijama.
Benedita, que durante toda a troca tinha se servido de mais café e alimentado Pessoa com pedacinhos de torrada sob a mesa, bateu palmas uma vez. O som cortou a sala como um tiro de ponto final.
— Maravilha — disse ela, levantando-se. — Vocês já se conhecem. Agora vamos ver a casa. Tragam os cadernos, as pastas e o que restar de civilidade. — Caminhou em direção à porta com Pessoa trotando atrás. — E Tomás?
— Sim?
— Ela não é decoradora de bolos. E Beatriz?
— O quê?
— Linho engomado não é crime. É opção estética. Respeitem-se. Ou finjam. Eu aceito as duas coisas.
A visita ao palacete durou duas horas. Benedita guiou-os pelos três andares com a familiaridade de quem conhecia cada rachadura pelo nome. Tomás anotava tudo — medidas, patologias, infiltrações — numa caderneta quadriculada com uma letra tão regular que parecia impressa. Beatriz desenhava — perspectivas rápidas, notas de cor, setas indicando onde a luz entrava e o que ela podia fazer com isso.
Não trocaram uma palavra que não fosse estritamente técnica. "A viga está comprometida." "Aquela janela precisa de restauro." "O piso original está sob essa camada de cimento." Frases frias, profissionais, e carregadas do tipo de cortesia que é pior que grosseria porque requer mais esforço.
No segundo andar, num quarto com uma varanda que emoldurava o Tejo, Beatriz parou. A luz entrava oblíqua, dourada, e batia nos azulejos restantes da parede criando um mosaico de sombras azuis no chão.
— Aqui — disse, quase para si mesma. — Aqui precisa de veludo. Bordô. Profundo. Com a luz assim, o quarto inteiro vira uma joia.
— Ou — disse Tomás, sem levantar os olhos da caderneta — podemos restaurar os azulejos originais e deixar que o material histórico fale por si, sem precisar de... veludo.
Ele disse "veludo" da mesma forma que antes dissera "decoração de bolo" — como se a palavra tivesse um gosto estranho na boca.
Beatriz virou-se para ele. A luz do Tejo desenhava metade do rosto dele em ouro e a outra metade em sombra, e por um instante mínimo — tão breve que ela poderia negar até sob juramento — ela pensou que seria um rosto interessante de desenhar. Depois o instante passou e voltou a achá-lo insuportável.
— Você tem alguma coisa contra cor? — perguntou. — Algum trauma infantil envolvendo um arco-íris?
— Eu tenho algo contra intervenções que desrespeitam o espírito original do edifício.
— O espírito original do edifício é que ele está caindo aos pedaços. Eu acho que ele aceitaria uma ajuda cromática.
— Cromática. — O fantasma de um sorriso passou pelo canto da boca de Tomás. Não um sorriso de alegria — um sorriso de quem encontrou munição. — Interessante escolha de palavra para quem trabalha com "o que der na telha."
— Eu não trabalho com "o que der na telha." Eu trabalho com intuição informada, referências históricas e uma compreensão de que espaços são feitos para pessoas sentirem coisas, não para publicações acadêmicas.
— Publicações acadêmicas. Bonito. Essa é a forma brasileira de dizer "eu não leio pesquisa"?
A temperatura da sala subiu vários graus. Benedita, encostada no batente da porta com Pessoa no colo, observava com a satisfação contida de uma diretora de teatro assistindo ao primeiro ensaio.
— Vamos descer — disse Benedita, interrompendo antes que sangue fosse derramado. — Ainda falta o jardim. E o jardim tem opiniões próprias.
Beatriz desceu as escadas atrás de Benedita, passando por Tomás sem olhar, o que requeria uma disciplina muscular impressionante porque seu corpo inteiro queria virar e dizer mais quatro ou cinco coisas devastadoras que estavam se formando em fila na ponta da língua.
O jardim — um pátio interno com uma fonte seca, canteiros abandonados e uma jabuticabeira que, milagrosamente, alguém ainda regava — esperava no fundo do palacete como um segredo guardado. Beatriz tocou a casca da jabuticabeira. Áspera, quente do sol, viva.
— Essa árvore fica — disse Beatriz, com uma firmeza que não permitia debate.
— Não sugeri que não ficasse — disse Tomás.
— Eu sei. Estou me adiantando.
— Isso parece ser um padrão.
Beatriz apertou os lábios. Respirou. Contou até cinco. Chegou até o três e desistiu.
— Sabe de uma coisa? Eu vou voltar pro meu quarto, vestir uma roupa que não tenha frutas estampadas, e quando descer a gente vai ter uma conversa profissional sobre como dividir esse projeto sem que ninguém saia com marcas de lápis no corpo. Tudo bem pra você?
— Perfeitamente — disse Tomás.
— Ótimo.
— Ótimo.
Beatriz virou-se e subiu as escadas. No meio do caminho, ouviu Benedita dizer a Tomás, em voz que não era nem um pouco baixa:
— Ela é boa, Tomás. Muito boa. E o pijama era simpático.
Beatriz não ouviu a resposta dele. Mas quando chegou ao quarto e sentou na cama — que rangeu como se risse dela — percebeu que as mãos tremiam. Não de raiva, exatamente. De algo mais complicado. Algo que tinha a ver com ser subestimada por alguém que ela não conhecia, num país que ela não escolheu, usando um pijama que ela deveria ter deixado no Brasil.
Pessoa apareceu na porta, olhou para ela com aqueles olhos grandes e amarelos, e subiu no colo sem ser convidado.
— Ele é horrível, Pessoa — disse Beatriz, enterrando os dedos no pelo cinza do gato. — Horrível e engomado e provavelmente dobra as cuecas em retângulos perfeitos.
Pessoa ronronou, o que poderia significar concordância ou julgamento ou simplesmente que gostava de ser coçado atrás das orelhas. Beatriz decidiu interpretar como solidariedade.
Lá embaixo, na cozinha, Tomás Oliveira guardava a caderneta na pasta de couro e pensava, com uma irritação que não sabia bem onde colocar, que a mulher de pijama de abacaxis tinha um ponto sobre a luz do segundo andar. O veludo era absurdo, evidentemente. Mas a luz — a luz ela tinha visto primeiro.
E isso, por algum motivo que ele se recusava a examinar, o incomodava mais do que qualquer pijama com frutas tropicais.