LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
A Jogadora
Três dias de aula e eu já tenho um mapa.
Não um mapa de campus — esse qualquer calouro tem. Eu tenho um mapa de gente. Um inventário completo da minha turma de Direito, compilado com a mesma precisão que outras pessoas dedicam a planilhas de Excel ou coleções de selo. Trinta e oito alunos. Vinte e seis homens, doze mulheres. Quatro bolsistas — eu inclusive, embora ninguém saiba. Pelo menos doze com sobrenome que aparece em lista de maiores fortunas do Brasil.
Eu catálogo tudo.
É um hábito que começou cedo. Quando eu tinha dez anos e ficava na cozinha das casas que minha mãe limpava, eu não ficava parada. Eu observava. Como a patroa segurava a taça de vinho — pela haste, nunca pelo bojo, o indicador relaxado, como se a taça fosse uma extensão do corpo. Como o patrão falava no celular — nunca gritava, nunca se repetia, cada frase tinha a certeza de que seria obedecida. Como os filhos pediam coisas sem dizer "por favor" — não por grosseria, mas porque o mundo já estava dizendo sim antes de eles abrirem a boca.
Eu anotava tudo num caderno de escola, com capa de plástico azul. Minha mãe achava que eu estava fazendo dever de casa. Eu estava, de certa forma. Estava aprendendo a matéria mais importante que existe: como ser outra pessoa.
Agora, sentada na terceira fileira do lado esquerdo do anfiteatro — sempre a terceira, porque a primeira é de quem quer aparecer e a última é de quem quer sumir, e eu preciso ser memorável sem ser espetacular — eu atualizo meu inventário mental.
Bia está ao meu lado, como tem estado desde o primeiro dia. Ela é minha tradutora involuntária para esse mundo. Cada vez que faz um comentário casual, me entrega uma informação: "Esse restaurante é insuportável desde que reformou" me diz que ela frequenta os mesmos lugares há anos; "Minha mãe quer que eu faça intercâmbio em Coimbra, mas eu prefiro Paris" me diz que a questão nunca é se vai, mas para onde; "Esse professor é amigo do meu tio" me diz que a GV para eles não é conquista — é continuidade.
Eu sorrio, concordo, ofereço reações calibradas. Um "sério?" quando ela conta algo que deveria me surpreender. Um "que demais" quando ela descreve algo que deveria me impressionar. Nunca demais, nunca de menos. O termostato social perfeito.
Mas hoje tem coisa nova no catálogo.
* * *
A aula de Introdução ao Direito é com o professor Marcos Quintela, que entra na sala como se estivesse entrando num palco. Quarenta e oito anos, grisalho nos lados, óculos redondos que parecem deliberados demais para serem acidentais. Fala com a dicção de quem cresceu lendo em voz alta e nunca parou.
— O Direito — ele começa, sem cumprimento, sem apresentação — é a linguagem do poder. Quem domina a linguagem, domina o poder. Simples assim.
Eu gosto dele imediatamente. Não porque é simpático — não é. Porque é direto. E porque disse em voz alta o que eu sei desde os doze anos.
— Quero que cada um se apresente. Nome, de onde vem, por que escolheu Direito.
O sangue gela. Não visivelmente — eu aprendi a controlar isso, a manter a expressão neutra, os ombros relaxados, como se fosse apenas mais uma formalidade. Mas por dentro, o mapeamento de emergência está ativado: o que dizer, como dizer, quanto revelar.
Bia vai primeiro. "Beatriz Kawamoto, Jardins, quero trabalhar com Direito Internacional porque acho que o Brasil precisa se inserir melhor no cenário global." Aplausos polidos. Seguro.
Os outros seguem. Pinheiros, Moema, Vila Nova Conceição, Higienópolis. Os bairros circulam como senha de acesso a um clube fechado. Dois dizem "interior de São Paulo" — Ribeirão Preto e Campinas, que no vocabulário dessa gente é "interior" mas tem shopping, heliponto e condomínio com campo de golfe.
Minha vez.
— Renata Oliveira. Pinheiros. — A mentira, já rodada, sai como verdade. — Escolhi Direito porque quero entender as regras do jogo.
Quintela levanta uma sobrancelha. Não sei se é aprovação ou desconfiança. Ele anota algo.
— As regras do jogo — repete, como se mastigasse a frase. — Interessante escolha de palavras, senhorita Oliveira.
Sigo em frente. O coração desacelera. A mentira passou. Passa sempre, se você a diz com a mesma naturalidade com que diz bom dia.
* * *
Na saída da aula, começo a catalogar o que importa.
O processo é metódico. Eu abro o bloco de notas do celular e digito rápido, com o polegar, enquanto ando pelo corredor que cheira a piso encerado e ambição:
"INVENTÁRIO — TURMA DIR 2026.1"
"Pedro Augusto Lacerda — pai: desembargador TJSP. Rolex no pulso, mas discreto. Fala pouco, olha muito. Perigoso: percebe coisas."
"Fernanda Prado-Whitaker — duplo sobrenome que vale mais que meu CEP inteiro. Voz anasalada. Trata a GV como extensão do colégio Dante. Irrelevante no momento."
"Bia Kawamoto — pai importador, mãe dermatologista. Rica mas não herdeira de império. Social, generosa, sem malícia. Utilidade: altíssima. Porta de entrada para todos os eventos."
"Lucas Ferreira — bolsista. Certeza: 95%. Sinais: mochila simples (Convoy, não Herschel), tênis Olympikus desgastado no calcanhar, come na cantina subsidiada, verificou preço do café antes de pedir. Potencial aliado ou potencial perigo. Observar."
Paro na descrição de Lucas. Há algo nele que me incomoda — um reconhecimento involuntário, como quando você vê alguém usando o mesmo disfarce que você num baile de máscaras.
Ele estava sentado na última fileira. Quando Quintela pediu as apresentações, ele disse "Lucas Ferreira, zona sul, quero fazer Direito Penal". Zona sul. Não disse o bairro. Eu não disse o verdadeiro, ele não disse nenhum. Dois tipos diferentes de omissão — a minha é mentira ativa, a dele é silêncio estratégico.
Mas tem mais. Quando eu disse "Pinheiros", os olhos dele se moveram meio milímetro. Não para mim — para as minhas mãos. Eu estava segurando a alça da mochila, e as unhas estavam roídas de um jeito que nenhuma menina de Pinheiros teria. Percebi. Percebi que ele percebeu. E aquilo me gelou como o ar-condicionado não consegue.
Lucas Ferreira é um problema que eu preciso resolver antes que se torne uma ameaça.
* * *
Depois da aula, Bia me arrasta para a cantina.
A cantina da GV é um exercício de ironia social. Tem opção subsidiada para bolsistas — salada e prato do dia por oito reais — e tem a parte paga: poké bowl, wrap integral, suco de dezesseis reais com gengibre e cúrcuma, como se alimentação fosse uma experiência espiritual.
Bia pede o poké sem olhar o preço. Eu pego a salada subsidiada, mas digo: "To querendo comer leve hoje." A justificativa preventiva. Sempre ter uma pronta.
Sentamos numa mesa perto da janela. Sol de fevereiro entrando de viés, aquecendo o lado esquerdo do rosto. O ar-condicionado compete com o sol — um empurra calor, o outro puxa frio, e minha pele fica confusa, como eu.
— Então — Bia começa, enfiando o garfo num pedaço de atum como se ele tivesse feito algo errado. — Você viu o Pedro Lacerda? Ele é fofo.
— Ele parece o tipo que usa a palavra "praxe" sem ironia.
Bia ri. Alto, sem filtro, jogando a cabeça pra trás. Eu gosto do som, mesmo sabendo que não devia gostar de nada que me distraia.
— E aquele loiro de óculos, o Gabriel? Você viu?
Gabriel.
— Acho que não reparei.
Mentira. Eu reparei em todo mundo. Mas Gabriel Monteiro ainda não apareceu no meu radar principal porque, nos três primeiros dias, ele mal esteve presente. Chegou atrasado no segundo dia — cabelo bagunçado, camiseta lisa, sem a aura de herdeiro que os outros carregam como perfume — e saiu antes do final. No terceiro, não apareceu.
— O sobrenome dele é Monteiro — Bia diz, baixando a voz como quem conta segredo em missa. — Grupo Monteiro. Agronegócio. Tipo, bilhões.
Bilhões.
A palavra entra e se instala num lugar específico do meu cérebro — o lugar que não é coração nem consciência, é cálculo. Grupo Monteiro. Eu conheço. Não pessoalmente, obviamente, mas pelo noticiário, pelas revistas que eu lia na sala de espera do posto de saúde enquanto minha mãe esperava consulta: "Henrique Monteiro: o rei da soja que conquistou Wall Street." "Família Monteiro doa ala hospitalar em Ribeirão Preto."
Dois filhos. Gustavo, o mais velho, já na empresa. Gabriel, o mais novo, o que está aqui.
— Bilhões? — digo, com um tom que calcula exatamente entre impressionada e indiferente.
— Meu pai fez negócio com o pai dele uma vez. Gente séria. E o Gabriel parece tipo... normal? Sei lá, ele não tem cara de bilionário.
— Tem cara de quê?
— De quem não dormiu.
Eu guardo essa informação. Gabriel Monteiro. Herdeiro. Não ostenta. Parece cansado. Não se esforça para pertencer a um lugar que já é dele.
Anotar depois.
* * *
À noite, no ônibus de volta — lotado, quente, o motorista dirigindo como se tivesse raiva pessoal do trânsito —, eu abro o bloco de notas de novo e adiciono:
"Gabriel Monteiro — Grupo Monteiro. Agronegócio. Segundo filho. Aparência desleixada, não estratégica. Ausências em aula: desinteresse ou privilégio? Investigar. Potencial: MÁXIMO."
Depois deleto. É perigoso ter isso escrito, mesmo no celular.
Eu guardo na cabeça. Onde é seguro. Onde ninguém vasculha.
O ônibus sacoleja. Um homem ao meu lado dorme com a boca aberta, roncando num ritmo que quase vira música. Pela janela, São Paulo passa — os prédios vão encolhendo, as luzes vão rareando, as calçadas vão se quebrando. É como assistir a um time-lapse da desigualdade: conforme o ônibus avança para o leste, o mundo vai ficando mais escuro, mais barulhento, mais real.
Penso em Bia. Nas mãos dela — macias, hidratadas, unhas feitas. Nas minhas — secas, roídas, com um calo do lápis que nunca sara. Penso nos nomes que anotei, nos sobrenomes que pesam mais que diplomas, nas roupas que custam mais que o salário trimestral da minha mãe.
Penso em Gabriel Monteiro, que tem cara de quem não dormiu.
Eu também não durmo. Mas por motivos diferentes.
* * *
Em casa, encontro a Jéssica acordada na cozinha, fazendo lição na mesa de plástico.
— A mãe já dormiu? — pergunto.
— Tomou remédio pra dor e capotou. — Jéssica levanta os olhos do caderno. Dezesseis anos, rosto redondo, olhos que ainda têm alguma coisa que os meus perderam — talvez esperança, talvez só juventude. — Como é lá?
— É bom.
— Bom como?
— Bom tipo... diferente.
— Diferente como?
Jéssica é assim. Pergunta até encontrar a verdade que você está escondendo. É irritante e é a coisa que mais amo nela.
— As cadeiras são acolchoadas — digo, porque isso é um fato inofensivo.
— Jura? — Ela arruma a cara como se eu tivesse dito que a faculdade tem piscina de ouro. — As nossas são de plástico e uma tá quebrada. O Juninho senta nela de propósito pra cair e fazer graça.
Eu rio. De verdade, sem calibrar, sem medir. O tipo de riso que só sai dentro dessa casa, nessa cozinha, com cheiro de arroz requentado e paredes que eu conheço cada rachadura.
— Vai ter gente rica? — Jéssica pergunta, voltando pro caderno, fingindo indiferença.
— Muita.
— Tipo rica de carro importado?
— Tipo rica de motorista com carro importado.
Ela assobia baixo. Depois me olha com aqueles olhos que são os da minha mãe, mas sem o cansaço.
— Você vai ser amiga deles?
Amiga. A palavra me atinge de um jeito que não espero. Porque amizade implica reciprocidade, e eu não estou oferecendo reciprocidade a ninguém. Eu estou oferecendo uma performance.
— Vou fazer contatos — digo, e a palavra soa tão corporativa que até eu faço careta.
— Tá, executiva — Jéssica revira os olhos. — Boa noite, doutora.
— Boa noite, pirralha.
Ela sorri. Eu sorrio. E por cinco segundos, eu não sou a jogadora, não sou a bolsista infiltrada, não sou a menina que mente sobre o próprio CEP. Sou a irmã mais velha da Jéssica, na cozinha que cheira a gás e café velho, num apartamento de Cidade Tiradentes onde as paredes são finas o suficiente para ouvir a vizinha rezando o terço.
Depois os cinco segundos acabam. E eu vou pro banheiro atualizar o inventário.
* * *
No espelho, faço a avaliação do dia.
O cabelo: preciso de progressiva. A chapinha não aguenta o percurso. Preciso pesquisar preço — o mais barato que encontrar, porque o salário do café que começo semana que vem vai inteiro pra contribuir com as contas.
A roupa: tenho três combinações apresentáveis. Preciso de mais duas. Brechó da Augusta, sábado. Com sorte, encontro algo que pareça propositalmente vintage em vez de necessariamente usado.
A pele: protetor solar. Não tenho. Preciso. Todo mundo na GV tem aquela pele de quem usa protetor desde bebê — lisa, uniforme, sem a marca de sol desigual de quem anda quarenta minutos por dia em calçada sem sombra.
As mãos: parar de roer unha. A partir de agora. Lucas Ferreira olhou para as minhas mãos e viu algo que não devia ver. As mãos me entregam.
O sorriso: está funcionando. O número dois — simpático, aberto — está calibrado. Preciso desenvolver o número três: empático, com leve inclinação de cabeça, para momentos em que alguém compartilha algo pessoal. E o número cinco: interessada, levemente curiosa, para quando alguém falar sobre si mesmo. Pessoas adoram quem se interessa por elas. É o investimento mais barato que existe.
Fecho os olhos. A luz fluorescente do banheiro zumbe. Do outro lado da parede, o vizinho colocou funk de novo — o grave treme o espelho, e meu reflexo vibra, como se até ele soubesse que não é estável.
Amanhã, dia quatro. Mais treze minutos antes das quatro. Mais três horas de ônibus. Mais um dia de performance impecável no palco da Faria Lima.
E em algum momento, eu preciso ver de perto o garoto que tem cara de quem não dormiu e um sobrenome que vale bilhões.
Porque se o mapa está certo — e meus mapas estão sempre certos — Gabriel Monteiro é a peça que falta no tabuleiro.
E eu não jogo pra perder.