LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
A Cidade Quieta
Capítulo 2 — O Verão
O verão de 2011 chegou como uma febre. O calor grudava na pele, subia do asfalto em ondas trêmulas e fazia as cigarras gritarem tão alto que Helena às vezes achava que ia enlouquecer. Mas era um tipo bom de loucura — o tipo que faz o corpo inteiro vibrar com a sensação de estar viva, de ter quinze anos e nenhuma pressa de ser outra coisa.
Hollow Creek ficava bonita no verão. As montanhas ao redor se enchiam de um verde tão intenso que parecia pintado, e o céu se abria largo e azul acima das Blue Ridge como se quisesse engolir tudo. Helena pedalava pela estrada de terra que levava ao lago com o vento quente no rosto e o cheiro de madressilva entrando pelas narinas, e sentia que o mundo cabia ali, naqueles quilômetros de floresta e água parada.
Marta não gostava que ela fosse sozinha.
— Leva o celular — dizia toda vez, em português, porque em casa sempre era português. — E não volta tarde.
Helena revirava os olhos, mas levava. O celular ficava no bolso do short o dia inteiro, quente como um pedaço de brasa, e ela nunca ligava para ninguém. Não precisava. O grupo já estaria lá.
***
O lago de Hollow Creek não tinha nome oficial. Nos mapas antigos aparecia como Miller's Pond, mas ninguém chamava assim. Era só "o lago" — uma extensão de água escura cercada de pinheiros e carvalhos, com um trapiche de madeira podre onde os adolescentes da cidade se jogavam nos dias quentes. E naquele verão, todos os dias eram quentes.
Helena chegou e encontrou Drew já esticado no trapiche, de barriga para cima, o boné cobrindo o rosto. Ele não se mexeu quando ela encostou a bicicleta num tronco e caminhou até a beira.
— Morreu? — ela perguntou.
Drew levantou o boné com um dedo.
— Quase. Trinta e oito graus. Isso é desumano.
— Trinta e oito é terça-feira em Belo Horizonte — Helena disse, sentando ao lado dele e tirando as sandálias.
— Belo Horizonte fica no inferno?
— Mais ou menos.
Drew riu, aquela risada fácil que ele tinha para tudo. Era o mais tranquilo do grupo — nunca brigava, nunca reclamava de verdade, nunca forçava nada. Helena gostava dele por isso. Drew era como o trapiche: sempre ali, firme apesar de meio torto.
Ela mergulhou os pés na água e sentiu o frescor subir pelas pernas como um alívio. O lago tinha aquele cheiro particular de lodo e folhas molhadas que ela associava a cada verão desde que se lembrava. O fundo era lamacento, escuro, e Marta tinha pavor de que houvesse cobras. Mas Helena já tinha nadado ali centenas de vezes e nunca vira nada além de peixes pequenos e latas de cerveja enferrujadas.
— Cadê todo mundo? — perguntou.
— Nina foi buscar gelo no posto. Tommy disse que vinha depois do treino. E Lily... — Drew deu de ombros. — Lily chega quando quer.
Isso era verdade. Lily Whitmore tinha um talento para aparecer no momento exato em que a falta dela começava a se fazer sentir, como se cronometrasse a própria ausência para que o efeito fosse maior. Helena ainda não tinha vocabulário para isso aos quinze anos — não sabia palavras como "manipulação" ou "controle" —, mas sentia. Sentia como uma pressão leve no peito, uma atenção que ficava o tempo todo dividida entre o que estava acontecendo e o que ia acontecer quando Lily chegasse.
***
Nina apareceu primeiro. Veio pelo caminho de cima, carregando uma sacola de gelo que já pingava, os cabelos pretos lisos colados na testa.
— Peguei cereja também — disse, largando a sacola no trapiche.
— Cereja? — Drew se sentou. — De verdade?
— O senhor Park recebeu uma caixa do fornecedor errado. Meu pai mandou eu sumir com elas antes que ele percebesse.
Nina falava assim — pouco, direto, sem enfeite. Era a mais velha do grupo depois de Tommy, mas parecia mais velha ainda, como se carregasse uma sabedoria que não combinava com dezessete anos. Helena às vezes a pegava observando os outros com aquele olhar quieto e atento, e tinha a impressão de que Nina via coisas que ninguém mais via.
Eles dividiram as cerejas sentados na beira do trapiche, cuspindo os caroços na água e vendo os círculos se abrirem na superfície. O sol estava a pino e Helena sentia a pele dos ombros queimando, mas não queria se mover. Havia algo perfeito demais naquele momento para estragar com protetor solar.
— Vocês acham que Hollow Creek muda? — Helena perguntou de repente, sem saber exatamente de onde a pergunta veio.
Drew e Nina se olharam.
— Muda como? — Drew perguntou.
— Sei lá. Muda. Fica diferente. A gente cresce e as coisas ficam... outras.
Nina cuspiu um caroço de cereja com precisão cirúrgica. Ele acertou a água a uns três metros de distância.
— Hollow Creek nunca muda — ela disse. — São as pessoas que mudam.
Helena quis perguntar mais, mas ouviu o barulho de uma caminhonete na estrada de cima e soube, antes mesmo de olhar, que era Tommy. A Ford velha do pai dele fazia um ronco asmático que dava para ouvir de longe.
***
Tommy Vance desceu a trilha com o cabelo ainda molhado do chuveiro pós-treino, a camiseta do time de basquete grudada no peito. Ele era bonito de um jeito que Helena achava quase injusto — o tipo de bonito que faz as pessoas pararem de falar quando ele entra num lugar. Mas Tommy não parecia saber disso, ou pelo menos fingia muito bem não saber, e isso o tornava ainda pior.
— Trouxe refrigerante — ele disse, levantando um pacote de latas. — Quente, mas trouxe.
— Joga no gelo — Nina apontou para a sacola.
Tommy enfiou as latas no gelo derretido e se jogou no trapiche ao lado de Drew. A madeira rangeu.
— Um dia isso desaba — Drew comentou.
— Aí a gente nada — Tommy respondeu.
Helena riu, e Tommy olhou para ela com aquele sorriso largo e fácil que ele dava para todo mundo. Não significava nada. Ela sabia que não significava nada. Mas o estômago dela não sabia, e deu aquela cambalhota idiota que dava toda vez que Tommy Vance sorria na direção dela.
Ela desviou o olhar para o lago e fingiu que estava observando um pássaro.
***
Lily chegou quando o sol já começava a descer atrás das montanhas e a luz ficava dourada e espessa como mel. Veio pelo caminho de baixo, o que significava que tinha vindo a pé, o que significava que queria ser vista chegando.
E era impossível não ver.
Lily Whitmore aos dezesseis anos era o tipo de garota que parecia ter sido desenhada por alguém que entendia exatamente o que beleza faz com as pessoas ao redor. Cabelo loiro que brilhava mesmo na sombra, olhos de um azul tão claro que parecia transparente, corpo que já era de mulher quando o de Helena ainda estava decidindo o que queria ser. Mas não era só isso. Havia algo na maneira como Lily se movia, como inclinava a cabeça, como escolhia exatamente para quem olhar e por quanto tempo — algo que prendia a atenção e não soltava.
Helena a admirava com a mesma intensidade com que a invejava, e a mistura das duas coisas produzia um sentimento complicado que ela não sabia onde guardar.
— Achei que você não vinha — Drew disse.
— E perder o último sábado decente antes do calor ficar insuportável? — Lily sorriu e se sentou entre Helena e Nina, cruzando as pernas longas. Cheirava a protetor solar e algo floral que Helena não reconhecia. — Oi, Lena.
Só Lily a chamava de Lena. Helena não sabia se gostava ou não, mas nunca tinha pedido para parar.
— Oi.
— Você pegou sol. Está com o nariz vermelho.
Helena levou a mão ao nariz automaticamente, e Lily riu — uma risada musical, sem maldade aparente, mas que fez Helena se sentir pequena mesmo assim.
— Fica bonito — Lily completou, e o mundo se reequilibrou.
Era sempre assim com ela. Um empurrão e um abraço. Uma alfinetada seguida de um elogio. Helena ficava tonta tentando acompanhar, e achava que a tontura era amizade.
***
Eles nadaram até o sol sumir atrás das Blue Ridge e o céu ficar daquele roxo profundo que só existe em noites de verão nas montanhas. A água estava morna na superfície e gelada embaixo, e Helena mergulhava fundo só para sentir a diferença, o corpo cortando as duas temperaturas como uma linha entre dois mundos.
Tommy fazia competição de mergulho com Drew — quem ficava mais tempo embaixo. Nina ficava na beira, os pés na água, lendo um livro que já estava todo manchado de respingos. E Lily flutuava de costas no meio do lago com os braços abertos e os olhos fechados, bonita como uma pintura, e Helena nadava ao redor dela como um satélite ao redor do sol.
Em algum momento, Lily abriu os olhos e olhou direto para Helena.
— Esse vai ser o melhor verão — ela disse. Não como uma esperança. Como um decreto.
Helena acreditou. Porque Lily tinha aquele poder — de dizer as coisas e fazer com que parecessem inevitáveis.
— O melhor — Helena repetiu, sorrindo.
Lily estendeu a mão na água e Helena segurou. Ficaram assim, flutuando lado a lado, os dedos entrelaçados, enquanto as estrelas começavam a aparecer uma a uma como furos na escuridão. Os grilos cantavam na margem. O ar cheirava a pinheiro e verão e a sensação quente de pertencer a algum lugar.
Helena fechou os olhos e pensou que poderia morrer ali e estaria tudo bem.
Tinha quinze anos. Não sabia que felicidade daquele tamanho é sempre um aviso.
***
Na volta para casa, Helena pedalou devagar pela estrada escura. As montanhas eram sombras enormes contra o céu estrelado, e o único som era o ranger da corrente da bicicleta e o canto intermitente dos sapos na valeta. O ar tinha esfriado o suficiente para arrepiar a pele molhada, e ela pedalava sorrindo sem motivo, cheia daquela energia elétrica que só existe quando se é jovem demais para saber que tudo acaba.
Quando chegou em casa, Marta estava na cozinha, lavando louça.
— Se divertiu? — perguntou em português, sem se virar.
— Muito.
— Comeu alguma coisa?
— Cereja.
— Helena.
— Vou fazer um sanduíche, mãe.
Helena subiu as escadas correndo, tomou um banho rápido e se jogou na cama com o cabelo pingando no travesseiro. O quarto cheirava a madeira velha e ao amaciante de lavanda que Marta usava nos lençóis. Pela janela aberta, entrava o som da floresta — aquele murmúrio constante de insetos e vento que era a trilha sonora de Hollow Creek.
Ela pegou o celular. Tinha uma mensagem de Lily no grupo.
"Fogueira no lago sexta. Todo mundo vai."
Helena sorriu para a tela brilhante.
Não sabia — não tinha como saber — que aquele verão de 2011 era o último em que as coisas seriam simples. Que em algum lugar entre as fogueiras e os mergulhos e as cerejas roubadas, algo estava se formando como uma tempestade atrás das montanhas. Algo que mudaria tudo.
Mas naquela noite, deitada na cama com o corpo cansado de sol e água, Helena Moraes tinha quinze anos e acreditava em verões infinitos.
E lá fora, as Blue Ridge guardavam seus segredos em silêncio.