LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 2
A Amante Comprada
MARCO
O corredor do palazzo veneziano cheirava a lírio e mentira.
Marco Valenti caminhou até o final sem olhar para trás. Os sapatos não faziam barulho — nunca faziam, hábito antigo, treinado desde que o pai o ensinou que um Valenti entra e sai dos lugares sem que ninguém perceba até que seja tarde demais. No bolso esquerdo do paletó, o celular vibrava. Gianna. Ignorou. No bolso direito, nada. Marco detestava carregar coisas — peso era para os que não tinham quem carregasse por eles.
Empurrou a porta que dava para o pátio interno. O ar de Veneza entrou como punho frio — sal, lodo, madeira úmida, o perfume podre e belo de uma cidade construída sobre o que deveria tê-la engolido. Tirou o paletó. Dobrou sobre o braço com a precisão de quem organiza gestos como outros organizam planilhas. O canal abaixo refletia a lua partida em pedaços — prata irregular, trêmula, como espelho quebrado.
Chiara teria dito que era bonito.
A ideia chegou sem aviso, como sempre chegava — facada entre as costelas que não sangrava para fora, só por dentro. Chiara teria parado ali, apoiado os cotovelos na mureta, inclinado a cabeça para a direita do jeito que fazia quando algo a encantava, e dito algo sobre a lua e a água. Algo delicado. Algo que Marco não sabia formular porque delicadeza era um idioma que ele tinha desaprendido há dois anos, quarenta e sete dias e aproximadamente quatorze horas.
Desabotoou o botão do punho esquerdo. Reabotoou.
Duzentos mil euros. Tinha pago duzentos mil euros por uma desconhecida num leilão que só frequentara porque Tommaso insistira — "Você precisa sair daquele mausoléu, fratello, antes de virar parte da mobília" — e porque havia um contato dos Ferrante que supostamente estaria presente, alguém que Gianna queria identificar. Trabalho, não lazer. Marco não fazia lazer.
E então ela subiu ao palco.
§
Duas horas antes, o salão ainda estava se enchendo quando Marco ocupou a última fileira. Preferência por entradas e saídas discretas. Preferência por sombras. Gianna ficou na porta lateral, bluetooth no ouvido, mão perto do quadril onde a Beretta descansava sob o blazer de corte masculino que ela usava como uniforme. Tommaso estava em algum lugar na segunda fileira, provavelmente já bêbado, provavelmente já flertando com algo que respirasse.
Marco não pretendia ficar. Três mulheres subiram, três mulheres desceram, compradas por homens que ele conhecia de reuniões em Milão e jantares em que todos fingiam que o dinheiro vinha de onde os relatórios diziam. Observou os rostos no salão, procurou o contato dos Ferrante, não encontrou. Fez sinal a Gianna: cinco minutos e saímos.
Então o leiloeiro anunciou o número quatro.
Ela subiu devagar. Os saltos eram apertados — Marco notou pela maneira como distribuía o peso, recalculando cada passo. Profissional teria subido sem hesitar. Essa mulher subia como quem mede o abismo. Luz no rosto. Ombros abertos, queixo erguido — postura que não era de modelo nem de acompanhante. Era de musicista. Alguém treinada para enfrentar uma plateia e transformar medo em arte.
A luz bateu nela e o mundo se desfez.
Marco sentiu o pulmão esvaziar como se alguém tivesse arrancado o ar da sala com as mãos. Não era semelhança. Semelhança era o que se dizia de primas, de irmãs, de mulheres que compartilhavam um traço ou dois. Aquilo era outra coisa. Aquilo era Chiara devolvida por algum deus sádico que decidira provar que o inferno não era fogo — era repetição.
Os mesmos olhos escuros, quase pretos, com aquela profundidade que parecia guardar mais do que mostrava. A mesma linha do maxilar — precisa, angulosa, o tipo de rosto que não era bonito no sentido óbvio mas que, uma vez visto, era impossível esquecer. A mesma boca. A mesma inclinação leve da cabeça.
Mas não era Chiara.
Marco sabia porque o corpo sabia. Chiara era contenção — movimentos pequenos, voz baixa, a elegância quieta de quem fora criada para não incomodar. Essa mulher era diferente. Os dedos tamborilavam contra a coxa numa sequência que tinha ritmo, tinha intenção. Os olhos não se baixaram diante da luz — enfrentaram. E a postura, apesar do medo visível nas mãos, era de alguém que já estivera em palcos antes. Não como produto. Como artista.
Vinte e sete anos. Brasileira. Musicista.
Marco ouviu o leiloeiro como quem ouve ruído de fundo enquanto a verdade se monta devagar no centro do crânio. Ele já conhecia aquele rosto. Não do palco — de antes.
Três meses antes, numa noite de insônia em que vasculhava registros do Conservatório Giuseppe Verdi por razões que não admitiria a nenhum ser vivo, tinha encontrado um vídeo. Um recital de câmara. Segundo violoncelo. Uma brasileira que tocava como se o instrumento fosse extensão do sistema nervoso, e que, num close da câmera durante o adagio, tinha feito Marco derrubar o copo de whisky.
O rosto de Chiara num corpo que não era de Chiara. Tocando o instrumento que Chiara tentava aprender. Na cidade onde Chiara tinha morrido.
Marco fizera o que Marco fazia: investigou. Dossiê completo em setenta e duas horas. Helena Matos. Belo Horizonte. Bolsa cortada. Mãe doente. Visto irregular. Dívidas. A espiral descendente de uma vida que estava desmoronando com a eficiência silenciosa de uma demolição controlada.
Ele sabia que ela estaria no leilão. Porque ele garantira que estaria.
O intermediário recebeu instruções precisas: apresentar a Helena Matos a oportunidade. Sem pressão. Sem ameaça. Apenas garantir que ela soubesse da existência do evento. O desespero faria o resto. Marco conhecia o desespero — era o combustível mais confiável da economia que sustentava metade da Europa.
E ali estava ela. No palco. Com os dedos tocando uma melodia invisível contra a coxa e os olhos enfrentando a luz como quem enfrenta um pelotão.
Os lances começaram. Vinte mil. Trinta. Quarenta. Cada número era uma mão estendida na direção dela, e Marco sentiu algo que não sentia há dois anos: urgência. Não sexual — existencial. A necessidade primordial, irracional, indefensável de impedir que qualquer um daqueles homens levasse embora o rosto que ele passava as noites tentando lembrar e as manhãs tentando esquecer.
Levantou a mão.
— Duzentos mil euros — disse o leiloeiro, e a voz dele quebrou como galho seco.
O silêncio que se seguiu foi a coisa mais satisfatória que Marco sentira em dois anos. Não porque gostasse de poder — gostava, mas da maneira como um cirurgião gosta do bisturi: ferramenta, não fetiche. Mas porque o silêncio significava que ninguém ousaria competir. E ninguém competir significava que ela era dele.
Dele. A palavra ecoou com o peso de uma sentença e o formato de uma blasfêmia. Dele como Chiara fora dele — até não ser mais, até um carro explodir numa estrada da Sicília numa noite de maio e transformar "per sempre" em piada cósmica.
Martelo. Vendida.
Marco ficou sentado enquanto o leilão continuava. Número cinco, número seis. Não registrou. Tommaso apareceu ao lado, uísque na mão, o sorriso de quem não entende nada e acha que entende tudo.
— Duzentos mil, fratello? Quem é ela?
— Ninguém.
— Duzentos mil por ninguém. — Tommaso bebeu. — Até pra um Valenti isso é exagero.
Marco não respondeu. Levantou-se, ajustou o paletó, e caminhou para os bastidores. A mulher de preto com prancheta o recebeu com o servilismo calibrado de quem já entendeu a hierarquia.
— Suite del Doge, dottore. A entrega será imediata?
Entrega. Como se fosse vinho. Como se fosse mobília. Como se fosse algo que se desembrulha e se coloca no lugar certo e se usa e se descarta.
— Sim — disse Marco. E sentiu nojo de si mesmo com a mesma naturalidade com que sentia frio.
§
Esperou no corredor. Não no quarto — no corredor, porque entrar antes dela significava esperar sentado, e esperar sentado significava pensar, e pensar significava Chiara. Chiara rindo na cozinha do apartamento em Milão, farinha no nariz, tentando fazer focaccia com uma receita do YouTube. Chiara ao piano — não violoncelo, piano, mas estava aprendendo violoncelo, tinha acabado de começar, os dedos ainda desajeitados, e Marco comprara o instrumento mais caro que encontrou porque era assim que demonstrava amor: comprando coisas para quem não pedia nada.
Chiara no carro. O carro na estrada. A estrada na Sicília. A Sicília em chamas.
Fechou os olhos. Abriu. O corredor continuava ali. As velas continuavam queimando. O mundo continuava existindo, indiferente ao fato de que Marco Valenti não sabia mais por que existia junto.
A porta se abriu e a mulher de preto conduziu Helena — não, não Helena, a violoncellista, porque nomes eram perigosos, nomes criavam vínculos, e Marco não podia ter vínculos — até o quarto. A porta se fechou. Marco esperou trinta segundos. Sessenta. Dois minutos.
Entrou.
Ela estava no centro do quarto, braços cruzados, queixo erguido, e de perto a semelhança era ainda pior. Pior porque os detalhes que a câmera do recital não captava estavam todos ali: a textura da pele morena sob a luz das velas, o movimento dos dedos — aquela sequência rítmica que agora ele reconhecia como Bach — e o cheiro. Café. Resina de arco. Suor de medo que não era fraqueza, era biologia. E sob tudo isso, algo que Chiara não tinha: uma espécie de calor contido, como brasa coberta de cinza.
— Violoncellista — disse, e a palavra saiu como confissão.
Ela respondeu algo. Ele pediu que ficasse parada. Ele pediu que falasse. Ela falou — sobre Bach, sobre resina, sobre Milão — e Marco ouviu com a atenção de um homem que está tentando, com o desespero silencioso de quem se afoga em mar calmo, distinguir entre o fantasma e a mulher.
A voz era diferente. Chiara falava como quem pede desculpas por existir. Essa mulher falava como quem está montando um argumento, mesmo quando o assunto era música. A cadência do italiano era diferente — mais aberta, mais quente, com o sotaque brasileiro que transformava consoantes em algo que parecia um meio sorriso. E quando o português invadia — espontâneo, não performado — Marco sentiu algo se rasgar.
Porque Chiara não falava português. Chiara era florentina de adoção, italiana de criação, e a única palavra em outra língua que conhecia era "merci" porque passaram a lua-de-mel em Paris.
A violoncellista falava português como quem sangra. A língua escorria nos momentos de emoção, inconsciente, e cada palavra era a prova de que aquela mulher não era Chiara. Não era fantasma. Era algo que Marco não sabia como classificar — algo vivo, inconveniente, terrivelmente real.
Ela parou de falar. Ele se levantou. Caminhou até ela. De perto, viu que os olhos não eram iguais aos de Chiara — eram mais fundos, com uma camada de desafio que Chiara nunca teve. E a boca, de perto, era mais cheia. E as mãos tinham calos nos dedos da mão esquerda — violoncelo, cordas pressionadas milhares de vezes até que a pele endurece como armadura.
Chiara tinha mãos macias. Mãos de flor, como o pai dizia.
Essa mulher tinha mãos de guerra.
Marco ergueu a mão. Os dedos pararam a centímetros do rosto dela. Não tocou. Traçou o contorno do maxilar no ar — o mesmo gesto que fazia quando Chiara dormia e ele ficava acordado ao lado, memorizando o rosto dela como quem decora um mapa para caso se perca.
Percebeu que estava tremendo. Baixou a mão.
— Obrigado. Descanse. O quarto é seu até amanhã.
Saiu antes que ela pudesse ver o que estava acontecendo com seu rosto. No corredor, encostou a testa na parede de pedra fria. Fechou os olhos. A pedra cheirava a século e a umidade.
O celular vibrou. Gianna.
— Don Valenti. O contato dos Ferrante não apareceu. Falso alarme.
— Entendido.
— O senhor está bem?
Marco abriu os olhos. A parede de pedra estava ali. As velas queimavam. Veneza apodrecia em silêncio do lado de fora.
— Gianna.
— Senhor.
— A mulher que eu comprei. Helena Matos. Quero o dossiê completo atualizado na minha mesa amanhã.
Pausa. Gianna não julgava — não verbalmente. Mas o silêncio dela era uma forma de julgamento que Marco conhecia bem.
— Já tem o dossiê, dottore. Eu mesma montei há três meses.
— Atualize.
— Sim, senhor. Mais alguma coisa?
Marco pensou em Chiara. No riso dela na cozinha. No violoncelo que ela nunca chegou a aprender. No bilhete preso na geladeira com ímã de limão siciliano — "Comprei leite. Ti amo. C." — que ainda estava lá, dois anos depois, porque Marco não conseguia tirar e não conseguia explicar por quê.
Pensou na mulher no quarto. Nos dedos dela tocando Bach no ar. Na voz que mudava de idioma quando a emoção era grande demais para caber num só.
— Prepare o carro para Milão — disse. — E arrume a cobertura. O quarto de hóspedes.
Mais uma pausa. Mais um silêncio que pesava.
— Ela vai ficar, então.
Não era pergunta. Marco não respondeu como se fosse.
Desligou. Caminhou para a saída do palazzo. O ar de Veneza o recebeu com cheiro de canal e escuridão. Na água, a lua continuava partida.
Pensou: eu paguei duzentos mil euros por uma mulher que se parece com minha esposa morta. Isso me torna o quê? Louco? Desesperado? Perigoso?
E respondeu, a si mesmo, com a honestidade brutal que reservava para os pensamentos que nunca diria em voz alta:
Torna-me o que sempre fui. Um homem que não sabe amar sem possuir. Que não sabe perder sem destruir. Que não sabe ficar no escuro sem tentar comprar a luz.
O leiloeiro tinha perguntado se queria entrega imediata.
Marco queria algo que nenhum dinheiro comprava — e, pelo inferno, ia tentar mesmo assim.
Helena Matos seria levada a um quarto onde ele a esperaria. E ali, na fronteira entre o fantasma e a carne, Marco Valenti descobriria se ainda era capaz de olhar para alguém sem ver uma morta.
Ele já sabia a resposta.
Mas precisava, com a urgência de quem sufoca, que a resposta estivesse errada.