LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 1
O Refúgio
Capítulo 1 — A Chegada
O ônibus sacudiu pela última vez antes de parar, e Luísa Campos acordou com o rosto colado no vidro embaçado. Do lado de fora, o mundo era uma fotografia em tons de cinza e branco — a estepe patagônica se estendia até onde a vista alcançava, pontilhada de arbustos retorcidos pelo vento, coberta por uma camada fina de neve que parecia açúcar de confeiteiro sobre um bolo esquecido. O céu pesava baixo, denso, como se alguém tivesse estendido um cobertor de chumbo sobre a cordilheira.
Trinta e seis horas de viagem. São Paulo até Buenos Aires de avião, depois o voo menor até El Calafate, e dali o ônibus que cortava a Ruta 40 em direção a El Chaltén. Luísa sentia cada uma dessas horas nos ossos, nos ombros endurecidos, na boca seca com gosto de café requentado e biscoito de polvilho — o último pacote que trouxera de casa, como se precisasse de uma âncora comestível para não se dissolver completamente naquele fim de mundo.
O motorista gritou algo em espanhol que ela não entendeu direito. Algo sobre a parada ser rápida. Luísa puxou a mochila do colo, ajeitou o cachecol no pescoço e desceu os degraus do ônibus como quem desce para outro planeta.
O frio a acertou no rosto como um tapa. Não o frio educado do ar-condicionado de escritório que ela conhecia, nem o friozinho de junho em São Paulo que fazia as pessoas tirarem os casacos do armário com empolgação exagerada. Era um frio primitivo, honesto, que entrava pelas narinas e queimava os pulmões por dentro, que transformava cada respiração em uma pequena nuvem de vapor que se desfazia antes de alcançar o braço estendido.
Luísa sorriu pela primeira vez em semanas.
A vila de El Chaltén era menor do que as fotos sugeriam. Umas poucas ruas de terra batida, casas de madeira com telhados inclinados para a neve, uma loja de equipamentos de montanhismo com a vitrine empoeirada. No inverno, os turistas desapareciam, e o lugar voltava a ser o que sempre fora — um punhado de gente teimosa vivendo à sombra de montanhas que não se importavam com a presença humana.
Ariel, o caseiro que administrava o chalé pelo Airbnb, esperava encostado em uma caminhonete vermelha com mais ferrugem do que pintura. Era um homem baixo, de bigode espesso e olhos estreitos contra o vento, que falava um espanhol rápido e gesticulava como se as mãos fossem um idioma à parte. Luísa entendeu o essencial: o chalé ficava a vinte minutos dali por uma estrada de terra, havia lenha empilhada no lado de fora, o gás era de botijão, o sinal de celular era inexistente, e o Wi-Fi funcionava quando queria, que era quase nunca.
— Tiene que bajar la palanca del agua antes de dormir, si no se congela — disse Ariel, levantando o indicador como quem faz uma advertência sagrada.
Luísa assentiu, fingindo que tinha entendido a parte da alavanca da água.
A caminhonete chacoalhou pela estrada de cascalho entre cercas de arame farpado e campos vazios. A cada curva, as montanhas cresciam na frente do para-brisa — dentes de granito fincados na terra, cobertos de gelo, cortando o céu com uma brutalidade que não pedia licença. Luísa reconheceu o Cerro Torre pela silhueta que vira em dezenas de fotos: uma agulha de pedra envolta em nuvens, impossível e arrogante, como se tivesse sido posta ali apenas para lembrar aos humanos o tamanho de sua insignificância.
— Lindo — murmurou, mais para si mesma do que para Ariel.
— En invierno es más lindo todavía — ele respondeu, e havia algo de genuíno naquela declaração, uma ternura de quem ama uma coisa que sabe que pode machucá-lo.
***
O chalé era menor do que esperava. Muito menor.
Na foto do anúncio, parecia uma cabana charmosa de filme europeu, com lareira crepitando e luz dourada nas janelas. Na realidade, era uma caixa de madeira escura com duas janelas pequenas, um telhado de zinco que prometia transformar qualquer chuva em concerto de bateria, e uma porta que rangia como se estivesse reclamando de ser aberta.
Luísa arrastou a mala de rodinhas pela entrada — as rodinhas, naturalmente, emperraram na soleira — e parou no meio do único cômodo que era, ao mesmo tempo, sala, cozinha e quase quarto. Uma lareira de pedra ocupava a parede dos fundos. Um sofá-cama com estofado xadrez vermelho e branco. Uma mesa pequena com duas cadeiras. No canto, uma cozinha de bancada com fogão de duas bocas, uma pia e uma geladeira que zumbia com a determinação de quem já pensou em desistir várias vezes.
Uma porta estreita dava para o quarto — uma cama de casal que ocupava noventa por cento do espaço — e outra para o banheiro, onde o chuveiro era uma mangueira conectada a um aparelho que Luísa preferiu não examinar de perto.
— Bueno, aquí tiene todo — disse Ariel, abrindo os braços como se estivesse apresentando um palácio. Deixou as chaves sobre a mesa, explicou mais uma vez a questão da alavanca da água, apontou para a pilha de lenha do lado de fora e foi embora com um aceno e um buena suerte que soou sincero demais para ser casual.
O barulho da caminhonete se afastou pela estrada de cascalho. E então veio o silêncio.
Não o silêncio de São Paulo, que era apenas uma pausa entre buzinas. Não o silêncio do apartamento de Pinheiros, que sempre carregava o zumbido do elevador, o latido do cachorro do vizinho, a televisão abafada do andar de baixo. Era o silêncio como matéria — espesso, completo, um silêncio com peso e textura, interrompido apenas pelo vento que assobiava nos beirais e pelo estalar da madeira do telhado se acomodando no frio.
Luísa soltou a mala no chão. Tirou o casaco. Sentou na cadeira de madeira e ficou parada, as mãos sobre a mesa, olhando para o nada.
Estou aqui, pensou. Estou realmente aqui.
O alívio veio primeiro — uma onda morna que começou no peito e se espalhou para os braços, para as pontas dos dedos, para os olhos que arderam sem aviso. Depois veio o medo, rastejando atrás do alívio como uma sombra que não se desgruda. Três meses. Renata tinha sido clara na última ligação, com aquela voz que misturava carinho e ultimato como quem mistura café com veneno: se não houver manuscrito até abril, o contrato é rescindido, Luísa, e eu vou ter que oferecer a vaga na coleção para outra pessoa.
Três meses para escrever um livro inteiro. Ela, que não conseguia escrever uma frase inteira havia seis meses.
***
A lareira resistiu a todas as tentativas.
Luísa amassou jornal velho, empilhou gravetos finos sobre toras mais grossas, exatamente como o tutorial do YouTube tinha ensinado — assistido e reassistido no aeroporto de Guarulhos, quando ainda havia Wi-Fi. Acendeu o fósforo. O fósforo queimou seus dedos. Acendeu outro. O papel pegou fogo, brilhou bonito por três segundos, e apagou. A fumaça subiu densa e cinzenta, voltou pela chaminé e invadiu a sala como uma criatura ofendida.
Luísa tossiu, abriu a janela, abanou o ar com um pano de prato e xingou em português — um palavrão comprido e elaborado que a avó Conceição teria desaprovado com um beliscão no braço.
Na quarta tentativa, mudou a estratégia. Menos papel, mais gravetos, as toras menores por baixo. Soprou devagar, com paciência que não era sua, e uma chama vacilante pegou nos gravetos e, com a relutância de quem aceita um convite que preferia recusar, se alastrou para a lenha maior. O fogo estalou. O calor começou a se espalhar pela sala em ondas preguiçosas.
— Eu fiz fogo — disse Luísa para ninguém, com a satisfação desproporcional de quem acabou de escalar o Everest.
Com as mãos ainda cheirando a fumaça, preparou um chá com a chaleira que encontrou no armário. Chá de camomila, o único que trouxera, porque sua mãe insistira que camomila curava tudo — ansiedade, insônia, coração partido, bloqueio criativo, crise existencial. Luísa duvidava, mas o ritual de segurar a caneca quente entre as palmas tinha um efeito calmante que não precisava de comprovação científica.
Sentou-se à mesa. Abriu o laptop.
A tela brilhou no cômodo que escurecia, projetando uma luz azulada nas paredes de madeira. O documento em branco a encarou de volta — aquele retângulo branco, infinito, cruel, com o cursor piscando no canto superior esquerdo como um metrônomo medindo o tempo que ela desperdiçava.
Luísa colocou os dedos sobre o teclado.
Nada.
Os dedos ficaram ali, pousados nas teclas, como pássaros que esqueceram como voar. Ela conhecia a sensação — seis meses convivendo com ela, e o pânico ainda era o mesmo. O vazio na cabeça não era um vazio limpo, arejado, cheio de possibilidades. Era um vazio sujo, entulhado de destroços, como um cômodo depois de um incêndio: as paredes ainda de pé, mas tudo lá dentro carbonizado, irreconhecível.
Tentou a técnica que Renata sugerira. Escreva qualquer coisa, Luísa. Uma lista de compras. Uma descrição do tempo. Não importa o quê, só faça os dedos se moverem.
Ela digitou: O céu estava.
Parou.
Apagou.
Digitou: Quando ela abriu a porta.
Parou. Apagou.
O cursor piscou. O vento uivou do lado de fora. A lareira estalou.
E então, como sempre acontecia quando a página recusava recebê-la, a memória veio. Não como uma lembrança inteira, organizada, com começo e fim — mas como estilhaços, pedaços cortantes que se fincavam nela sem aviso.
O celular de Felipe sobre a mesa de cabeceira. O brilho da tela no escuro do quarto. Luísa acordando de madrugada, o braço dele jogado sobre seu quadril, e o telefone vibrando pela terceira vez. A curiosidade que não era curiosidade — era o instinto de quem já sabe, de quem fareja a verdade como um animal fareja fumaça antes do incêndio.
As mensagens. Tantas mensagens. Sete meses de mensagens com Amanda Reis, a editora assistente da mesma editora. Fotos. Áudios que Luísa não ouviu porque seus dedos tremiam demais para apertar o play.
E a pior parte — a parte que ela revivia toda vez que sentava diante da tela branca — era que Felipe não escrevia aquelas mensagens como quem trai. Escrevia como quem ama. Com a mesma ternura, as mesmas palavras inventadas, os mesmos diminutivos idiotas que usava com Luísa. Como se o amor fosse um texto que ele simplesmente copiava e colava em outra janela.
Depois disso, as palavras morreram. Não as palavras faladas — essas continuaram, ácidas, funcionais, suficientes para encerrar um relacionamento de quatro anos em três semanas de conversas mecânicas e caixas de papelão. As palavras que morreram foram as outras. As inventadas. As que transformavam ar em gente, silêncio em história, nada em mundo. As palavras que faziam dela uma escritora.
Luísa fechou o laptop com um clique seco.
Encostou a testa na tampa morna do computador e ficou assim, os olhos fechados, respirando devagar. Não chorou. Já tinha usado a cota de lágrimas de Felipe Monteiro em algum momento entre o terceiro e o quarto mês — agora restava apenas uma secura, uma aridez no peito que lembrava os campos queimados que vira da janela do ônibus.
***
A noite caiu sobre a Patagônia como quem puxa um lençol escuro sobre o mundo inteiro de uma vez.
Luísa não se deu ao trabalho de ir para o quarto. Puxou o edredom do sofá-cama, enrolou-se nele como um casulo e ficou deitada de frente para a janela, os cachos castanhos espalhados sobre o travesseiro. O fogo na lareira se reduzia a brasas alaranjadas que pulsavam na escuridão como um coração exposto.
Do lado de fora, o vento uivava. Não uivava como cão — uivava como algo anterior, primitivo, como se o próprio ar estivesse lembrando os sons de antes da linguagem. A neve começara a cair em algum momento que ela não registrou, e agora cobria a janela em flocos que se grudavam no vidro e derretiam em trilhas finas.
E então a lua apareceu. Saiu de trás das nuvens como quem empurra uma cortina pesada e iluminou o Cerro Torre com uma luz azulada, fantasmagórica, que transformou a montanha em um monólito de prata erguido contra o escuro. A agulha de granito brilhava, envolta em uma coroa de gelo, e a luz da lua fazia cada aresta, cada fenda, cada cicatriz da rocha parecer viva, como se a montanha respirasse devagar debaixo da neve.
Luísa ficou olhando. A montanha não olhava de volta. Não oferecia consolo, não fazia promessas, não fingia que tudo ficaria bem. O Cerro Torre simplesmente existia — há milhões de anos, sob tempestades piores do que qualquer dor humana, imóvel, indiferente, majestoso em sua absoluta recusa de se importar.
Por alguma razão, aquilo a confortou mais do que qualquer palavra teria feito.
A solidão do chalé era diferente da solidão do apartamento em Pinheiros. Lá, a solidão tinha cheiro de café frio e som de notificação no celular, e a presença invisível de Felipe Monteiro em cada canto — no lado esquerdo da cama, no segundo gancho do banheiro, na prateleira onde os livros dele ainda deixavam retângulos sem poeira. Aqui, a solidão era pura. Limpa. Não tinha fantasmas. Tinha neve e vento e uma montanha que não conhecia seu nome.
Luísa puxou o edredom até o queixo. O vento assobiou nos beirais. As brasas estalaram na lareira. A neve continuou caindo, silenciosa, cobrindo as pegadas que ela deixara na entrada como se quisesse apagar as evidências de que alguém tinha chegado.
Fechou os olhos. Amanhã tentaria de novo. Amanhã abriria o laptop e enfrentaria o cursor piscante e o documento vazio e os destroços que Felipe Monteiro tinha deixado onde antes moravam suas histórias.
Amanhã.
Mas naquela noite, enquanto a Patagônia rugia lá fora como uma criatura enorme e antiga, Luísa dormiu pela primeira vez em meses sem sonhar com nada. E quando o vento fez a porta do chalé ranger nos gonzos, ela não acordou — porque ali, naquele fim de mundo gelado, debaixo de um céu que não conhecia seu nome, a ausência de tudo finalmente se parecia com liberdade.
No parapeito da janela, ao lado da caneca de camomila fria, o celular sem sinal mostrava uma última mensagem de Renata, recebida ainda em El Chaltén, antes que o mundo civilizado ficasse para trás:
Estou torcendo por você. Mas torcer não escreve livro. Três meses, Luísa.
O cursor do laptop, do outro lado da sala, continuava piscando no escuro.