LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 1
A Planta Errada
A esteira de bagagens do aeroporto de Lisboa fazia um som que Beatriz Melo só poderia descrever como o lamento de uma baleia com artrite. Girava, girava, e todas as malas do mundo passavam — menos a dela.
Quer dizer, uma das duas tinha aparecido. A azul. A que continha roupas, sapatos e produtos de higiene, coisas que qualquer pessoa razoável consideraria essenciais. Beatriz abraçava a azul com um braço e olhava a esteira com a intensidade de quem tenta mover objetos com a mente.
A outra — a cinza, a importante, a que carregava trinta e sete amostras de tecido, uma cartela de cores Pantone personalizada, dois rolos de papel vegetal com anotações, a maquete em escala do projeto e o que restava da sua autoestima profissional — essa tinha decidido ficar no Brasil. Ou ir para Tóquio. Ou desintegrar no espaço-tempo que existe entre o check-in e o desembarque, aquele limbo onde meias também desaparecem.
— Sua mala com destino a Lisboa provavelmente foi direcionada para Luanda — disse o funcionário da companhia aérea, com uma calma que sugeria que malas se perderem era um fenômeno natural, como chuva ou a extinção de espécies.
— Luanda — repetiu Beatriz, porque dizer a palavra em voz alta tornava a coisa mais absurda, e absurdo era um estado emocional que ela dominava como poucos.
— Pode levar de três a sete dias úteis.
— Dias úteis. — Beatriz piscou. — Quer dizer que a minha mala vai ter fim de semana em Angola enquanto eu estou aqui sem material de trabalho?
O funcionário não achou graça. Era um homem que provavelmente não achava graça de nada desde 2014, mas anotou a reclamação com eficiência lusitana e entregou o formulário carimbado. Beatriz enfiou o papel na bolsa de mão — onde também viviam três batons, um carregador emaranhado, uma barra de cereal mordida e um bilhete de embarque que ela já tinha dobrado em formato de avião por ansiedade.
O aeroporto de Lisboa cheirava a café forte e piso recém-encerado. Beatriz empurrou o carrinho com a mala solitária e tentou sentir algo grandioso, algo como "uma nova fase da minha vida começa agora" ou "eu sou uma mulher corajosa recomeçando do zero", mas o que sentiu foi fome e a alça do sutiã descendo pelo ombro esquerdo.
Lá fora, outubro em Lisboa era um sol morno com cheiro de mar escondido atrás do concreto. O ar tinha uma qualidade diferente do de São Paulo — mais leve, com uma nota de maresia e algo que poderia ser sardinha grelhada ou nostalgia, difícil distinguir.
Beatriz entrou no táxi e mostrou o endereço no celular. O motorista, um senhor de boina que parecia ter sido gerado por inteligência artificial a partir do prompt "taxista lisboeta clássico", olhou a tela e depois olhou Beatriz como se ela tivesse pedido para ir à Lua.
— Alfama? Com essa mala toda? — Ele apontou para a mala azul como se fosse um contêiner de carga.
— É uma mala — disse Beatriz.
— Alfama é ladeira, menina. O táxi não sobe até lá.
— Até onde sobe?
Ele fez um som com a boca que em Portugal substitui frases inteiras.
— Até onde Deus permitir.
Deus permitiu até uma pracinha de pedra irregular com um chafariz seco e três gatos dormindo em cima de um Fiat. Dali em diante, Beatriz subiu a pé, arrastando a mala azul por ruas de paralelepípedo que tinham sido claramente projetadas para cavalos e arrependimento, não para rodas giratórias de samsonite.
A mala tropeçava em cada pedra como uma criança aprendendo a andar. Beatriz suava. O sol de outubro, que parecia inofensivo de dentro do táxi, agora atuava com a dedicação pessoal de alguém que quer provar um ponto. Seus cabelos cacheados — castanho-avermelhados, volumosos, com vida própria — já tinham absorvido umidade suficiente para duplicar de tamanho.
Alfama era um labirinto. Ruas que subiam para depois descer sem motivo aparente. Becos que prometiam saída e entregavam escadarias. Roupa pendurada em varais entre janelas, como bandeiras de um país onde a máquina secadora não chegou. Azulejos — azuis, brancos, verdes, rachados, inteiros — cobriam fachadas como uma segunda pele da cidade. Beatriz tocou um com a ponta dos dedos ao passar. Frio e liso, com a textura do tempo.
Uma senhora de chinelos apareceu numa janela e olhou Beatriz de cima a baixo com a sutileza de um raio-x.
— Perdida?
— Não — mentiu Beatriz, que estava completamente perdida.
— Pois parece.
— Estou procurando a Travessa do Figueiredo, número 7.
A senhora apontou para a esquerda, depois para cima, depois fez um gesto circular que poderia significar qualquer coisa entre "vire na terceira esquina" e "a vida é uma espiral sem sentido."
— Obrigada — disse Beatriz, virando na direção mais ou menos indicada.
Mais duas ladeiras, uma escadaria que parecia projetada por alguém que odiava joelhos, e finalmente — finalmente — a Travessa do Figueiredo apareceu. Uma rua estreita, sombreada, com um chão de pedra gasta por séculos de passos e a parede de um lado inteiramente coberta de azulejos com padrão geométrico em azul-cobalto.
O número 7 não era difícil de encontrar. Era o prédio mais bonito e mais destruído da rua ao mesmo tempo.
Beatriz parou e olhou para cima.
O palacete era um sobrado de três andares com varandas de ferro forjado que pendiam com uma elegância cansada, como uma dama vitoriana no final do baile. A fachada tinha sido nobre um dia — pedra trabalhada, molduras decoradas, um brasão esculpido sobre a porta principal que agora estava parcialmente coberto por hera. Os azulejos da fachada — azuis e amarelos, padrão seiscentista — estavam rachados em alguns pontos, faltando em outros, como uma boca sorrindo com dentes ausentes.
Tinha tinta descascando nas janelas. Uma persiana pendia torta. O telhado mostrava sinais de infiltração antiga, manchas escuras que desciam pela pedra como lágrimas secas. Mas a estrutura — a estrutura estava ali, sólida, com ossos bons, como diria seu pai. Beatriz sentiu os dedos formigarem da maneira que formigavam quando viam um espaço que pedia para ser resgatado.
— Você é linda — disse Beatriz para a fachada. — E está um desastre. Nós temos muito em comum.
A porta principal, de madeira maciça com batente de ferro em formato de mão, estava entreaberta. Beatriz empurrou e a madeira gemeu como se estivesse se espreguiçando depois de um cochilo longo. O vestíbulo cheirava a pedra úmida, cera de assoalho antiga e — surpreendentemente — ginjinha.
— Finalmente!
A voz veio de algum lugar entre um sofá de veludo gasto e uma cortina de damasco que já tinha visto tempos melhores. Uma figura emergiu — pequena, empertigada, vestida com um casaco de seda bordô que poderia ter pertencido a uma duquesa ou ter sido comprado num brechó caro, e com Beatriz não tinha como saber.
Dona Benedita Figueiredo tinha oitenta e dois anos e a postura de quem não pretendia se desculpar por nenhum deles. Os cabelos brancos estavam presos num coque impecável. Os olhos, castanhos-claros e vivos como dois pardais, avaliaram Beatriz da cabeça aos pés com a velocidade de um scanner de aeroporto.
— Você tem a cara da sua avó — declarou Benedita. — Mas o cabelo é do seu avô. Aquele homem parecia um leão com gripe.
— Dona Benedita — disse Beatriz, soltando a mala e estendendo a mão. — É um prazer finalmente...
Benedita ignorou a mão e puxou Beatriz para um abraço que cheirava a pó de arroz e determinação. Depois, segurou-a pelos ombros e examinou-a com a intensidade de um comprador de cavalos.
— Magrinha. Mas isso resolvemos. Lisboa engorda qualquer um. Ginjinha?
Sem esperar resposta, Benedita produziu de trás de uma almofada — de trás de uma almofada — uma garrafa de ginjinha e dois copinhos de cristal que pareciam ter sobrevivido a pelo menos dois terremotos.
— São onze da manhã — observou Beatriz.
— E?
Beatriz aceitou o copo. A ginjinha desceu como cereja líquida com opinião — doce primeiro, depois com um ardor que subia pelo nariz e aquecia as orelhas.
— Boa menina — aprovou Benedita. — Agora, sente. Preciso te apresentar a família.
Família, no caso, eram sete gatos persas que materializaram-se de vários cantos da sala como fantasmas peludos com atitude. O primeiro — enorme, cinza, com uma expressão de desprezo filosófico — sentou sobre o colo de Benedita como se fosse um trono.
— Este é o Pessoa — disse Benedita, acariciando a cabeça do gato. — É dramático e finge que não precisa de ninguém, mas dorme na minha cama toda noite. O Saramago é aquele gordo ali no parapeito — não liga pra ele, está julgando-nos, é o que faz. A Florbela é a branca delicada no canto, o Eça é o de pelo marrom que acabou de entrar, a Sophia é tímida, está debaixo do sofá, a Lídia é a que está cheirando a tua mala, e o Camões...
Um gato caolho apareceu por trás de uma cortina.
—...é o Camões. Só tem um olho, mas vê mais que a maioria.
Beatriz olhou para aquele exército peludo e depois para a sala ao redor. O teto tinha estuque trabalhado — anjos e folhagens — parcialmente coberto por manchas de umidade. O piso de tábua larga rangia sob os pés. As janelas, altas e estreitas, deixavam entrar uma luz dourada que iluminava partículas de poeira flutuando como purpurina preguiçosa. Havia pilhas de livros, almofadas de veludo surrado, e um retrato a óleo sobre a lareira de um homem bonito de bigode que olhava para o futuro com uma confiança que 2026 não merecia.
— Seu marido? — perguntou Beatriz, apontando para o retrato.
— Álvaro. — Benedita sorriu de um jeito que era ao mesmo tempo doce e devastador. — O homem mais teimoso de Portugal. E eu amei cada minuto irritante.
Pessoa miou em concordância, ou em protesto, ou simplesmente porque era um gato e gatos miam quando querem.
Benedita levantou-se com a agilidade de alguém que se recusava a envelhecer por inteiro e fez um gesto largo com a mão que abrangia toda a casa.
— Então. Aqui está ela. O palacete. O projeto. A ruína gloriosa que você vai transformar num hotel boutique que faria o Álvaro chorar de orgulho. — Fez uma pausa teatral. — Temos seis meses.
Beatriz olhou ao redor mais uma vez. Rachaduras nas paredes. Fiação aparente. Um cheiro de mofo vindo do corredor que sugeria que o encanamento tinha tomado decisões independentes. A escadaria central, de pedra com corrimão de ferro, era linda e provavelmente uma armadilha para tornozelos.
Era uma loucura. Era absolutamente uma loucura. Ela tinha acabado de perder o estúdio em São Paulo porque a sócia fugiu com o dinheiro e o namorado. Estava sem um centavo de reserva, com metade da bagagem em Angola e o orgulho em algum lugar entre o portão de embarque e o chão.
Mas a casa era linda. De uma maneira quebrada, esquecida e esperançosa que Beatriz reconhecia como num espelho.
— Seis meses — repetiu Beatriz. — Eu consigo.
Benedita acariciou Pessoa e sorriu de um jeito que deveria ter servido de alerta.
— Claro que consegue, querida. Tenho absoluta certeza.
Saramago, do parapeito, observou a cena com a expressão de quem sabia de algo que nenhuma das duas sabia ainda. Gatos, afinal, sempre sabem primeiro.
Beatriz arrastou a mala azul pelo corredor em direção ao quarto que Benedita indicara — "segundo andar, terceira porta, cuidado com o degrau que falta" — e pensou que, pelo menos, se tudo desse errado, ela já estava numa cidade onde a ginjinha era socialmente aceitável antes do meio-dia.
O degrau que faltava era real. Beatriz tropeçou, xingou em três idiomas (português, inglês e um dialeto pessoal de palavrões que tinha inventado durante a adolescência), e chegou ao quarto.
O quarto era pequeno, com uma cama de ferro que rangia, uma cômoda que provavelmente tinha histórias para contar, e uma janela que emoldurava Alfama como um cartão-postal pintado por alguém com muita saudade. Telhados de terracota se empilhavam rio abaixo até o Tejo, que brilhava ao longe como uma promessa em prata.
Beatriz sentou na cama — que protestou audivelmente — e olhou pela janela. Lá embaixo, uma mulher estendia roupa. Um gato diferente (não de Benedita, este era laranja e claramente independente) atravessava o beco com a pressa de quem tem compromissos. Alguém tocava fado num rádio distante, a voz rouca subindo pelas paredes de pedra como fumaça perfumada.
Ela abriu a bolsa e pegou o celular. Seis mensagens de Inês.
"Chegou viva?" "Beatriz." "Se não responder em 10 min vou ligar pro consulado." "Tô ligando pro consulado." "A mulher do consulado foi grossa comigo." "BEATRIZ HELENA MELO."
Beatriz digitou: "Viva. A casa é linda e está caindo aos pedaços. Tem sete gatos. A tia-avó me deu ginjinha às 11h. Perdi uma mala. Acho que vou chorar ou rir, ainda não decidi."
A resposta de Inês foi imediata: "Chora primeiro, ri depois. É a ordem correta. Te amo. Manda foto dos gatos."
Beatriz mandou uma selfie com Pessoa, que tinha aparecido na porta do quarto e decidido que o colo dela era propriedade pública. O gato pesava como uma mochila de chumbo com opinião, mas ronronava com a intensidade de um motor fora de borda, e o som vibrava contra o peito de Beatriz de uma maneira que parecia, inesperadamente, com conforto.
Ela olhou pela janela de novo. Lisboa se estendia diante dela em tons de ocre, azul e dourado, com seus bondes rangendo em algum lugar lá embaixo e suas gaivotas gritando como se tivessem acabado de receber uma conta de restaurante.
A mala estava em Angola. O estúdio estava morto. O ex-namorado estava com a ex-sócia em algum lugar que Beatriz se recusava a imaginar. E ela estava aqui, num palacete que cheirava a mofo e a ginjinha, com um gato persa no colo e seis meses para provar que ainda sabia fazer alguma coisa direito.
— Tá bom, Lisboa — murmurou, coçando atrás da orelha de Pessoa. — Vamos ver o que você tem pra mim.
O que Lisboa tinha, ela descobriria na manhã seguinte, incluía um segundo arquiteto que ninguém tinha mencionado.