LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 1
A Jogadora
O despertador toca às 3h47 porque eu coloco treze minutos antes das quatro pra ter a ilusão de que roubei tempo do mundo. Treze minutos deitada no escuro, ouvindo o funk do vizinho que nunca dorme e o ronco da Jéssica no beliche de baixo. Treze minutos pra me lembrar por que levanto.
Hoje é o primeiro dia.
Passo a mão no celular — tela rachada, luz que me cega — e leio de novo o e-mail que já decorei: "Prezada Renata Oliveira dos Santos, comunicamos sua aprovação com bolsa integral no curso de Direito da Fundação Getulio Vargas..."
Bolsa integral. As duas palavras mais bonitas da língua portuguesa.
Levanto sem fazer barulho. No banheiro, a luz fluorescente zumbe como se estivesse cansada de existir — e eu entendo. O espelho mostra o que sempre mostra: olheiras de quem dormiu cinco horas, cabelo crespo espremido contra o travesseiro, lábios rachados. Passo creme no rosto — o pote quase vazio, Avon, o único que minha mãe compra — e aliso o cabelo com a chapinha que gagueja. Cada mecha é uma negociação. O cabelo resiste, eu insisto. Porque eu sei, com a precisão cirúrgica de quem estudou o assunto, que cabelo crespo numa sala cheia de lisos é a primeira coisa que notam. E eu não quero ser notada. Quero ser aceita. São coisas diferentes.
Na cozinha, minha mãe já está de pé.
Dona Marta Oliveira, quarenta e quatro anos, e cada um deles visível. Mãos que eu reconheceria no escuro — grossas nas juntas, pele ressecada de produto de limpeza, unhas curtas por necessidade, não por estilo. Ela está coando café no coador de pano, aquele que minha avó usava, aquele que dá ao café um gosto de casa que nenhum espresso de boutique vai ter.
— Fiz pão com margarina.
Não é uma oferta. É um inventário. É tudo que tem.
— Obrigada, mãe.
Sento na cadeira de plástico. A mesa é coberta por uma toalha de plástico com estampa de frutas que já desbotou — as bananas parecem doentes. O café queima a língua, forte, amargo, sem açúcar porque acabou ontem e o dinheiro só cai sexta. O pão é do dia anterior, tostado na chapa do fogão, a margarina já derretida. Eu como rápido. Cada mordida é combustível, não prazer.
Minha mãe me olha de um jeito que eu já conheço. Aquele olhar que é um raio-x e uma reza ao mesmo tempo.
— Tem certeza que não quer que eu vá junto?
— Mãe. É faculdade, não casamento.
— Porque se precisar...
— Não preciso.
Ela assente. Não insiste. Minha mãe aprendeu cedo que insistir não muda nada — aprendeu com meu pai, que insistia que ia parar de beber até o dia em que parou de insistir e parou de aparecer.
Pego a mochila — aquela preta que comprei na 25 de Março, sem marca, neutra o suficiente pra não gritar de onde eu venho. Dentro: caderno novo, canetas, o celular carregado até onde a tomada instável permitiu, e uma garrafa d'água porque eu não sei se lá tem bebedouro e não vou perguntar.
Na porta, minha mãe segura meu rosto com as duas mãos.
— Vai lá e mostra pra eles.
Eu sei o que "eles" significa. Eles é o mundo inteiro fora da Cidade Tiradentes.
* * *
O ponto de ônibus fica a sete minutos de casa, se eu andar rápido. Às quatro e vinte da manhã, Cidade Tiradentes tem um silêncio que não é paz — é pausa. As ruas são escuras, postes espaçados demais, e eu ando no meio do asfalto porque a calçada é esburacada e meu tênis já está no limite. O ar cheira a concreto quente que não esfriou de todo, a lixo do dia, a alguma coisa frita que sobrou da barraca que fecha tarde.
No ponto, já tem gente. Sempre tem gente. O trabalhador que acorda antes do sol existe em quantidade industrial na zona leste. Uma mulher de uniforme azul cochila em pé, encostada no poste. Um cara de boné ouve gospel no celular sem fone, o som metálico e distorcido como se Deus estivesse falando de uma lata. Dois adolescentes de uniforme escolar — escola que deve funcionar em algum horário impossível.
O ônibus chega às 4h33. Lotado. Sempre lotado, não importa o horário, como se São Paulo produzisse gente na mesma velocidade que produz trânsito. Eu entro pela porta de trás, me espremendo entre corpos quentes e cansados, e encontro um lugar em pé onde consigo apoiar a mochila na barra de metal. O cheiro é de desodorante misturado com suor, de produto de limpeza em roupa lavada no tanque, de humanidade comprimida.
Três horas. Esse é o preço.
Cidade Tiradentes até a Faria Lima. O ônibus até o Terminal, o metrô até a Consolação, mais um trecho a pé. Se tudo funcionar — se o ônibus não quebrar, se o metrô não parar, se nenhuma manifestação fechar a Paulista — três horas. Se não funcionar, quatro. Ou cinco. Ou o dia perdido.
Eu podia ter escolhido qualquer faculdade pública mais perto. Tinha vaga. Mas a GV não é sobre o diploma. É sobre o carimbo. É sobre sentar ao lado de quem vai herdar o país e aprender a linguagem deles antes que percebam que eu não sou uma deles.
Eu sei o que vocês estão pensando. Que isso é cinismo. Que eu devia estar grata, emocionada, orgulhosa. E eu estou — em algum lugar debaixo de tudo, tem uma menina de doze anos que decorou o Código Civil por diversão e chorou quando viu o resultado do vestibular. Mas essa menina não pega três horas de ônibus. Quem pega sou eu. E eu não posso me dar ao luxo de ser ingênua.
* * *
No metrô, sento e abro o caderno. Na primeira página, em letra pequena, tenho uma lista. Não de matérias, não de livros. Uma lista de observações.
"Gente rica fala devagar. Gente pobre fala rápido porque aprendeu que ninguém escuta até o final."
"Nunca dizer 'mano'. Nunca dizer 'tipo assim'. Dizer 'de fato', 'sem dúvida', 'me parece que'."
"Sapato. Sempre olhar o sapato. É o que mais entrega."
"Não rir alto. Sorrir. Sempre sorrir como se o que fosse dito não fosse engraçado o suficiente para gargalhar."
Eu compilei essas notas ao longo de anos. Observando. Na casa onde minha mãe trabalha no Morumbi, eu ficava quieta na cozinha quando não tinha escola, e observava. Como a patroa falava no telefone — aquela voz que nunca subia, aquela calma de quem sabe que o mundo espera. Como o filho dela tratava a empregada — não com grosseria, mas com uma indiferença polida que é pior. Como eles se sentavam, como seguravam o garfo, como diziam "obrigado" sem nenhuma obrigação no tom.
Eu estudei eles como se fossem uma espécie diferente. Porque são.
E agora eu vou entrar no habitat natural deles e fingir que pertenço.
* * *
Saio na estação e ando. São Paulo às sete da manhã já é uma máquina ligada: buzina, diesel, gente de terno cruzando a rua sem olhar o sinal, motoboy costurando entre carros, o cheiro de escapamento e de pão de queijo de padaria. A Faria Lima é outra cidade. Prédios de vidro que refletem um céu que em Cidade Tiradentes é cinza mas aqui parece azul. Calçada lisa — lisa, sem buraco, sem esgoto aberto, como se alguém tivesse caprichado. Árvores podadas. Gente bonita. Gente branca. Gente que não anda — desliza.
Eu estou suada.
Três horas de transporte público em fevereiro em São Paulo. Minha blusa gruda nas costas. O cabelo que alisei já está querendo voltar na nuca. O tênis — o mais apresentável que tenho — está empoeirado. Passo a mão no rosto, sinto a oleosidade, a maquiagem que derreteu no percurso.
E então vejo o estacionamento da GV.
BMW. Audi. Mercedes. Um Porsche cinza que custa mais que o apartamento da minha mãe — apartamento não, conjunto habitacional, dois quartos pra três pessoas, paredes finas, teto que vaza quando chove forte.
Um garoto desce de um SUV preto com motorista. Tênis branco imaculado, calça bege que parece passada a vapor, camisa social com as mangas dobradas num ângulo que eu sei que ele praticou no espelho. Ele segura um copo de café da Starbucks — o nome dele escrito no copo, como se o café precisasse saber quem vai bebê-lo.
Ele me vê. Sorri — aquele sorriso automático de quem foi criado pra ser simpático — e segue andando.
Eu olho pra baixo. Pro meu tênis empoeirado, pras minhas mãos que apertam a alça da mochila da 25 de Março. E sinto aquela coisa que conheço melhor que qualquer outra: a certeza fria, líquida, de que o mundo não me deve nada, mas eu vou cobrar mesmo assim.
* * *
A recepção da GV cheira a ar-condicionado. Não é só frio — é um tipo específico de frio, limpo, que elimina o cheiro de gente. Depois de três horas respirando ônibus e metrô, é como mergulhar num lago gelado. Minha pele se arrepia. Os poros contraem.
O piso é de mármore claro. Meus passos fazem barulho — e eu odeio. Os sapatos deles não fazem. Os sapatos deles foram feitos pra andar em mármore. Os meus foram feitos pra sobreviver asfalto.
Há uma fila para a matrícula. Pais com pais, abraços, fotos de celular. Uma mãe de cabelo loiro e bolsa Prada aperta o filho como se ele estivesse indo para a guerra, não para uma sala de aula climatizada.
Eu estou sozinha. Escolhi estar. Minha mãe queria vir, mas eu não podia — não posso — deixar que vejam a mulher de uniforme de diarista que me trouxe até aqui. Não porque tenho vergonha. Eu não tenho vergonha.
Eu tenho estratégia.
Vergonha é sentimento. Sentimento é variável. Estratégia é fixa. E minha estratégia diz: ninguém pode saber de onde eu vim. Porque de onde eu vim é um endereço que explica tudo e perdoa nada.
— Primeira vez também?
Viro. Uma garota japonesa — não, nikkei, eu preciso aprender os termos certos — com sorriso largo, tênis Nike limitado, mochila Herschel, e uma energia que só tem quem nunca precisou economizar.
— Primeira vez — confirmo, sorrindo de volta. O sorriso número dois: simpático, aberto, não exagerado.
— Beatriz. Bia. — Estende a mão. Pulseira de ouro discreto no pulso.
— Renata.
— De onde você é?
A pergunta. A primeira de milhares. Eu já ensaiei.
— Pinheiros.
A mentira sai lisa. Pinheiros é seguro: bairro de classe média alta, mas não ostensivo. Não exige detalhes — todo mundo conhece Pinheiros. Ninguém vai perguntar a rua.
— Ah, pertinho! Eu moro nos Jardins. A gente pode dividir Uber.
— Com certeza.
Uber. Claro. Eu nunca chamei um Uber na vida. Tenho o aplicativo instalado, estudei os preços, sei como funciona. Nunca usei. Mas vou aprender. Rápido.
Bia fala sobre a semana de integração, sobre festas, sobre um professor que é "tipo, super legal". Eu catálogo: a forma como ela gesticula, como diz "tipo" três vezes por frase, como toca no meu braço quando quer ênfase. Proximidade fácil. Confiança de quem nunca foi traída.
Bia é útil. Bia é minha porta de entrada.
E eu já me odeio por pensar assim.
* * *
A aula inaugural acontece num auditório que parece tirado de filme americano. Cadeiras acolchoadas, mesa de madeira escura no palco, telão, microfone sem fio. O ar-condicionado mantém tudo em dezenove graus — eu sei porque tem um termostato digital na parede. Em Cidade Tiradentes, a escola onde eu estudei tinha ventilador quebrado e janelas que não abriam.
O reitor fala sobre "excelência", "transformação", "os líderes do amanhã". Eu anoto tudo, não porque é importante, mas porque anotar me dá algo para fazer com as mãos. Se eu não estiver escrevendo, vou ficar olhando ao redor, e se eu ficar olhando ao redor, vão perceber que estou olhando ao redor, e quem olha ao redor está se sentindo fora de lugar.
Eu não posso parecer fora de lugar. Eu preciso parecer como se tivesse nascido aqui.
Bia me cutuca.
— Olha o coordenador. Parece vilão de novela.
Eu rio — controlado, três notas, não mais — e penso que Bia é o tipo de pessoa que nunca vai entender por que eu não posso rir alto. Ela riu alto a vida inteira e ninguém nunca pediu licença pra ela existir.
Quando saímos, o sol de São Paulo ataca como se tivesse esperado. O calor volta, grudento, e meu cabelo ameaça motim na nuca. Bia me convida para almoçar num restaurante japonês na Rua Haddock Lobo.
— Meu pai tem conta lá, relaxa.
Relaxa. Como se dinheiro fosse ar.
Eu aceito. Estudo o cardápio antes no banheiro, no celular, para não hesitar quando a hora chegar. Sashimi de salmão, não o mais caro, não o mais barato. Peço água, não refrigerante. Seguro os hashis como aprendi no YouTube às três da manhã, praticando com dois lápis na cozinha escura da minha mãe.
O salmão derrete na língua. Suave, frio, amanteigado. Eu nunca comi sashimi na vida. Na minha casa, peixe é tilápia frita em óleo reutilizado três vezes.
— Gostou? — Bia pergunta.
— Delicioso — digo, como se fosse um comentário casual sobre algo que já comi mil vezes.
E engulo. Não só o salmão. Engulo a vontade de dizer que isso custa o que minha mãe ganha por dia. Engulo a raiva, a vergonha que não é vergonha, a estratégia que é tudo.
* * *
O caminho de volta são outras três horas. O metrô lotado de novo, o ônibus de novo, o cheiro de gente cansada de novo. Mas agora eu estou no meio deles com gosto de sashimi na memória e ar-condicionado de dezenove graus na pele.
Chego em casa às nove da noite. Minha mãe guardou prato — arroz, feijão, ovo frito. A Jéssica está no celular no beliche, fone de ouvido, alheia.
— Como foi? — minha mãe pergunta da porta da cozinha, secando as mãos no pano de prato.
— Foi bem.
— Gente boa?
— Gente diferente.
Ela entende mais do que eu digo. Sempre entendeu.
Eu como o arroz com feijão que tem gosto de casa e de limite. Depois, no banheiro, tranco a porta e me olho no espelho. O cabelo cedeu — os fios crespos já voltaram nas têmporas, rebeldes, insistentes. A maquiagem sumiu. O cansaço esculpiu olheiras que parecem permanentes.
Essa sou eu.
Mas não é essa que eles vão ver.
Lavo o rosto. A água fria acorda o que o dia anestesiou. E eu abro o caderno de novo, na cama, com a luz do celular porque a Jéssica já desligou o abajur.
Escrevo:
"Dia 1. Informações coletadas: estacionamento indica nível socioeconômico acima do esperado. Bia Kawamoto — acesso direto ao núcleo social. Restaurante japonês na Haddock Lobo como ponto de referência gastronômica. Vocabulário: ajustar frequência de 'tipo' e 'mano'. Postura: coluna reta, mãos no colo quando sentada, cruzar as pernas no joelho, nunca no tornozelo."
E, embaixo, numa linha separada:
"Objetivo: encontrar o alvo."
Fecho o caderno. Fecho os olhos. Na parede, o funk do vizinho pulsa como um coração — grave, repetitivo, insistente. O colchão tem uma mola que pressiona minhas costas no lugar errado. A Jéssica murmura algo dormindo.
Amanhã, três horas de novo. E depois de amanhã. E depois. Até eu não precisar mais.
Ou até eu esquecer o caminho de volta.