LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 1
A Duquesa Improvável
O mar era cinza como as intenções de Eleanor Webb.
Encostada na amurada do *RMS Etruria*, com os dedos dormentes dentro das luvas de pelica e o vento salgado martelando cada fio solto do seu penteado, Nell observava a costa inglesa emergir da névoa como uma promessa que ninguém havia pedido. Southampton. O nome soava a pedra molhada e compromissos irrevogáveis.
— Está vendo, Nellie? — Thomas Webb apareceu ao seu lado, o sobretudo de cashmere impecável apesar de seis dias no Atlântico, o charuto apagado entre os dedos porque a filha odiava o cheiro. — A Inglaterra.
— Estou vendo — disse Nell, sem tirar os olhos da faixa de terra que engrossava no horizonte. — Parece úmida.
Thomas riu. Era um homem que ria com facilidade, como se o som pudesse tapar buracos no passado.
— Úmida, fria e cara. Exatamente como a nobreza que vive nela.
Nell não respondeu. Ajustou o broche de esmeraldas no casaco — presente de aniversário, verde como os olhos que herdara da avó que nunca conheceu — e tentou não pensar no contrato dobrado dentro da valise de couro do pai. Duzentas mil libras esterlinas. O preço de uma duquesa.
Não. O preço de *parecer* uma duquesa. Ser uma era outra questão inteiramente.
O navio estremeceu ao reduzir velocidade, e o cheiro mudou: sal puro dando lugar a carvão, óleo de máquina, o perfume adocicado de podridão que todo porto carrega. Nell respirou fundo. Em Nova York, o porto cheirava a peixe fresco e ambição. Aqui, cheirava a história — camada sobre camada de grandeza decaindo com elegância.
Como os Ashworth, pensou.
— Seu vestido para o desembarque está pronto? — Thomas consultou o relógio de bolso, ouro maciço, sem monograma. Ele nunca gravava iniciais em nada. Nell entendia por quê, embora fingisse não entender.
— Verde-escuro, gola alta, sem exageros. Como a senhorita Harrison instruiu.
— A senhorita Harrison é uma mulher sensata.
— A senhorita Harrison é uma mulher que cobra quarenta dólares por hora para me ensinar a não cruzar as pernas em público. — Nell virou-se para o pai. — Papai. Tem certeza?
A pergunta carregava o peso de meses. Thomas a encarou com aqueles olhos castanhos que escondiam tudo — a fome, o navio de emigrantes, o menino de Cork que virou magnata em Manhattan. Olhos que diziam: *eu construí um mundo inteiro para você nunca precisar perguntar isso.*
— Tenho certeza de que é a melhor oportunidade. — Ele segurou a mão dela, apertando por cima da luva. — Os Ashworth precisam de dinheiro. Nós precisamos de... legitimidade.
A palavra ficou entre eles como fumaça de charuto que não se dissipa.
Legitimidade. Porque todo o ouro de Thomas Webb não comprava o que a sociedade de Nova York já sabia sussurrar: que sua fortuna cheirava a novidade, que seu sotaque tinha cantos estranhos quando bebia demais, que nenhum Webb aparecia nos registros da *Social Register* antes de 1867. E o que a sociedade de Nova York sussurrava, a de Londres berrava — mas com vocabulário melhor e em salões forrados de seda.
— Ele é um bom homem? — Nell perguntou. Não pela primeira vez.
— O Duque de Ashworth é um homem honesto, reservado e falido. Não joga, não bebe em excesso, não tem amantes conhecidas. Para os padrões da aristocracia inglesa, é praticamente um santo.
— Para os padrões de qualquer lugar, é praticamente um fantasma.
Thomas sorriu, aquele sorriso que era meio orgulho, meio preocupação.
— Você vai dar conta, Nellie. Sempre deu.
Nell olhou de volta para a costa. Um farol piscou na névoa, insistente e solitário, e por um instante absurdo ela sentiu vontade de acenar de volta.
*
O desembarque foi uma coreografia ensaiada. Thomas havia contratado um agente em Southampton para garantir que a alfândega fosse rápida, que os baús — vinte e três, forrados de latão, contendo o enxoval completo de uma noiva americana — fossem transferidos diretamente para o trem, e que um representante do *Claridge's* estivesse esperando no cais com um cartão bordado em ouro.
Nell desceu a prancha com passos medidos, a barra do vestido verde-escuro roçando a madeira molhada. O ar de Southampton era diferente do ar do navio: mais denso, mais real, carregado de fuligem de trem e o cheiro terroso de lã molhada que seria, ela aprenderia em breve, o perfume permanente da Inglaterra.
— Miss Webb? — Um homem magro, de cartola e bigode encerado, estendeu a mão enluvada. — Sou Mr. Finch. Seu pai e eu nos correspondemos extensamente.
*Mr. Finch.* O casamenteiro. Nell sabia o nome, tinha lido cada carta — porque Thomas Webb podia ter o instinto de um titã industrial, mas Nell não confiava em instintos. Confiava em contratos. E o contrato que Mr. Finch havia costurado era, ela admitia a contragosto, impressionante: título ducal em troca de capital americano, com cláusulas de propriedade separada que protegiam seu dote melhor do que qualquer acordo inglês padrão.
— Mr. Finch. — Nell apertou-lhe a mão com firmeza. Ele piscou, surpreso. Mulheres inglesas não apertavam mãos assim. — Obrigada por nos receber.
— O prazer é meu, Miss Webb. O trem para Londres parte em quarenta minutos. Reservei um compartimento privado.
— Com chá?
— Com chá, naturalmente.
— Preto, forte, sem açúcar. E para meu pai, café, se houver. Ele finge gostar de chá por educação, mas fica insuportável sem cafeína.
Mr. Finch olhou para Thomas, que deu de ombros.
— Ela lê contratos por diversão, Finch. Não espere que perca tempo com gentilezas.
O casamenteiro ajustou a cartola e sorriu com aquela polidez profissional que, Nell suspeitava, custava quase tanto quanto a senhorita Harrison.
— Vejo que a *Season* vai ser memorável.
*
No trem, com a paisagem inglesa deslizando pela janela como uma aquarela em tons de verde e pedra, Nell tirou as luvas, flexionou os dedos e abriu a pasta que carregava desde Nova York.
O dossiê era grosso. Thomas pagara investigadores dos dois lados do Atlântico, e o resultado era um retrato minucioso de Edward Ashworth, oitavo Duque de Ashworth: trinta e dois anos, formado em Cambridge com distinção em ciências naturais, herdeiro do título após a morte do irmão mais velho Frederick em acidente equestre dois anos atrás. Propriedade principal: Ashworth Park, Derbyshire, quatrocentos hectares de terra boa com uma casa georgiana de sessenta cômodos, metade deles com infiltração. Renda: insuficiente. Dívidas: consideráveis. Vida social: mínima.
Nell passou o dedo pela única fotografia disponível — um retrato formal, chapéu alto, expressão de quem está sofrendo fisicamente com a obrigação de parecer importante. Ombros largos mas curvados, como se pedissem desculpa pela própria existência. Cabelos que desafiavam qualquer tentativa de ordem.
— Ele parece... triste — disse Nell, mais para si mesma do que para o pai.
Thomas, que estava lendo o *Financial Times* com a concentração de um general estudando mapas de batalha, baixou o jornal.
— Perdeu o irmão e herdou uma ruína. Triste é o mínimo.
— Não frequenta clubes. Não aparece em corridas. Não... — Nell folheou as páginas. — A única menção social nos últimos dois anos é uma conferência na Royal Horticultural Society sobre polinização de orquídeas.
— Orquídeas?
— Orquídeas.
Thomas franziu a testa, calculando, como fazia com tudo. Nell conhecia aquela expressão: era a mesma que ele usava ao avaliar se um terreno em Manhattan valia o investimento.
— Um duque que gosta de flores. — Ele dobrou o jornal. — Poderia ser pior. Poderia gostar de cavalos de corrida e atrizes francesas.
Nell fechou a pasta. Do lado de fora, a Inglaterra passava em velocidade crescente — campos verdes cortados por muros de pedra, ovelhas imóveis como algodão espalhado na grama, vilas de telhados escuros agrupadas em torno de igrejas que pareciam ter brotado do chão junto com as árvores. Era bonito de um jeito que Nova York nunca seria: a beleza da permanência, de coisas que existiam há séculos e pretendiam existir por mais alguns.
Era exatamente o tipo de beleza que se podia comprar, se a pessoa tivesse dinheiro suficiente.
E Thomas Webb tinha.
*
A lembrança veio sem ser convidada, como sempre vinha — em fragmentos, em cheiros, no sotaque errado de uma palavra.
Nova York, três meses antes. A sala de jantar dos Webb na Quinta Avenida, mogno e cristal, vinte e quatro lugares que nunca se enchiam porque Thomas não tinha família suficiente para sentar neles. Nell à cabeceira, o dossiê de Mr. Finch aberto entre os pratos que ninguém usava.
— Um duque — ela dissera, lendo em voz alta. — Arruinado, mas com título antigo. Terras em Derbyshire. Precisando de capital para restauração.
Thomas servia whisky — irlandês, sempre irlandês, a única concessão que se permitia em casa, longe de olhares.
— Finch disse que é a melhor opção. Sem escândalos, sem jogo, sem doenças. O irmão morreu, ele herdou, a propriedade está caindo.
— E eu sou o cimento.
— Você é a solução. — Thomas sentou-se, o copo entre as mãos que ainda tinham calos apesar de vinte anos longe do trabalho braçal. — Nell, eu sei o que estou pedindo.
— Sabe?
— Estou pedindo que faça o que eu fiz. Que pegue o que temos e transforme em algo que ninguém possa questionar.
Nell olhou para o pai. Thomas Webb, sessenta e um anos, cabelos brancos, olhos que carregavam o Atlântico inteiro dentro deles. Thomas Webb, que nasceu Thomas Callahan num casebre em Cork, que embarcou num navio de emigrantes com doze anos e um pedaço de pão de soda no bolso, que chegou a Nova York sem um centavo e sem um nome que a América respeitasse.
Então criou um.
Webb. Sólido, inglês, protestante. Um nome que não levantava perguntas, que não evocava fome e barcos lotados e crianças morrendo de tifo. Um nome que abria portas em vez de fechá-las.
— Se alguém souber... — Nell começou.
— Ninguém vai saber. — A voz de Thomas era ferro. — Somos Webb. Sempre fomos Webb. Seu avô era William Webb, comerciante de Boston.
— Meu avô era Seamus Callahan, fazendeiro de Cork, e morreu de fome na beira de uma estrada em 1847.
O silêncio que se seguiu tinha o peso de um oceano.
— Nell. — Thomas colocou o copo na mesa com cuidado excessivo. — Eu sei quem era meu pai. Rezo por ele toda noite, em irlandês, porque é a única coisa que ainda sei fazer nessa língua. Mas esse nome, essa história — ela não nos protege. Nos destrói. Você sabe o que fazem com irlandeses neste país. Sabe o que farão com irlandeses na Inglaterra.
Nell sabia. Havia placas em Nova York, menos do que antes, mas havia: *No Irish Need Apply.* Havia piadas, caricaturas, a certeza tranquila da sociedade de que irlandeses eram bêbados, briguentos, católicos demais, pobres demais, numerosos demais.
E na Inglaterra seria pior. Na Inglaterra, a Grande Fome não era tragédia — era inconveniente. O irlandês não era vizinho — era problema.
— Eu vou — Nell dissera, finalmente. Não porque concordava. Porque amava o pai. E porque, no fundo, numa parte de si mesma que ela não gostava de examinar de perto, também sentia vergonha. Vergonha da vergonha. A pior espécie.
*
— Nell?
A voz de Thomas a trouxe de volta. O trem estava parando. Pela janela, a estação de Waterloo surgia em ferro e fumaça, enorme, barulhenta, cheia de pessoas se movendo com aquela pressa contida que os ingleses pareciam ter patenteado.
— Londres — disse Thomas, guardando o jornal. — Pronta?
Nell se olhou no reflexo da janela. Cabelos ruivos escuros presos num coque severo, sardas que o pó de arroz não conseguia esconder completamente, olhos verdes que eram, segundo a senhorita Harrison, "aceitáveis para uma americana, embora chamativos para uma inglesa".
*Cabelos vermelhos. Olhos verdes. Callahan até a medula.*
— Pronta — mentiu.
A plataforma cheirava a carvão e a flores. Alguém vendia violetas num canto — uma menina de talvez dez anos, vestido remendado, mãos vermelhas de frio apesar de ser abril. Nell parou.
— Quanto?
— Um *penny* o ramalhete, senhora.
Nell deu-lhe uma coroa. A menina arregalou os olhos. Thomas puxou a filha pelo braço, gentil mas firme, em direção à carruagem que esperava.
— Você não pode comprar todas as violetas de Londres, Nellie.
— Posso tentar.
A carruagem era fechada, preta, com o brasão do *Claridge's* discreto na porta. Nell subiu, acomodou-se no banco de veludo, e olhou pela janela enquanto Londres se revelava: fachadas de tijolo enegrecido pela fuligem, lampiões a gás ainda acesos na tarde nublada, carruagens e bondes disputando espaço com carrinhos de mão e cavalos de carga.
Era grandiosa do mesmo jeito que era suja — com convicção.
— O primeiro compromisso é amanhã à noite — disse Thomas, consultando uma agenda de couro. — Baile em Grosvenor House. Lady Pemberton, anfitriã. Convidados selecionados. Mr. Finch estará presente.
— E o duque?
— Finch diz que convencê-lo a comparecer foi o maior desafio da negociação.
Nell quase sorriu. Um duque que precisava ser convencido a ir a um baile. Que preferia orquídeas a ópera. Que tinha as mãos manchadas de terra na única fotografia não posada que os investigadores conseguiram.
Talvez — e era um talvez tão frágil quanto as violetas que agora murchavam no calor da carruagem — talvez houvesse algo ali. Não amor. Nell não acreditava em amor arranjado por casamenteiros e selado com libras esterlinas. Mas algo. Alguma coisa verdadeira no meio de toda aquela mentira cuidadosamente construída.
A carruagem virou numa avenida larga e o *Claridge's* apareceu: fachada branca, porteiros de libré, o tipo de elegância que sussurra em vez de gritar.
— Lembre-se — disse Thomas, enquanto o porteiro abria a porta. — Você é Eleanor Webb. Filha de Thomas Webb. Americana. Protestante. Sem segredos.
Nell desceu da carruagem, pisou na calçada molhada de Londres, e sentiu o peso de cada mentira como pedras no bolso de um casaco.
— Sem segredos — repetiu, com um sorriso que havia ensaiado no espelho do navio até parecer natural.
A porta do hotel se abriu. O cheiro de lírios e cera de assoalho a envolveu. Em algum lugar, um pianista tocava Chopin com a precisão de quem é pago por nota.
Londres, abril de 1889.
A *Season* estava prestes a começar, e Eleanor Callahan-Webb estava prestes a descobrir que mentir para aristocratas ingleses era consideravelmente mais fácil do que mentir para si mesma.