LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 1
A Amante Comprada
O vestido não era dela.
Helena sabia disso pela maneira como o tecido escorregava nos lugares errados — largo demais nos ombros, justo demais na cintura, como se tivesse sido cortado para o corpo de outra mulher. E havia sido. Renata emprestara o vestido preto duas horas antes, no apartamento minúsculo do Navigli, enquanto Helena tentava não vomitar o espresso que era a única coisa em seu estômago desde o café da manhã.
— Para de mexer nessa alça — disse Renata pelo espelho do banheiro dos fundos, terminando de aplicar batom vermelho nos lábios de Helena com a precisão cirúrgica de quem maquiava modelos há anos. — Se você ficar mexendo, vai parecer nervosa.
— Eu estou nervosa.
— Então finge que não está. Aqui, nervosa é o mesmo que fraca. E fraca esses homens comem viva.
O banheiro cheirava a mofo e perfume barato. Dois chuveiros separados por uma cortina de plástico opaco, azulejos trincados, uma lâmpada fluorescente que zumbia como mosquito preso. Nos bastidores do palazzo veneziano, as mulheres se preparavam como gladiadoras num vestiário — cada uma no seu canto, evitando contato visual, como se reconhecer a outra significasse admitir onde estavam e por quê.
Helena contou seis. Seis mulheres, incluindo ela. Três loiras — duas naturais, uma de farmácia. Uma ruiva alta com pernas que pareciam começar no pescoço. Uma morena de olhos verdes que não devia ter mais de vinte e três e segurava a taça de prosecco como se fosse um terço. E Helena. A brasileira. A violoncelista que deveria estar ensaiando Bach numa sala do Conservatório Giuseppe Verdi, não espremida num vestido emprestado num palazzo do século dezesseis, esperando ser vendida para um desconhecido.
Os dedos tamborilaram no balcão de mármore — indicador, médio, anelar, mínimo, e de volta. A sequência de abertura da Suíte nº 1 de Bach, que seus dedos executavam sem que ela pedisse sempre que o medo subia pela garganta.
— Helena. — Renata segurou suas mãos. — Olha pra mim.
Helena olhou. Renata tinha os olhos úmidos, o que era raro. Renata chorava assistindo comercial de margarina, mas diante de problemas reais enrijecia como concreto.
— Você não precisa fazer isso.
— A cirurgia da minha mãe custa quarenta e dois mil euros. Eu tenho trezentos e dezessete na conta e um visto de estudante vencido. Me diz o que eu faço, Rê.
Renata não respondeu. Porque não havia resposta. Havia apenas a matemática brutal da sobrevivência — o preço de um corpo oferecido para pagar o coração defeituoso de uma mulher em Belo Horizonte que costurava vestidos de noiva para as filhas dos outros enquanto a própria filha se preparava para ser vendida num leilão na Europa.
§
O corredor que levava ao salão principal era longo e cheirava a lírio e cera de vela. Os saltos — também emprestados, meio número menor que o pé de Helena — estalavam no piso de mármore como metrônomo. À frente, uma mulher de preto com fone de ouvido e prancheta organizava a fila com a eficiência de quem montava esse tipo de evento como outros montavam casamentos.
— Nomes artísticos apenas. — A mulher nem levantou os olhos. — Qual o seu?
Helena hesitou. Renata havia dito para escolher algo europeu, neutro. Algo que não a identificasse.
— Lena.
— Lena. — Anotou. — Número quatro. Quando chamarem, você sobe pelo corredor da esquerda, fica no centro do palco, não fala a menos que alguém pergunte, e sorri. Entendeu?
— Entendi.
— Sem chorar no palco. Aconteceu uma vez e o cliente pediu reembolso.
Helena mordeu a parte interna da bochecha até sentir gosto de ferro. Engoliu a resposta que subiu — a resposta em português, ácida, que teria feito dona Célia lavar sua boca com sabão. Engoliu e andou.
O salão era maior do que esperava. Teto com afresco renascentista — anjos gordos, nuvens douradas, um Deus que olhava para baixo com a expressão de quem já viu o suficiente e desistiu de intervir. Lustres de cristal com velas reais, não elétricas. Cortinas de veludo escuro nas janelas altas. E cadeiras. Três fileiras dispostas em semicírculo diante de um tablado baixo coberto de cetim preto. Como uma plateia. Como um teatro.
Helena quase riu. Quase. Porque conhecia teatros — passara metade da vida dentro deles. E sabia que a diferença entre um palco de concerto e aquele tablado era simples: num, o público pagava para ouvir. No outro, pagava para possuir.
As cadeiras estavam ocupadas. Homens. Exclusivamente homens. Trajes escuros, relógios que custavam mais que o apartamento da mãe de Helena, bebidas âmbar em copos pesados. Pouca conversa. Pouca luz. O ar cheirava a charuto, colônia cara e o tipo de poder que não precisa se anunciar porque já ocupa todo o espaço.
A primeira mulher subiu. A loira natural. Bonita, segura, sorriso profissional. O leiloeiro — um homem magro de smoking que falava como se vendesse arte, não gente — descreveu atributos com a suavidade obscena de quem embala crueldade em papel de seda. Idade, idiomas, habilidades. A palavra "disponibilidade" repetida como eufemismo. Os lances subiram rápido. Trinta mil. Quarenta. Sessenta. Martelo.
A segunda. A terceira. Helena ouvia do corredor, o estômago contraído, os dedos tocando Bach no ar.
— Número quatro. Lena. Sobe agora.
Helena respirou. O ar entrou quente e saiu frio.
O tablado era de dois degraus. Subiu devagar, não por efeito — porque os saltos apertados não permitiam pressa. A luz era mais forte ali em cima, direcionada como spot de palco, e por um instante absurdo Helena sentiu o reflexo muscular de se posicionar como se fosse tocar. Ombros abertos, queixo levantado, mãos ao lado do corpo. Postura de concertista. A única coisa que sabia fazer quando estava apavorada.
O leiloeiro começou. Vinte e sete anos. Brasileira. Músicista.
Helena olhou para a plateia sem ver rostos — a luz a cegava na direção certa. Sombras masculinas. Silêncio mastigado por gelo em copos e respirações contidas. O perfume misturado de colônias diferentes era enjoativo, adocicado, pesado.
— Começamos com vinte mil euros.
Um lance. Dois. O leiloeiro narrava com a mesma cadência de quem conduz um allegro — rápido, crescente, previsível. Trinta e cinco mil. Quarenta.
Então parou.
Helena não entendeu por quê. O leiloeiro olhou para o fundo do salão, para uma zona de sombra que as velas não alcançavam, e sua expressão mudou. Não medo — algo mais próximo de deferência. O tipo de respeito que se concede a quem pode destruir você com uma palavra.
Uma mão se levantou no escuro. Sem pressa. Sem ostentação. Um gesto tão econômico que poderia ter sido imaginação.
— Duzentos mil euros — disse o leiloeiro, e a voz dele falhou no final.
O silêncio que se seguiu tinha textura. Denso, espesso, como a pausa entre o último acorde e os aplausos, aquele instante em que o som morre e o mundo decide o que sentir.
Ninguém cobriu.
Helena apertou os olhos, tentando enxergar além da luz. No fundo, na última fileira, uma forma escura — terno preto, camisa escura, nenhum brilho de relógio ou anel. Um homem que parecia feito da mesma matéria da sombra ao redor. Imóvel. Imóvel demais.
O leiloeiro esperou cinco segundos. Dez. Pigarreou.
— Duzentos mil euros. Há mais algum lance? — O martelo girou nos dedos dele como tique nervoso. — Senhores?
Nada.
Helena sentiu o frio subir pelas pernas e se instalar no centro do peito. Duzentos mil euros. Uma quantia que não pertencia ao mesmo universo dos quarenta e dois mil que precisava para salvar a mãe. Uma quantia que comprava carros, apartamentos, silêncios. Uma quantia que dizia: eu posso pagar o que quiser, e o que eu quero é você.
O martelo bateu. O som atravessou o salão como tiro.
— Vendida.
A palavra caiu sobre Helena como cimento fresco — pesada, úmida, impossível de remover depois de seca. Vendida. Como quadro. Como imóvel. Como animal de raça num catálogo de criadores.
§
Nos bastidores, a mulher de preto a conduziu por um corredor diferente. Mais estreito, mais silencioso, mais frio. Os saltos de Helena marcavam cada passo como batida de coração irregular.
— Onde estamos indo?
— Suite del Doge. O cliente solicitou entrega imediata.
Entrega. Como se Helena fosse pacote. Encomenda. Mercadoria rastreada.
Pararam diante de uma porta dupla de madeira escura com maçanetas de bronze. A mulher bateu duas vezes — seco, protocolar — e abriu.
O quarto era enorme. Cama de dossel no centro, lençóis brancos que pareciam nunca ter sido tocados. Janelas altas com cortinas de veludo bordô, entrebertas o suficiente para deixar entrar a brisa noturna de Veneza — sal, água parada, a memória de alguma coisa apodrecendo com elegância. Velas no console da lareira apagada, chamas baixas que desenhavam sombras nas paredes como espectros convidados para a festa.
Helena entrou. A porta se fechou atrás dela.
O quarto estava vazio.
Ficou parada no centro, os braços cruzados sobre o peito, os dedos tocando Bach nos próprios cotovelos. Esperou. O silêncio era absoluto — tão profundo que ouvia o próprio sangue nos ouvidos, o atrito do vestido contra a pele, a respiração que tentava controlar e não conseguia.
Um minuto. Dois. Cinco.
A porta se abriu sem som. Ou com um som tão mínimo que Helena só percebeu quando o ar do quarto mudou — ficou mais frio, mais denso, como se alguém tivesse trazido consigo a temperatura de outro lugar.
Ele estava parado na soleira.
Alto. Mais alto do que parecera na sombra do salão. Magro de uma magreza que era tensão, não fraqueza — o corpo de um homem que não comia por prazer, comia por necessidade. Terno preto, impecável, abotoado como armadura. Camisa escura sem gravata. Um fio de cabelo branco na têmpora esquerda que destoava do preto como cicatriz. E os olhos — cinza-esverdeados, fixos nela com uma intensidade que não era desejo.
Era outra coisa. Algo que Helena não conseguia nomear mas reconhecia com a parte mais antiga do cérebro, a parte que identificava perigo antes da razão intervir.
Ele não se moveu. Ficou ali, na porta, olhando para ela como quem vê algo impossível. Como quem vê uma morta caminhar.
O silêncio durou tempo demais. Helena abriu a boca para falar — porque o silêncio era pior que qualquer palavra — mas antes que o som saísse, ele falou. Baixo. Tão baixo que ela precisou inclinar o corpo para frente para ouvir.
— Violoncellista.
Não era pergunta. Não era cumprimento. Era o som de um homem dizendo algo para si mesmo, testando uma palavra na boca como quem prova veneno.
Helena engoliu seco.
— Você sabe o que eu toco?
Ele não respondeu. Entrou no quarto com passos que não faziam barulho — sapatos caros, piso de pedra, o andar de alguém acostumado a se mover sem ser percebido. Parou a três metros dela. O cheiro dele chegou antes de qualquer outra coisa: sândalo, lã fria, e algo amargo que lembrava whisky caro ou arrependimento.
Os dedos dele foram ao punho da camisa. Desabotoaram o botão do punho esquerdo. Reabotoaram. Desabotoaram de novo.
— Eu sei — ele disse, ainda olhando para ela daquela maneira que era quase insuportável — muitas coisas sobre você.
Helena sentiu o medo mudar de forma. Não era mais o medo do desconhecido. Era pior. Era o medo de alguém que conhecia seus contornos antes de ela entrar no quarto.
— O leiloeiro disse que a noite termina às seis da manhã — ela disse, e odiou o tremor na voz. Ergueu o queixo. — Então. O que você quer?
Ele ficou em silêncio por um tempo que pareceu geológico. Os olhos cinza-esverdeados percorreram seu rosto com uma lentidão que era quase cirúrgica — testa, sobrancelhas, maçãs do rosto, boca, a linha do maxilar. Não o corpo. Não o vestido. O rosto.
Quando finalmente falou, a voz era ainda mais baixa que antes. Um sussurro com peso de avalanche.
— Que você fique parada. Exatamente assim.
Helena não se moveu. Não por obediência. Por instinto.
Ele recuou até a poltrona no canto do quarto — veludo escuro, braços gastos — e sentou-se. Cruzou as pernas. Os dedos voltaram ao botão do punho.
E ficou olhando para ela.
O silêncio se esticou. Helena sentiu o suor frio nas costas, o vestido grudando na pele, a respiração presa como nota sustentada. Os dedos da mão direita tamborilaram contra a coxa — Bach, sempre Bach quando o medo era grande demais para caber em palavras.
Dez minutos. Quinze. O homem não falou. Não se moveu. Não tirou os olhos dela.
Helena não aguentou.
— Você pagou duzentos mil euros para me olhar?
Algo mudou nos olhos dele. Não era sorriso — os lábios não se moveram. Era algo por trás, como uma rachadura num vidro que não se vê, mas se ouve.
— Fale — ele disse.
— Sobre o quê?
— Sobre qualquer coisa.
Helena abriu a boca. Fechou. Sentiu a loucura e o alívio competindo pelo mesmo espaço no peito. E porque era quem era — uma mineira de Belo Horizonte que lidava com o absurdo do único jeito que sabia, transformando-o em som — ela falou.
Falou sobre Bach. Sobre as Suítes para Violoncelo Solo e como a primeira era uma porta e a sexta era um abismo. Sobre resina de arco e como o cheiro grudava nos dedos por dias. Sobre Milão e como a cidade era bonita da maneira que uma faca é bonita — afiada, fria, feita para cortar. Falou em italiano com sotaque brasileiro que engrossava nas vogais abertas, e em alguns momentos o português invadia sem pedir licença, e ela se corrigia, e ele não.
Ele ouviu. Imóvel. Os dedos pararam de mexer no botão do punho em algum ponto entre Bach e a descrição do Navigli à noite. Os olhos não piscaram — ou piscaram tão raramente que cada vez parecia uma concessão.
Quando Helena parou de falar — porque a voz ficou rouca e o medo tinha sido substituído por uma exaustão estranha que se parecia com intimidade — ele se levantou.
Caminhou até ela. Parou perto o suficiente para que ela sentisse o calor que ele não emanava. Mãos frias. Homem frio. O cheiro de sândalo era mais forte de perto, misturado com o álcool e algo que lembrava metal — arma, pensou Helena, e a ideia deveria tê-la apavorado, mas o pavor já tinha sido gasto.
Ele levantou a mão. Os dedos pararam a centímetros do rosto dela. Não tocaram. Desenharam o contorno do maxilar no ar, como quem lembra um caminho percorrido muitas vezes.
— Obrigado — disse ele. Depois: — Descanse. O quarto é seu até amanhã.
Virou-se e caminhou para a porta. Helena ficou parada, o coração numa frequência que não era medo nem alívio — era algo sem nome, algo novo.
— Espera.
Ele parou. Não se virou.
— Nem seu nome você vai me dizer?
O silêncio durou três batidas.
— Valenti — disse, e saiu.
A porta se fechou. Helena ficou sozinha no quarto com cheiro de vela e sândalo e algo que não era mais medo.
Era a certeza irracional, absurda, instalada como nota grave no peito — de que aquele homem não a tinha olhado com desejo.
Tinha olhado com dor.